PESQUISA

Sim, vamos falar de putaria (2)

por Martim Vasques da Cunha (03/06/2016)

A putaria da qual os rapazes e as moças da Nova Direita têm tanto medo é o que poderia lhes dar uma noção mais complexa do que é a vida em sua ambiguidade.

sabbath_s-theatre-by-philip-roth

É impressionante como o debate intelectual brasileiro se resume o tempo todo a um sistema de cooptação: se você, por exemplo, fala que a Nova Direita deve ler Henry Miller, logo a esquerda vem e diz que o escritor americano não pode ser reduzido a “peitos e xotas”; ou então vem a própria Nova Direita e afirma explicitamente que não conseguiu entender nada do que eu quis dizer ao afirmar que “precisamos de mais putaria e de menos ideologia”.

Já que a minha missão neste mundo é irritar ainda mais quem pensa que está no comando da situação, aí vai a minha provocação do dia: eu acho sinceramente que o verdadeiro gentleman conservador não deva se espelhar em modelos como Edmund Burke, Joaquim Nabuco e outros – e sim no velho e bom titereiro criado pelo escritor norte-americano Philip Roth, Mickey Sabbath.

Sabbath é o personagem principal do melhor romance de Roth, intitulado nada mais nada menos que O Teatro de Sabbath. Ele é um devasso que não hesita foder a sua amante no cemitério; não hesita em apalpar enfermeiras em asilos para dementes; não hesita mostrar a sua “seta do desejo” para a esposa do seu melhor amigo; e não está nem aí em mexer nas calcinhas da filha deste mesmo amigo, principalmente porque ela tem menos de dezoito anos.

O livro, em si, é um triunfo de estilo e narrativa que mostra Roth no ápice dos seus poderes literários; mas o que instiga é a atitude de Sabbath diante do mundo, apesar de todas as tragédias que viveu (a morte do irmão, a instabilidade da sua própria vida, o trágico fim de sua amante). Ele pode ser um putanheiro, um ser absolutamente incapaz de se controlar em suas paixões e em seus vícios, mas, talvez justamente por isso, consegue compreender melhor do que ninguém o maravilhamento diante da própria vida – e, diante da morte e do ódio que consome seu próprio coração, encontrar um sentido para a sua existência.

Ou seja, a putaria da qual os rapazes e as moças da Nova Direita têm tanto medo é o que poderia lhes dar uma noção mais complexa do que é a vida em sua ambiguidade. Sabbath parece ser um ser imoral, mas tem um código de honra que respeita certas conveniências de uma humanidade que não se esfacelou por completo. Ele aceita o risco e a incerteza como seu norte. E quando percebe que essa mesma atitude o levou a nada, e que a única coisa que lhe sobrou foi o encontro com sua própria finitude, é então que acontece o milagre: o ódio pelo o que aconteceu no seu passado se transforma no ímpeto central para continuar a viver.

Em outras palavras, meus amigos: menos Mises, menos Reinaldo, menos Uncle Olaf, menos Pondé, menos economia, menos política, menos Marx, menos Gramsci, menos Paulo Freire – e mais Henry Miller, mais Philip Roth, mais Mickey Sabbath, mais literatura, mais ficção, mais poesia. Enfim, mais vida.

Martim Vasques da Cunha

Autor de Crise e utopia: O dilema de Thomas More (Vide, 2012) e A poeira da glória (Record, 2015). Pós-doutorando pela FGV-EAESP.