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Ampliando os horizontes da modernidade

por Fabio S. Cardoso (19/10/2016)

É com a certeza dos profetas que o autor contempla a aparência do mal antes da sua conversão à banalidade.

"A Ideia de Uma Sociedade Cristã e outros escritos", de T. S. Eliot (É Realizações, 2016, 216 páginas)

“A Ideia de Uma Sociedade Cristã e outros escritos”, de T. S. Eliot (É Realizações, 2016, 216 páginas)

Thomas Stearns Eliot é um dos poetas mais celebrados na literatura do século XX. “The Waste Land”, sem dúvida alguma sua obra-prima, está para a estética modernista assim como uma relíquia para um santuário, e isso muito antes da crítica literária se tornar apanágio de acadêmicos revisionistas. A importância do poeta é tamanha que, no livro Gênio, Harold Bloom afirma que “a eloquência demoníaca” de Eliot não terá desaparecido daqui a 50 anos. Dono de uma mensagem que denuncia o “tempo fora dos eixos” sem apelar para o niilismo juvenil, Eliot emerge como a voz poderosa que recomenda um olhar prudente para o mundo que está ao seu redor.

Se a obra poética mais citada de Eliot é indicativa de um certo desencanto de sua geração, no trabalho ensaístico do autor essa visão anti-utópica ganha contornos mais definitivos. Ok, o já citado Harold Bloom faz uma careta aos textos conservadores do poeta. Mas é fato incontestável que, em Notas para uma definição de cultura, por exemplo, Eliot estabelece uma trincheira ao diagnosticar, já na década de 1940, a perda de estima dos padrões culturais. Em A ideia de uma sociedade cristã e outros escritos, publicado recentemente no Brasil, o que se lê é não apenas a confirmação dessa percepção do mundo, mas, também, uma leitura mais atenta das próprias motivações de T.S. Eliot.

Do ponto de vista cronológico, os ensaios reunidos em A ideia de uma sociedade cristã foram publicados originalmente antes do livro Notas para uma definição de cultura. O mais interessante aqui, todavia, não é tanto o quesito originalidade. O que de fato chama a atenção é a corajosa disposição do autor em se posicionar acerca de um tema num momento em que o cristianismo já perdia o seu status para uma espécie de laicismo ilustrado, ou, por outra, para os mecanismos de governança que as democracias vinham forjando naquele instante. Eis outro detalhe pertinente: grosso modo, alguns textos que capturam a temperatura política e social do seu tempo tendem a perder o seu valor quando são publicados anos depois. No caso dos ensaios de Eliot, o que se observa é precisamente o contrário. Sobretudo porque ousa indicar as fissuras do tecido político e cultural de sua geração, o argumento de Eliot ganha ainda mais realce quando lido com distanciamento, como se observa no trecho a seguir:

Como a filosofia política deriva suas sanções da ética, e a ética da verdade da religião, é apenas retornando à eterna fonte da verdade que podemos ter esperança de que, em qualquer organização social, não irá ignorar, até sua destruição total, algum aspecto essencial da realidade. O termo “democracia”, como eu disse reiteradamente, não tem conteúdo positivo suficiente para se opor, sozinho, às forças que vocês detestam – ele pode facilmente ser transformado por elas. Se você não aceitar a Deus (e Ele é um Deus ciumento), você deverá prestar homenagem a Hitler ou Stálin.

Ao contrário do reductio ad Hitlerum dos tempos hodiernos, Eliot não fazia comparações disparatadas ou mesmo fora de contexto para legitimar suas hipóteses. O fragmento acima pertence ao ensaio “A ideia de uma sociedade cristã”, publicado, vejam só, em 1939! É com a certeza dos profetas que o autor contempla a aparência do mal antes da sua conversão à banalidade.

Ainda no texto que dá título ao livro, o argumento chave de T.S. Eliot pode ser destacado na crítica que ele faz à possível configuração do mundo moderno.

Não estou interessado no problema dos cristãos enquanto uma minoria perseguida. Quando o cristão é tratado como um inimigo do Estado, seu curso torna-se muito mais difícil, porém mais simples. Estou interessado nos perigos para as minorias toleradas; e no mundo moderno, ser tolerado pode se tornar o que há de mais intolerável para os cristãos.

Nesse contexto, analisa Eliot, as consequências para um mundo que vira as costas para o cristianismo não necessariamente resultam no progresso ou na evolução, duas palavras fundamentais no elogio do secularismo. A intolerância dos tolerantes pode, sim, levar o mundo a uma democracia totalitária, em que não há espaço para a individualidade, o debate intelectual ganha uniformidade graças à propaganda, e as manifestações artísticas tão somente endossam “as doutrinas oficiais da época”. Qualquer semelhança (não) é mera coincidência. Novamente de acordo com o autor, “a única direção promissora para uma sociedade que prosperaria e continuaria sua atividade criativa nas artes da civilização é a de se tornar cristã. Tal perspectiva envolve, no mínimo, disciplina, inconveniência e desconforto: mas tanto hoje quanto amanhã a alternativa ao inferno é o purgatório.”

Em que pese essa posição declaradamente conservadora, não é possível, a partir desses escritos, sugerir que Eliot tenha sido ingênuo, na hipótese de que o autor possa ter ignorado os riscos e a fragilidade das lideranças políticas que empunham a bandeira da religião. Aqui a resposta não poderia ser mais cortante e definitiva (e ajuda, de quebra, a entender um pouco da força do voto evangélico no Brasil): “O cristão e o descrente não se comportam, nem poderiam se comportar, muito diferentemente no exercício do poder, pois o que determina o comportamento dos políticos é o ethos geral das pessoas que eles têm de governar, não sua própria devoção.”

Em outra passagem do livro, desta vez no ensaio “Sobre o lugar e a função da intelectualidade”, Eliot faz uma leitura, de certa forma original, do livro de Julien Benda, A Traição dos Intelectuais. Para Eliot, “Benda comete ele mesmo a traição que acusava nos outros”, isto é, na medida em que apontava nos homens de espírito um desvio porque estes se deixavam levar pelas paixões deste mundo, o próprio Benda se deixou levar pelo comunismo. Este ensaio de Eliot tem bastante valor, no entanto, justamente porque apresenta algumas questões pertinentes acerca do trabalho do intelectual, dentre as quais: “Pode a função da intelectualidade ser definida?” Ou, ainda, “Se o termo intelectual compreende filosofia, ciência e artes, cada uma delas de modo assaz abrangente, que afirmação pode ser feita sobre todos os intelectuais, exceto que eles estão preocupados com a ‘cultura’?”

Mais importante do que apresentar respostas objetivas e prescritivas para essas questões, A ideia de uma sociedade cristã e outros escritos oferece uma perspectiva bastante completa dos fundamentos do pensamento do seu autor. Antes de ser um resumo, pode ser entendido como um ponto de partida (ou mesmo um complemento) para a leitura da obra do poeta e do ensaísta T.S Eliot.

Fabio S. Cardoso

Jornalista. Autor de Capanema (Record, 2019).