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A mídia “golpista” é indispensável para a democracia

por Luiz Eduardo Peixoto (21/05/2017)

Os escândalos do governo Temer, como os de Lula e Dilma, foram divulgados pela imprensa livre.

Era início da noite de quarta-feira quando o jornalista Lauro Jardim soltou, pelo site do jornal O Globo, as primeiras manchetes anunciando um escândalo que pode, possivelmente, levar à segunda queda de um presidente em pouco mais de um ano. Em alguns minutos, ações e títulos brasileiros negociados no mercado de futuros dos Estados Unidos desabam, prenunciando o que seria um dia caótico para o mercado financeiro. A bolsa de valores chegou a suspender negociações, e o risco-país do Brasil dispararia 35% na quinta-feira, se aproximando do argentino.

Algumas análises vêm apontando a falta de responsabilidade do jornalista responsável pela divulgação das gravações, já que o conteúdo completo, quando divulgado, foi um pouco menos explosivo do que inicialmente sugerido por Jardim e sua equipe no diário carioca. Trata-se, afinal, do presidente da República, e de um momento crítico para o país, de votação de reformas estruturais. Esboça-se, finalmente, alguma recuperação econômica, após a maior crise da história. As contas públicas, em frangalhos após uma década de populismo rasteiro, ganham perspectivas mais sustentáveis com mudanças nas regras previdenciárias.

Ainda que isto seja verdade – e me pareceu mesmo exagerado a forma como foi noticiada o conteúdo dos áudios – a atuação do jornalista, e a própria averiguação do caso, deve ser saudada. Não é papel da imprensa evitar disrupções. O compromisso do jornalista deve ser com os fatos, e, nas palavras de Jardim, as referências sempre se baseavam no material dos irmãos Batista – estes sim, podem ser passíveis de questionamento.

A imprensa é o principal partido de oposição”, estampava manchete da CartaCapital dos tempos do governo de Dilma Rousseff (PT) – revista cujo crescimento foi forjado com verba de publicidade do governo, inclusive. E espero que esteja certa.

É essencial para a capacidade de vigília da sociedade uma imprensa investigativa forte, questionadora, confrontativa. Índices de corrupção, no mundo, têm forte correlação inversa com a liberdade de imprensa de um país, conforme atestam diversos estudos empíricos, e mesmo isolados de variáveis de subdesenvolvimento, desempenho econômico ou força da lei.

Comparação entre níveis de corrupção (quanto mais alto, pior) e liberdade de imprensa (100=totalmente livre) entre 125 países, entre 1994 e 1998. Extraído de “A Free Press is Bad News for Corruption”

A mídia é extremamente perigosa para políticos em geral, sobretudo para aqueles corruptos ou dotados de ambições megalômanas, autoritárias. Não é à toa que Hugo Chávez, na Venezuela, iria gastar parte de sua energia em regular a mídia – cassando licenças de televisões e controlando o fornecimento de papel para impressão de jornais – ou que em Cuba só circule o Granma, jornal estatal que reproduz manchetes enaltecendo o regime comunista. A ditadura militar tailandesa, que parece querer se fixar no poder, tenta passar conjunto de leis prevendo maiores punições a ações “irresponsáveis” da imprensa, já relativamente chapa-branca.

No Brasil, um exemplo recente do valor vital da imprensa foi a investigação de O Estado de S. Paulo sobre as pedaladas fiscais do governo Dilma – pedaladas que, aliás, serviram para encher a JBS de subsídios, via BNDES e Banco do Brasil. Sem um jornalismo forte e independente, não teria vindo à luz um dos crimes mais sérios que a administração pública pode cometer contra a população – esconder os números reais do governo.

Ainda que a política planaltina tenha razoável grau de vigilância, a realidade ao redor do país é muito díspar. Frequentemente, nós figuramos nas primeiras posições da infame lista de jornalistas assassinados exercendo o trabalho, sobretudo por ocorrências no Norte e Nordeste – onde oligarquias políticas e econômicas detêm poder também sobre outros veículos de controle, como o Judiciário e as polícias. Investigações jornalísticas sobre crimes nesses locais são conduzidas quase que somente por veículos do Sudeste com penetração nacional, como o Estado ou a Folha.

A nível nacional, porém, o governo também exerce considerável poder, via ameaças de regulação ou redistribuição de concessões, ou por meio de recursos, já que opera a maior conta única de publicidade do país. Só em 2014, ano de eleições, a presidência da República gastou com publicidade mais de R$ 1,1 bilhão, em peças publicitárias que continham desde “O país das chuteiras – vai Brasil!” até o festejo de obras do Minha Casa Minha Vida e da transposição do Rio São Francisco.

Isto sem contar outros gastos com propaganda, mas fora da rubrica oficial, como a gigante EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), que inclui a TV estatal. Criada em 2007 sob justificativa de democratizar os meios de comunicação, “dando voz aos que não aparecem” (sic), opera na prática como um altar do governante da vez – e custa mais de R$ 550 milhões ao ano. Todas esses instrumentos, na prática, buscam competir com a imprensa autônoma e reduzir seu alcance, com o objetivo de enfraquecê-la.

Isto é um risco para a sociedade. É justo em momentos de crise, de incerteza, que a mídia lança uma luz. Permite esclarecer e expor fatos e dúvidas. Por isto é frequentemente chamada de golpista, pois em geral dá o gatilho de mudanças repentinas.

Em 1992, por exemplo, com publicações da revista Veja expondo os excessos do então presidente Fernando Collor, revelando um esquema de troca de favores, então chocante – hoje módico, talvez.

Em 2004 e 2005, a revista repetiria o feito com as revelações do mensalão, em que a gestão Luiz Inácio Lula da Silva comprava o apoio do Congresso por meio de propina. Outros meios, concorrentes da Veja, iriam empreender verdadeira corrida para apuração e divulgação dos fatos, levando a uma multiplicação de fontes, material e escândalos.

Caso a mídia mainstream brasileira fosse apenas um joguete de interesses, certamente não teríamos tido a ampla divulgação do caso JBS, muito menos da forma como veio a tona. Afinal, uma economia em recuperação interessa e muito a grandes grupos de mídia – e, novamente, o governo é detentor da maior conta de publicidade única do país.

Para nossa sorte, me parece que há, no Brasil, forte concorrência entre os grandes jornais e revistas, em um mercado que viu suas margens caindo sensivelmente nos últimos anos – e ganhou como forte competidor as mídias sociais e seus pseudojornalistas. Além disso, sofreu ataque indireto nos anos Dilma-Lula, onde verbas foram remanejadas de forma a dar crescimento para meios “alternativos”, cuja única razão de ser era agir como linha auxiliar do lulopetismo.

O interessante: os escândalos que eclodiram desde o início do governo Temer foram todos divulgados pela imprensa tradicional – a mesma “golpista de direita”, nos termos do petismo vulgar, que havia conspirado para colocar o peemedebista no cargo. Nenhuma das notícias relevantes danosas a Temer veio dos veículos ligados ao petismo, até porque estes não são jornalísticos, mas puramente de propaganda. Não pretendem investigar; apenas distorcer e manipular.

As críticas apareceram desde a composição de ministérios no governo, que obedeceram mais a critérios políticos que técnicos, passaram pela divulgação ampla da gravação do ex-ministro Marcelo Calero (Cultura) – onde primeiro se conjecturou o fim do governo Temer – e agora têm seu ápice com o jornal das Organizações Globo.

A imprensa política do país, visivelmente operacional – conforme os últimos anos vêm demonstrando – deveria ser percebida, institucionalmente, como um canhão de luz. Para o Brasil, afundado em escândalos e com muitas de suas instituições demonstrando deslizes inacreditáveis e práticas pouco ortodoxas, isto deveria ser especialmente valorizado. Resta ver se a mídia irá a fundo na raiz dos eventos – um coordenado saque de recursos públicos, por meio de uma estratégia neodesenvolvimentista que uniu grandes conglomerados e o governo, com a combinação de subsídios e empréstimos de bancos estatais.

Luiz Eduardo Peixoto

Graduando em economia na FEA-USP.