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A campanha criminosa da chapa Dilma-Temer instalou no país uma situação oposta a qualquer revigoramento.

Os protestos de 2013 e as eleições de 2014 podem ter sido os grandes gatilhos da nossa história recente.

Do Plano Real ao governo Lula, o Brasil deve ter vivido a fase mais harmônica da sua democracia. Este período acabou com a reaparição dos movimentos de massa, em 2013. Trazendo à tona as demandas que aquela fase não conseguiu enfrentar, eles não estiveram presos a apenas um ou outro grupo ideológico.

Acho difícil decifrar aquilo que o país mais exigiu de si mesmo em 2013. Mas, a despeito da diversidade daquelas demandas, nunca duvidei que a democracia era um limite inquestionável. A mentalidade adolescente dos que se engajam com violência ou a estupidez caduca dos que pedem a volta da ditadura nunca se impuseram como a representação correta da vontade da maioria.

Elas sempre foram as extremidades de uma agitação muito mais básica, muito menos radical: “Então é assim que se joga em um país democrático? Vamos jogar para valer!”

Algo que 2013 reivindicava, certamente, é que a democracia fosse levada mais a sério, que as suas instituições estivessem mais próximas dos eleitores, e que fosse possível reconhecer, nas decisões dos que recebem o poder de mando, um esforço positivo para atender as demandas que se acumulavam.

A grande potência debutante quis tirar a prova. O Brasil quis saber se poderia mesmo sair do subdesenvolvimento.

Aí vieram as eleições de 2014.

A resposta da classe política deixou ver que não basta as instituições “funcionarem” – é preciso que elas se revigorem constantemente. A campanha criminosa da chapa Dilma-Temer instalou no país uma situação oposta a qualquer revigoramento.

Assim, as exigências políticas de 2013 tiveram que fazer o cortejo fúnebre de um projeto falido e economicamente insustentável. Um projeto de mentiras, que já não mantinha sequer a sua identidade de esquerda – embora ainda seja defendido por boa parte dela.

Por tudo isso, o resultado da votação de ontem no TSE é simbolicamente forte. A desconstrução da chapa Dilma-Temer é uma consequência natural da sua própria vitória nas eleições, e caberia ao TSE participar dessa desconstrução, explicitando finalmente o quanto o país errou em 2014.

Mas, assim como o impeachment foi incompleto, com Lewandowski favorecendo a manutenção dos direitos políticos de Dilma, o julgamento de ontem não encaminhou as mudanças que a maioria do país gostaria de ver (uma maioria que no começo de 2015 já reprovava Dilma, e agora reprova Temer). Mais habilidoso que a sua colega de chapa, Temer conseguiu se manter no poder. Gilmar Mendes tornou-se o ícone de um judiciário que não está à altura da democracia séria que exigimos.

Bom para Temer. Bom também para o PT, com a sua pirotécnica narrativa de golpe. Ruim para o Brasil.

Rodrigo Cássio

Professor e pesquisador. Autor de Filmes do Brasil Secreto (Ed. UFG).