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Junho de 2017: o anti-junho de 2013

por Paulo Roberto Silva (10/06/2017)

O golpe de verdade vem agora. É o momento do “salva Lula, salva todo mundo”.

Pela primeira vez desde junho de 2013, a classe política pôde começar a reagir aos efeitos da onda de manifestações que mudou o país. Esta reação se deu em três frentes: na decisão do TSE que absolveu o caixa dois em nome da governabilidade, na ofensiva contra a JBS e no artigo do ex-prefeito Fernando Haddad na revista Piauí.

Basicamente, neste texto vamos traçar um nexo causal entre as manifestações de junho de 2013 e a Lava Jato, ainda que indireto. Em seguida mostraremos o esforço de desconstrução de junho por parte dos intelectuais da esquerda, e como eles acabaram fazendo o trabalho sujo do status quo corrupto. Por fim, avaliaremos porque finalmente se tornou possível uma reação da quadrilha que exerce o poder. Na conclusão, traçaremos os principais impactos possíveis desta contra-ofensiva no ambiente econômico e nas eleições de 2018.

De junho de 2013 à Lava Jato

Junho de 2013 permanece como um caminhão que atropelou o país e ninguém conseguiu anotar a placa. Contudo, quem observou de perto aquele movimento sabe que para compreendê-lo precisamos recuar um pouco no tempo, para o cerne da narrativa de Brasil Grande que marcou o período lulista: a ascensão da assim chamada “Nova Classe Média”.

Não, não se trata de repetir o discurso petista de que junho foi a reação da classe média conservadora contra a ascensão dos pobres. Vamos desconstruir isso quando falarmos do artigo do Haddad. Por agora, o que queremos afirmar é o oposto: junho de 2013 foi o resultado das frustrações dos pobres que ascendiam com as dores de sua frágil ascensão.

Há uma profunda ignorância na intelectualidade sobre o que significou para os mais pobres o acesso a bens e serviços promovido pelo governo do PT, em termos de quebra de expectativas. Mas desde o início desta década os relatos começaram a aparecer. A possibilidade de comprar um carro novo não foi acompanhada de planejamento urbano, gerando sérios problemas de tráfego justamente onde a malha viária era mais deficiente, a periferia. A criminalidade explodiu, com as capitais nordestinas apresentando os mais altos índices de homicídio por mil habitantes. A intervenção na Unimed Paulistana expôs o mau atendimento a que os planos de saúde submetiam os mais pobres. E a baixa geração de empregos de alta qualificação condenou o pobre beneficiado pelo ProUni a empregos precários.

De todos os intelectuais que analisaram o fenômeno, quem melhor entendeu o processo foi Ruy Braga, em A política do precariado. Ainda assim, ao se prender aos setores organizados do que ele chamou de precariado, escapou-lhe as mudanças de percepção que aconteciam nas massas da periferia. Curiosamente, ela foi pescada sem querer por Jessé Souza, em Os batalhadores brasileiros. Ele foi o primeiro a identificar, quase sem querer, o surgimento de um ethos do mérito e do trabalho nas massas precarizadas, e como o discurso religioso e individualista ia de encontro à experiência de vida dos mais pobres. Ao contrário do que esperava o lulismo, o pobre identifica sua ascensão a um esforço pessoal, e vê nas limitações do que o governo oferece os indícios de que há algo errado com o poder. O populismo lulista, quem diria, ajudou o pobre a se tornar um individualista.

Esse caldeirão de insatisfação explodiu em junho de 2013. É impossível entender o crescimento das manifestações sem levar em conta a experiência diária dos mais pobres, especialmente dos jovens, com o transporte público e com a polícia. Ao prometer o céu e entregar um emprego precário que exige quatro horas de deslocamento em um ônibus caro e ruim, o petismo fez com que vinte centavos custassem muito caro. Ao não fazer nada para mitigar o eterno estado policial na periferia – pelo contrário, estimulando-o por meio da narrativa da pacificação de favelas – fez com que a repressão a junho intensificasse a revolta. Pela primeira vez desde a onda de saques em 1983, o establishment político perdeu o controle da massa.

Quando a corrupção entrou na pauta de junho, não se pode dizer que houve um desvirtuamento do movimento, com a adoção de uma “agenda conservadora”. Pelo contrário, o combate à corrupção é o reflexo da experiência ruim da periferia com os serviços públicos. Na cabeça do pobre, os casos de corrupção têm relação direta com a escola ruim, o posto de saúde que não funciona e o ônibus caro. Não tinha como junho não se desdobrar em uma denúncia do regime.

Por isso, movida por um instinto primitivo de sobrevivência, a classe política tratou de dar uma resposta a esse clamor. Sob a liderança de Dilma e Renan Calheiros, foram desencavados diversos projetos de lei que reforçavam o combate à corrupção, e que criavam teias de aranha em algumas comissões. A Lei de Combate à Corrupção, inspirada no Bribery Act britânico e no Foreign Corruption Practicing Act (FCPA) norte-americano, criou mecanismos para punição das empresas. A nova Lei de Combate ao Crime Organizado regulamentou a delação premiada e empoderou o judiciário para o combate a quadrilhas. E o Projeto de Emenda Constitucional 37, que reduzia o poder de investigação do Ministério Público, foi enterrado.

Essas três medidas são fundamentais para se compreender como a Lava Jato pôde ir tão longe. A Operação Castelo de Areia, que investigou propinas pagas pela Camargo Corrêa, e a Satiagraha, que chegou a prender o banqueiro Daniel Dantas, foram devidamente enterradas nos tribunais superiores, com a participação ativa de Gilmar Mendes. Nenhuma das duas contava com as proteções institucionais que foram criadas a partir de junho de 2013. Uma avaliação racional da nossa elite política teria evitado a aprovação deste novo marco legal. Mas, acuados, os políticos tiveram uma reação reptiliana de perder os anéis (da H-Stern) para manter os dedos.

Deslegitimando junho

A intelectualidade de esquerda atuou para tirar significado de junho desde o primeiro momento. Do “tem algo muito estranho” produzido por uma militante do PCB provavelmente centralizada pelo seu partido, ao “Erdogan e Putin me telefonaram” do artigo de Haddad, houve um claro esforço de associar a revolta de junho a uma agenda conservadora. Ao mesmo tempo, direcionaram contra a pauta de junho uma narrativa de medo, deflagrando no inconsciente da militância o temor de um golpe de estado.

Contudo, havia uma pedra no meio do caminho: a Narrativa do Golpe nunca colou na periferia. Pelo contrário, são os mais pobres os mais críticos aos resultados do lulismo, os maiores opositores ao Temer, os maiores defensores do impeachment de Dilma. A elite política não consegue entender porque o pobre se opõe a Dilma e a Temer. Ela não entende a filosofia política do Tiozão do Churrasco: são todos farinha do mesmo saco.

O efeito imediato da deslegitimação de junho foi alienar ainda mais a periferia do status quo político. A periferia não vai aderir a manifestações convocadas por aqueles de quem ela desconfia. Ela vai é aderir às soluções antipolíticas: João Dória, Marcelo Crivella, Kalil, Bolsonaro…

A hora do golpe

Até maio, quando surgiu a delação premiada da JBS, a classe política estava no corner. Ela sequer conseguiu aprovar a anistia ao caixa dois ou a reforma da previdência em sua forma original. Impeachment, sustentação da Lava Jato, pressão contra reformas, é tudo fruto da mesma pressão e insatisfação da cidadania. E o grosso dela está na periferia.

Não à toa, Michel Temer parecia sempre acuado em suas manifestações públicas. Quando, no Roda Viva, ele diz “vamos deixar a Lava Jato em paz”, é visível o seu desconforto. Isso mudou após a delação de Joesley Batista. Ali parecia que o vampirão havia tomado uma boa safra de sangue da Transilvânia, e estava vitalizado, corado.

A Narrativa do Golpe exerceu um papel desmobilizador importante que fortaleceu a quadrilha. Ela impediu que a esquerda, uma vez no poder, unisse esforços com a nova direita contra Temer quando houve oportunidade, no final de 2016. Houve reciprocidade da nova direita por ocasião da greve geral de abril de 2017. O cidadão comum, diante de tanto mimimi, ficou em casa.

Se após a delação da JBS tivesse havido manifestações multitudinárias pelo Fora Temer, ele permaneceria acuado. O mesmo se o mercado financeiro tivesse pulado fora. Mas não, a segunda quinzena de maio mostrou a Temer que não há o que temer. O processo de desmobilização, no qual a direita tem responsabilidade mas a esquerda foi a principal promotora, deu ao governo a força de que precisava para atacar.

O primeiro passo foi a ofensiva contra a JBS. A Âmbar Energia perdeu o contrato de fornecimento de gás da Petrobras, o que a inviabiliza operacionalmente. Na sexta feira a Polícia Federal foi para cima das empresas do grupo. E provavelmente não vai parar por aí. Odebrecht, UTC, Andrade Gutierrez e OAS deverão sofrer perseguição por conta das suas delações.

No TSE, a desmobilização permitiu assar a primeira pizza da Lava Jato. O 4 a 3 patrocinado por Gilmar Mendes e o juiz delatado Napoleão Maia foi um aperitivo de uma ofensiva que deve envolver também o STF, para paralisação da Lava Jato. Em setembro o Procurador-Geral da República Rodrigo Janot será substituído, e a chance de um engavetador-geral da República ser nomeado não é pequena.

Ao mesmo tempo, o artigo de Haddad completa a deslegitimação da Lava Jato. Quatro anos depois, o ex-prefeito tranquilão pode tranquilamente atribuir a maior manifestação de massa da História a uma manobra conservadora, e incluir uma fanfic sobre telefonemas de Putin e Erdogan. Afinal, até o PSOL, parte ativa de junho, já aceitou se tornar ala esquerda do petismo. Até um amplo setor do PSTU rompeu para ter o direito de passar vergonha defendendo Lula.

Essa é a hora de proteger a Lava Jato de seus inimigos. Porque, meus amigos, o golpe de verdade vem agora.

Para onde vamos

A classe política, liderada pelo governo Temer, botou as asinhas de morcego de fora. Em nome da governabilidade e das reformas econômicas, prepara um golpe de morte sobre as investigações da Lava Jato. É o momento do “salva Lula, salva todo mundo”.

Contudo, a alienação da sociedade civil pela classe política é irreversível. O mesmo podemos dizer dos grandes grupos econômicos. Eles já pagaram um custo alto protegendo o governo. O resultado da ofensiva do governo sobre delatores pode ser o atraso da recuperação econômica, é o afastamento dos melhores fornecedores do setor público. Andrade Gutierrez, Odebrecht e OAS já decidiram não fazer mais negócio com governos. JBS mandou sua operação no Brasil às favas. A vingança da ladroagem estatal só fará desorganizar mais a economia. É o Plano Real ao contrário.

No campo político, a pizza vai alimentar o salvacionismo. O melhor posicionado é Bolsonaro, mas as conversas de Joaquim Barbosa com a Rede criam mais uma candidatura capaz de capitalizar a insatisfação popular. Pode deslegitimar junho, mas a periferia continua na pior. E isso, associado ao ambiente que temos, é nitroglicerina pura.

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Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.