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Entrevista com Braulio Tavares, autor de “Histórias Para Lembrar Dormindo”

por Israel Jorge (02/10/2013)

"A Ficção Científica é avaliada de maneira errônea por muita gente, porque não é só entretenimento."

Histórias para lembrar dormindo (Casa da Palavra, 2013) é o novo livro de Braulio Tavares, escritor e compositor paraibano reconhecido no campo da literatura fantástica e da ficção científica. Se há exemplos densos do gênero no mundo, como explica Tavares na entrevista abaixo, no Brasil ele é um dos poucos escritores que alcança profundidade e que faz jus a críticas realmente literárias. Trata-se, em resumo, de uma fantasia útil, e os textos desta nova coletânea (seleção da coluna diária que mantém no Jornal da Paraíba) o comprovam.

Com o viés surreal, reforçado pelas ilustrações geométricas e quase inconscientes de Christiano Menezes, o título não poderia ser melhor. E Tavares garante que boa parte dos textos nasce mesmo em sonhos, comunicando-se com uma mistura de arquétipos junguianos, narrativas interessantes e informações chacoalhadas. Uma agradável confusão para o leitor, que não sabe mais se dorme acordado ou acorda dormindo. O autor sabe. Sem se perder, Tavares revela como se mantém tão produtivo e mostra que é possível aproveitar o sono para a arte. Algo como o “Ibis Sleep Art app” (aplicativo que transforma os padrões de sono do usuário em obras de arte personalizadas), mas com o toque da consciência e da decisão que só os humanos (agora e sempre, independentemente dos avanços científicos e tecnológicos) podem ter.

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Amálgama: Com mais esta coletânea de textos, sem contar a efervescência do blog “Mundo Fantasmo” e as outras atividades, não há como não perguntar sobre sua postura incansável. Qual é a principal motivação para escrever?
Braulio Tavares: Vocação (“jeito pra fazer a coisa”) e sobrevivência. Vivo de escrever, ou de atividades relacionadas à escrita (palestras, etc.). Mesmo o que faço em outras áreas (música, cinema, TV) tem relação direta com a escrita. Como não tenho emprego, não tenho curso superior, não sou ligado a nenhuma empresa nem instituição, se não trabalhar todo dia não me mantenho à tona.

Você tem algum conceito próprio de literatura fantástica e/ou ficção científica?
Literatura fantástica são todas as histórias em que acontece algo que não poderia acontecer no mundo real. A ficção científica são histórias em que as coisas, fantásticas ou não, acontecem como consequência de alguma inovação na ciência ou na tecnologia. Isto seria a mais ampla definição possível; há inúmeros “casos especiais”.

Num gênero comumente encarado como mero entretenimento, para admiração de devaneios alheios, parece não haver muito espaço para temas “relevantes”. Seus textos, porém, trazem reflexões sociais (“Notas de um mendigo taciturno”) e políticas (“A Guerra do Izaque”), apenas para citar alguns exemplos. Seria uma nova conformação do gênero?
A FC é avaliada de maneira errônea por muita gente, porque não é só entretenimento. Existe FC de vanguarda, FC politicamente engajada, FC sociológica… A FC sempre tratou de temas relevantes: avanços científicos, avanços tecnológicos. É uma literatura que trata constantemente dos temas sociais e políticos mais importantes, inclusive vem tratando deles (ecologia e crise ambiental, por exemplo) décadas antes do público, e da “literatura séria”, se interessar. Infelizmente, o que mais aparece da FC é a sua face comercial, popularesca, para adolescentes, contando historinhas de aventuras. Mas grande parte da FC tem a mesma relevância de qualquer outra literatura.

Sua profundidade psicológica nas histórias (“Vou ali comprar cigarro” e outras), além dos temas, contribuiria para uma aproximação da chamada “alta literatura”?
A FC que eu li durante os últimos 50 anos tem profundidade psicológica e social: Ray Bradbury, Philip K. Dick, Ursula Le Guin, Stanislaw Lem, Kim Stanley Robinson, Greg Egan, H. G. Wells, Gene Wolfe… Eu considero que estes autores pertencem ao mesmo universo literário de Kafka, Borges, e qualquer outro escritor da alta literatura.

Por que a linha fantástica ainda não é respeitada por muitos críticos?
Eu acho que os críticos não leem porque não se interessam pelo gênero, embora isso não os impeça de dizer, sem ler, que o gênero não presta. Os críticos são muito desinformados (todos, inclusive eu), porque ninguém consegue ler razoavelmente bem sobre tudo.

Você escreveu acordado as “histórias para lembrar dormindo”? Qual é o papel dos sonhos em seu processo criativo?
Eu costumo anotar sonhos, há mais de 30 anos. Muitas das minhas histórias nascem de sonhos. Se eu não entendo o sonho, melhor ainda. Claro que nem tudo deste livro teve essa origem, mas acho que o sonho pode ser uma fonte de enredos, de situações, de personagens, de cenas isoladas, etc.

Há alguma intersecção desses contos com a essência da crônica, no sentido da exposição de um cotidiano real e não imaginário?
Eu não me preocupo se o que estou escrevendo é uma “crônica”, um “conto”, ou o que for. Chamo tudo isso de “textos”. Cada texto se desenvolve de acordo com a inspiração do momento, e para mim é irrelevante como o crítico ou o leitor vão classificá-lo. Basta que seja um texto interessante pelo que diz e como o diz.

Escrevendo em jornais e falando bastante sobre o futuro, você teria algum palpite sobre o destino do jornal impresso? Se ele sobreviver, como e em que nicho conviverá com as mídias digitais?
Acho que o espaço dos jornais impressos (e das revistas) vai se encolher gradativamente a cada década que passar. A grande maioria vai desaparecer, mas muitos sobreviverão, pois não é impossível produzir informações e textos de um modo que ganhe mais com a impressão no papel do que com a reprodução eletrônica. O livro/jornal impresso deixará de ser um veículo de massas, pode se tornar algo “cult”, para públicos menores mas exigentes, como a pintura a óleo.

Toparia empreender e tirar do papel o “Grande Sertão: The Game”?
Estou aberto a propostas. Bem remuneradas.

O principal obstáculo para a integração entre literatura e games, ou versões digitais multimídia, são as dificuldades técnicas ainda existentes ou a falta de público em potencial?
Os games ainda estão numa fase muito inicial da sua história. Estão em 2013 num ponto parecido ao que o cinema estava em 1913. Mas já são uma grande indústria (basta ver os números impressionantes do lançamento do “GTA 5” neste mês), e é bastante possível que dentro dessa grande indústria de entretenimento possa se desenvolver um nicho menor, mas importante, que cumpra um papel semelhante ao que o chamado “cinema de arte” cumpriu no século 20.

E quais são seus planos para 2084?
Não pensei em 2084 ainda, estou muito ocupado planejando as atividades para a comemoração dos meus 100 anos de idade, em 2050.

Israel Jorge

Advogado, mora em Brasília.