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A elite progressista contra o populacho

por Elton Flaubert (13/08/2015)

Petistas ou antipetistas, nossas elites estão sempre falando em nome da liberdade e da emancipação

Prudente de Morais, presidente da república durante a Guerra de Canudos

Prudente de Morais, presidente da república durante a Guerra de Canudos

1.

Rememorar o que se passou (e dele obter uma expectativa de futuro) como um processo de emancipação, de crescente liberdade, que se depara e enfrenta o antiquado, é uma visão comum no mundo moderno, principalmente entre os intelectuais, mesmo os mais diferentes entre si.

Já no século XVI, o jurista francês Jean Bodin desejava estabelecer os princípios de uma história da civilização que alcançasse a causalidade dos acontecimentos, rompendo com o providencialismo cristão. Para Bodin, as mudanças históricas se submeteriam a leis gerais, demonstrando as etapas que a humanidade cumpriria. Assim, não há mais na história da humanidade a compreensão da queda com seu desfecho final (o apocalipse), mas o inverso: o mundo não para de progredir. Antigamente, “os homens viviam dispersos pelos campos e nos bosques como verdadeiras bestas selvagens”. Agora, há a bússola, o comércio, a descoberta do Novo Mundo. Bodin era um progressista da sua época.

Segundo o Etymology Dictionary, a palavra progresso vem do latim progressus, que significa literalmente andar para frente. O primeiro registro de que temos conhecimento data aproximadamente de 1590. De acordo com o próprio dicionário, foi a partir de 1610 que o termo passou a significar desenvolvimento, um processo crescente contra o antiquado e ultrapassado.

Podemos dizer que o conceito de progresso é uma característica da modernidade, da maneira como lidamos com a experiência passada e criamos expectativas futuras. O progresso não é uma filosofia, doutrina ou teoria, mas a reivindicação de uma nova noção de tempo. O progresso transforma o tempo numa construção social. A realidade é construída pela ação dos homens (como já esboçado por Bodin, Maquiavel e outros), e estes, agindo no mundo material, dominando a natureza, descobrindo inventos, técnicas e novos mundos, se creem portadores de um futuro de emancipação em direção à liberdade crescente contra a barbárie do passado. Ser progressista significa falar em nome da liberdade e da emancipação, mesmo que se entendam estas de diferentes maneiras. É possível ser progressista ao mesmo tempo em que se fala contra os progressistas de outrora.

O historiador Reinhart Koselleck, em Futuro Passado (2006), observa que até meados do século XVIII a noção de história universal (Geschichte) com um sentido próprio ainda não estava estabelecida. No início da modernidade, história (Historie) significava eventos particulares que deveriam guiar as condutas dos homens do presente. A rememoração do que havia ocorrido fazia parte da ética e de como os homens deveriam se comportar diante das ambiguidades da realidade mundana como entremeio.

O desenvolvimento da técnica e a ciência moderna operam transformações no cotidiano dos homens. Os filósofos das luzes são os que expressam melhor essa nova concepção de tempo emergente que se manifesta para além da relação passado-presente, onde somente o futuro é desejável. A história torna-se Geschichte, uma unidade sequencial de acontecimentos históricos que, no todo, representam a marcha da humanidade em direção à liberdade e emancipação. O tempo torna-se construção dos homens.

Neste sentido, o termo revolução deixa de significar um movimento circular, onde se voltava ao estado de origem, para significar o “fazer a revolução”, transpor a ordem estabelecida, uma espécie de levante que desfecha uma situação política insustentável diante da emancipação dos homens. A Geschichte dá unidade às transformações modernas, fazendo passado e futuro convergirem em direção à liberdade. O tempo deixa de ser essencialmente estático e passa a ser fluidez. Em especial a partir da Revolução Francesa, o futuro está presente no cotidiano, saturando-o de expectativas. A novidade se desvincula substancialmente da experiência do passado, pois esta se desliga do futuro por representar apenas o que deve ser superado.

O presente passa a distinguir passado e futuro, o lugar carregado de otimismo com o futuro, de expectativa, de clamor em torno da liberdade e da emancipação. O futuro deve ser diferente do passado, deve nos emancipar dos limites e problemas do passado, pois somos artífices do tempo. O tempo histórico torna-se progresso e o século XIX desenvolverá diversas filosofias do progresso.

Como mostra Koselleck, a modernidade nasce quando o homem passa a imaginar o futuro como horizonte aberto à invenção, o presente torna-se o lugar de gestação do amanhã. A grande marca da modernidade é um projeto futuro em nome da liberdade, observado como irreversível.

2.

O que define um progressista é falar em nome da liberdade, da emancipação, desejar um novo mundo superior ao passado, reconhecer as conquistas de até então e querer ir em frente. Há diversas maneiras de reivindicar o progresso. Você poder ser um progressista e, ao mesmo tempo, falar contra o progresso material, a modernização, defender os índios e a natureza. Para isto, basta reivindicar suas ideias como uma extensão da liberdade, observar o tempo como uma construção e criticar os limites do que era o progresso de outrora.

Um progressista sempre fala no tempo como símbolo da verdade: “em pleno século XXI”, “depois de Sade e Nietzsche”, “já lutamos contra x, y e z, agora a nossa luta é”, “2015 e ainda estamos no século XIX”, “neste século não há mais espaço para”, “quanto tempo ainda teremos que aguentar essa visão arcaica”, etc.

O progresso é uma linha que vai gerando diferentes percepções de futuro de acordo com sua reciprocidade no tempo. O que lhe dá unidade é a emancipação, a crítica em nome da liberdade, o entendimento do tempo histórico como uma construção, a leitura do homem como artífice da realidade.

Progressistas podem reivindicar o berço originário do liberalismo (em especial, do liberalismo econômico). Deste modo, liberdade é acima de tudo liberdade econômica. O livre mercado traria progresso material, liberdade de escolha, mais renda e empregos, mais modernização, menos pobreza, superação da barbárie. Seria o agente do progresso do país. É uma reivindicação do que era o progresso séculos atrás.

Outros progressistas podem rememorar o iluminismo francês clássico, anticlerical, que reivindica a universalidade da razão, a moral laica civil, o império da lei, o crescimento das instituições e o seu desenvolvimento num mundo global. Ele confunde-se com uma espécie de terceira via, que é uma renovação da social-democracia após a ascensão dos chamados “neoliberalismos”.

A terceira via vê a democracia como um processo em aberto de emancipação, de valores racionais. A economia possui mais toques de livre mercado do que o Welfare State, mas a sociedade deveria continuar marchando em direção à liberdade. No entanto, esta liberdade não está afastada de seu contexto prático. Não haveria liberdade sem distribuição de renda, sem igualdade cultural, sem um Estado que mobilize a sociedade em prol dos valores democráticos. O futuro desejável para estes é a combinação entre liberdade econômica e um Estado socializante que, com suas políticas públicas, reforme o povo em direção à igualdade e a eliminação dos infortúnios. O progresso sempre elimina as tensões da existência.

Um progressista também pode ser um positivista comtiano ou um evolucionista social, mas estas são espécies em extinção. Por outro lado, recorrentes são os adeptos do marxismo clássico que possuem a certeza do fim da história no comunismo, pois este representa a emancipação definitiva dos homens. Ainda mais recorrentes são os progressistas “pós-modernos”, que denunciam o progresso material, o universalismo, os mitos da razão, em nome do relativismo, da perda da essência e da inexistência do real, tornando o passado uma memória fragmentada e um símbolo de antiquaria. Todas essas ideias modernas são progressistas. Elas flutuam pela elite letrada, mas vão entrando no cotidiano e no senso comum das pessoas.

3.

Não sendo apenas uma especificidade nacional, as elites brasileiras são progressistas. Com elites quero designar não os detentores de mais bens e renda, mas os grupos dominantes que possuem centralidade em como nos reconhecemos como parte da sociedade. Falo, então, de várias elites: elite econômica, elite política, elite intelectual, elite artística, elite midiática, etc.

As elites brasileiras são esmagadoramente progressistas. Hoje, elas podem ser petistas ou antipetistas, mas estão sempre falando em nome da liberdade e da emancipação. Ela pode ser mais favorável ou menos favorável ao livre mercado; mas, em geral, vê com bons olhos a liberalização das drogas, a legalização do aborto, entre outras pautas da revolução cultural.

Entretanto, o que realmente unifica esta elite é a cultura do repúdio. O passado é visto como barbárie, precariedade, insuficiência a ser superada para entrar no concerto das nações modernas. Por estar na margem do mundo moderno, essa elite repudia o antigo, nossa precariedade diante do de fora, inveja a história alheia, aspira sempre o novo, quer sempre se reconstruir, recomeçar o que lhe define, entregando-se as novas vagas progressistas como futuro iluminador, irreversível e desejável a que sempre ficamos para trás. Não se pode incorporar a temporalidade do progresso sem, ao mesmo tempo, estar em perene conflito com a nação brasileira e sua história. Como reciprocidade, por vezes, a resposta a isto é um nacionalismo ressentido, onde os frutos da nação são sempre os melhores, suplantando a ideia de verdade e justiça.

Num país marcado pelo estatismo, o novo agora é conclamar pela liberdade econômica. Mas essa liberdade deve estar atrelada ao progresso cultural, daí o sucesso da terceira via entre nossos progressistas, com exceção da elite intelectual. Antigamente, nossas elites clamavam pelas luzes para iluminar o Brasil arcaico. Hoje, viaja para o primeiro mundo e inveja seu progresso econômico atrelado a suas políticas públicas em nome da liberdade: milhares de fobias e denúncias de preconceito, legalização do aborto, individualismo que atomiza a sociedade, etc.

Todavia, o povo brasileiro, esse verdadeiro populacho, é conservador, detesta bandido e droga, não quer nem ouvir falar em aborto, e tem certos problemas com os valores republicanos. O populacho detesta jantares chiques e inteligentes. Ele está acostumado com o familismo, o patrimonialismo, e outros ismos que os intelectuais identificaram como sinas de nosso atraso (não sem alguma razão). No imaginário popular, ainda há elementos da forma monárquica, como um indivíduo ou uma família que simboliza o todo. Aliás, elementos que o publicitário João Santana soube explorar na construção da imagem da presidente Dilma na campanha de 2014.

O populacho vê o Estado como uma “unidade espiritual” que dá sentido à comunidade, simbolizando sua fundação. Deste modo, ele vê o Estado como auxiliador e patriarca, e não de maneira contratual (formado pela sociedade civil), sendo também um povo avesso às ilusões da liberdade. O povo também não é uma panaceia, há suas características, suas vantagens e perdas. Por seus elementos, ele cria o coronel (e não o inverso como pensam os progressistas), o reacionário autoritário, os políticos de paróquia, entre outros. Mas o populacho é também o estorvo que os progressistas querem “consertar”, “educar”, modificando seu comportamento e mentalidade.

Essa dinâmica entre a elite progressista e o populacho moldura a maior parte da história brasileira desde, pelo menos, as últimas décadas do Império. Um símbolo dessa dinâmica, carregado de tensões, encontramos em Canudos.

4.

Antônio Conselheiro era uma espécie de líder messiânico. Representante do populacho do sertão brasileiro, fundou e liderou o arraial de Canudos, que atraía centenas de sertanejos, índios e escravos libertos. Conselheiro era monarquista, mais precisamente adepto do sebastianismo. A República tinha sido instaurada há pouco tempo, sendo, para ele, ilegítima por usurpar a origem divina da sociedade. Para Antônio Conselheiro, todo poder não emana do povo, mas de Deus. O monarca representaria o símbolo da ordem temporal. Ele se revolta também contra a proibição da Companhia de Jesus e a instituição do casamento civil.

A República tinha sido costurada preponderantemente entre militares e o grosso da elite cafeicultora. A nova elite que surgia era progressista e considerava a forma republicana um avanço do país em direção ao futuro, uma superação de nosso atraso, representado pela monarquia, pelo catolicismo, pela origem portuguesa. Essa elite progressista via os insurgentes de Canudos como fanáticos religiosos, estorvos arcaicos vindos de onde “Judas perdeu as botas” que impediam o progresso da nação. O desfecho sangrento, com a fortaleza e misérias do populacho dentro do novo contexto da nação e com a soberba progressista, indicariam muito de nossa história republicana.

Hoje, dificilmente um político vencerá uma eleição majoritária sem ligar as duas pontas: elite progressista e populacho. No entanto, para ganhar respeitabilidade da opinião publicada, criar um sentimento positivo em torno de seu nome, ele precisa passar pelo crivo das elites progressistas. Dificilmente um político de paróquia, mais ligado ao populacho contra as ideias de progresso, venceria uma eleição majoritária em capitais ou no âmbito estadual, por exemplo.

Para compreender a crise da Nova República, precisamos observar essa dinâmica entre a elite progressista e o populacho. Por que uma denúncia contra Eduardo Cunha ganha capa de jornais, destaque diário em portais, tornando-o o inimigo número um da elite progressista? Por que denúncias contra o ex-presidente Lula ganham notas tímidas, por vezes envergonhadas, seguidas de desculpas e constrangimento? A resposta darei num próximo texto.

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Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.