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O favoritismo de Marina e o “voto útil”

por Elton Flaubert (06/09/2014)

A atual presidente tem um piso de votos bem consolidado, mas está também mais perto do teto

Duas semanas transcorridas do trágico acidente que vitimou Eduardo Campos e alterou profundamente o cenário eleitoral, já é possível identificar a nova configuração da sucessão presidencial. A última pesquisa Datafolha, divulgada na quarta-feira, traz apenas variações dentro da margem de erro. Depois de crescer mais de dez pontos numa semana, Marina estagnou. Aécio estancou a sangria de votos, e Dilma teve uma leve variação positiva dentro da margem. A pesquisa trouxe também poucas variações nos estratos por renda, idade, escolaridade, região, ou religião, apresentando um quadro parcialmente estável.

Desde que alcançou a alcunha de favorita, Marina viu-se naturalmente como principal alvo dos adversários. Faltando trinta dias para eleição, é difícil avaliar se a tentativa de desconstrução de sua imagem surtirá um efeito tão corrosivo que lhe ponha fora do segundo turno. Marina poderá até ver alguns votos migrando de volta para Aécio, mas, a não ser que haja algo que atinja com bastante impacto sua candidatura, dificilmente ela terá menos de 30% dos votos válidos (hoje, ela possuiria em torno de 40%).

Por sua vez, Aécio se encontra numa delicada posição. O tucano perdeu não só votos que estavam consolidados, como também em potencial. Marina lhe tomou, ao menos, 10% do seu capital eleitoral — tendo em vista que, na pesquisa pós-morte de Eduardo, sem a candidatura de Marina, o mineiro aparecia com 25%. Ocorreu com o tucano o efeito do “voto útil”. Na largada da disputa, por ter recall e conseguir captar mais eleitores que nas últimas eleições foram petistas, Marina tinha um desempenho melhor do que o do tucano contra o atual governo. Para derrotar o PT, muitos votos migraram de Aécio para Marina, principalmente no Sudeste (44% do eleitorado nacional) e em São Paulo (onde na última pesquisa Ibope, Marina liderava com quase 50% dos votos válidos). Entre os eleitores que declaram preferência pelo PSDB (apenas 5%), Aécio tem 56% das intenções de voto, e Marina Silva aparece com 32%. Alguns simpatizantes históricos do PT também aderiram à candidatura da ambientalista — ainda assim, este efeito pouco atingiu Dilma Rousseff. Quem vota pela continuidade do atual governo, continuará votando.

Tendo em vista esta dificuldade, Aécio precisa desconstruir a candidatura de Marina para conseguir chegar ao segundo turno, já que dificilmente a petista terá menos de 35-40% dos votos válidos no primeiro tuno. Mas, ao mesmo tempo, o tucano corre o risco de – ao isto fazer – ajudar a petista a melhorar seus índices no segundo turno contra Marina. E, certamente, este não é um desejo dos tucanos, que já falam abertamente no apoio a Marina num provável segundo turno.

Analisemos os dados do último Datafolha. Na espontânea, Marina cresceu dois pontos e foi para 24%; a atual presidente se manteve em 27%; e o tucano continuou com 10%. Sem o estímulo dos nomes apresentados, 30% ainda não sabem em quem votar. Na estimulada, Dilma variou positivamente e aparece com 35%, contra 34% de Marina e 14% de Aécio Neves. Vejamos o gráfico por escolaridade e renda:

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Uma variação interessante se deu entre os mais ricos, onde Marina cresceu nove pontos e Aécio perdeu oito. Seja como for, vemos um quadro típico de uma disputa acirrada entre atual governo e oposição no Brasil. A força eleitoral do governo se dá entre os mais pobres, menos escolarizados e mais velhos, nas cidades menores do interior do país. A força eleitoral da oposição, representada pela candidatura de Marina, encontra-se entre os mais jovens, os mais escolarizados e mais ricos, nas regiões metropolitanas, nas maiores cidades.

Apesar da maior fatia do eleitorado se encontrar entre os que possuem como renda familiar mensal até dois salários mínimos (43%), Marina consegue abrandar a vantagem da atual presidente nesse estrato, e recompensar em outros.

Vejamos o gráfico por regiões:

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O Sudeste, que é responsável por 44% do eleitorado nacional, é a única região liderada por Marina. Dilma continua tendo sua maior vantagem no Nordeste, que representa 27% do eleitorado. No entanto, nas últimas eleições, a vantagem petista na região foi bem maior. Aécio, que já chegou a ter 12% na região, perdeu sete pontos, que provavelmente foram para Marina.

Ocorreu uma importante variação entre os candidatos numa das regiões, o Centro-Oeste (responsável por 7% do eleitorado nacional). Marina perdeu nove pontos nesta região, onde o agronegócio é reconhecidamente tão importante. Esta perda foi recompensada por pequenos ganhos no Nordeste, Norte e Sudeste, mas a impediu de variar positivamente. Em contraposição, quem recuperou votos na região foi Aécio (única onde ele cresceu), variando de 17% para 22%.

A perda de votos nas regiões metropolitanas foi um dos fatores para a sangria de Aécio. O tucano aparecia com 20% há duas semanas, e agora se encontra com 13% (no interior, ele tem 15%). Em contraposição, Marina subiu de 22% para 36%. Dilma variou de 31% para 30% (no interior, ela tem 38%).

A religião tem se mostrado outro fator influente nas intenções de voto. Segundo dados do Censo, 58% da população se considera católica e 26% evangélica. Neste último estrato, Marina lidera com alguma vantagem, permitindo o empate com Dilma.

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A avaliação da presidente manteve-se estável. 36% avaliam como ótimo ou bom, 38% como regular, e 24% como ruim ou péssimo. Entre os que consideram o governo regular, Marina lidera com 42% (o que Aécio Neves ainda não tinha sido capaz de fazer), contra 24% da petista e 15% do tucano. A avaliação da presidente ainda está abaixo do que um governante historicamente precisa para ter mais segurança na sua reeleição. No entanto, também não é uma avaliação catastrófica, diante de recessão, 56 mil homicídios por ano etc. Por sinal, com enorme tempo de TV e uma boa máquina na mão, Dilma conseguiu diminuir sua rejeição para 32%. O tucano viu sua rejeição aumentar para 21%; enquanto a de Marina continua sendo a mais baixa entre os principais candidatos, com 16%.

Os eleitores que consideram o governo regular devem decidir esta eleição. Apenas 61% deles estão com o voto consolidado. E entre os que admitem mudar o seu voto para outro candidato, Marina pode ser a mais beneficiada, com 26%, contra 20% do tucano e 21% da petista.

Neste sentido, outro elemento importante apresentado pelo Datafolha é a consolidação do voto e qual candidato tende a ter mais margem de crescimento. 69% dos eleitores se disseram estar totalmente decididos, enquanto 29% avisaram que ainda podem mudar de ideia. A atual presidente é a candidata com margem mais segura de eleitores (74%), contra 70% de Marina e 66% de Aécio. Quando o eleitor é perguntado sobre qual candidato teria mais chances de receber seu voto em caso de mudança, temos o seguinte resultado:

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Portanto, se Dilma é a candidata com mais votos consolidados, Marina é a que pode captar mais votos (com 28%). Aécio aparece como resposta para 20% dos eleitores, e Dilma para 19%. Somando isto ao fator conhecimento e avaliação de governo, podemos dizer que a atual presidente tem um piso de votos bem consolidado, mas está também mais perto do seu teto do que os outros.

Entre os que votam em Dilma, mas podem modificar o voto, Marina é citada por 49% e Aécio por 21%. Entre os votos não consolidados de Marina, 33% podem voltar para petista e 31% para o tucano. Entre os de Aécio, a ambientalista atrai ainda 48% e a atual presidente 24%.

O grau de conhecimento dos candidatos já não influi mais como antes, mas ainda pode ser um fator nas alterações que sempre ocorrem nas últimas semanas. Dilma é conhecida por 99% dos eleitores, Marina por 95% e Aécio por 86%. Entre os que afirmam conhecer bem ou um pouco, a presidente tem 84%, Marina 62%, e o tucano 49%.

Na simulação de segundo turno, Dilma diminuiu a vantagem de Marina de dez para sete pontos. Praticamente metade das intenções de voto que Marina perdeu veio do Centro-Oeste. Nesta região, ela caiu dez pontos, e Dilma cresceu cinco. Vejamos o gráfico por renda, escolaridade e região:

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Neste hipotético cenário de segundo turno, os votos de Aécio se distribuem da seguinte forma: 59% votam em Marina; 24% votam em Dilma; 14% vão para o branco, nulo ou nenhum; e 3% não sabem. Aécio já chegou a transferir 70% dos seus votos para Marina no segundo turno. A diminuição deste percentual deve-se menos a novos ataques, e mais ao fato de que eleitores mais suscetíveis a Marina anteciparam seu voto no primeiro turno para derrotar a candidata do PT.

O desempenho de Aécio contra Dilma, no segundo turno, está cada vez pior (a diferença já chegou a seis, e hoje, encontra-se em onze pontos), dificultando a recuperação dessa fatia do eleitorado. Esse aumento da diferença deveu-se menos a uma queda do tucano (que apenas variou na margem de erro), e mais a uma recuperação pequena (mas contínua) da presidente desde o início do horário eleitoral gratuito.

Faltando um mês para o primeiro turno, a eleição está longe de estar decidida. O Partido dos Trabalhadores possui militância e uma rede de simpatizantes que joga duro e, por vezes, baixo na desconstrução dos adversários. Ao se tornar levemente favorita, Marina se torna também alvo preferencial, podendo ser envolta numa teia de contradições. Isto num momento onde a eleição ainda se encontra relativamente distante, num país de contágio emocional tão intenso e fluído. Não seria a primeira vez que uma candidatura que se apresenta como “terceira via” murcha durante o processo eleitoral, mas não me parece o caso. Esvaziar um Russomanno é tarefa bem mais fácil, não só pela diferença entre os candidatos, mas ter se dado numa cidade, não num país inteiro.

Aécio precisará encontrar algo forte para minar a candidatura de Marina, e ainda corre o risco de passar ao segundo turno e perder para a petista. Marina apresenta mais chances de derrotar Dilma do que Aécio (como Russomanno apresentava mais chances do que Serra de derrotar Haddad). O que é melhor para os tucanos: compor o governo de Marina ou passar ao segundo turno e perder para Dilma? Afirmações ainda muito longe de convicções. Certamente lutar pela vitória do seu partido é mais digno, mas os cálculos eleitorais são sempre muito estimados. Por realismo ou covardia, não se sabe. Por isto, Aécio criticará Marina sempre com muito cuidado.

Por sua vez, o alvo do PT é Marina. Ela é quem ameaça mais quatro anos de petismo na presidência. O governo recuperou-se um pouco durante a campanha, mas as más notícias continuam circulando. Com o desempenho de Dilma, qualquer governo com outro partido teria uma pior avaliação, por ter uma oposição mais forte e orgânica. Prova de que eleição não se ganha apenas no período eleitoral, e que para obter sucesso é preciso que o partido tenha representação social de fato, com uma rede de formadores de opinião, militantes, professores, jornalistas etc. Aparentemente, neste momento, só uma ex-petista pode tirar o PT do poder.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.