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Post coitum triste, ou: Dezessete semanas de amor

por Paulo Polzonoff Jr (16/10/2018)

Até que veio aquele dia, aquele domingo que você sonhava apoteótico, mas que foi mesmo é fatídico.

Você conheceu a moça há alguns meses e disse a todo mundo que ela era linda, maravilhosa, nada menos do que perfeita. Nós, seus amigos, compreendemos o encantamento pelos olhos azuis, mas não pela língua presa. Muito menos pelas ideias, mas quem se importa com ideias, não é mesmo? Naquela noite, inegavelmente apaixonado, você disse que iria conquistá-la, que a namoraria, que noivaria e até que se casaria com ela – tudo com muito respeito, claro, porque sabemos que você é um homem de família. Pelo menos é o que estava escrito na sua camiseta.

Aí você juntou coragem, bateu com o copo na mesa, se levantou e foi lá falar com ela. Ela o esnobou, fez aquele cuzinho doce básico, mas deu para ver que estavam ambos caídos um pelo outro. Você voltou para a mesa e disse que conseguiu o telefone dela e nós rimos, porque é assim que amigos agem; nós rimos da sua paixonite, do brilho débil nos seus olhos, da sua imediata disponibilidade em se submeter às piores humilhações possíveis só para ter aquela mulher na sua cama por uma noite ou para todo o sempre, o que vier primeiro.

Mas vá lá, dissemos. E, se calhar, até incentivamos sua queda no abismo. Poucos dias mais tarde, você apareceu e monopolizou as conversas falando dela. Ela era só virtudes ao seu olhar apalermado. Uma vez eu quis lhe perguntar se você tinha certeza de que fazia sentido a Mulher dos Sonhos falar também As Maiores Idiotices do Universo. Mas você estava feliz e, por causa da nossa amizade, eu estava feliz por você. Vai lá, cara. Conquiste a mulher e o mundo. Mas volte sempre para contar os detalhes mais sórdidos, por favor.

E você voltou. Dia após dia. Sendo sincero, já estava começando a ficar de saco cheio quando você anunciou, um tanto quando deselegantemente, que vocês teriam primeira noite de sexo. Ou seria de amorzinho gotoso? Você estava nervoso, lembra? E, diante do nervosismo, resolveu apelar para um comprimidinho especial. Mas tudo deu errado, porque todo mito do herói exige uma queda antes da grande redenção. Perguntei o que exatamente tinha dado de errado, porque sou curioso, intrometido, e porque sempre vi com desconfiança esse seu encantamento nada irracional pela mulher. Mas você só respondeu com um lacônico “foi quase”. E entendemos que não houve nada além de um jantar seguido por um demorado beijo no carro e uma promessa para dali a três semanas.

Você insistiu. Por três intermináveis semanas, insistiu. Ela isso, ela aquilo. E, para ser sincero, sempre sincero, a essa altura eu já estava com nojinho da mulher de língua presa, muitas bravatas, poucas ideias e nenhum senso de humor. E estava cansado de suas intermináveis mensagens pelo Whatsapp exaltando as qualidades da moça, de como ela era diferente de todas as outras, melhor porque mais pura, melhor porque mais corajosa, melhor porque melhor, porque você não conseguia ver nela qualquer defeito.

Até que veio aquele dia, aquele domingo que você sonhava apoteótico, mas que foi mesmo é fatídico. Você a levou para um café da manhã muito decoroso às oito e depois para um almoço ainda mais decoroso ao meio-dia. E ficaram juntinhos, naquele conluio delicioso que antecede o gozo, até as cinco da tarde. E, a partir daí, faltam-me palavras e me sobra pudor para descrever tudo o que você não me contou, mas imagino. Me refiro à putaria – só para ficar bem claro.

Uma vez satisfeito, você se deitou ao lado dela e no instante seguinte sentiu repulsa. Por si, por ela, pelo mundo. Mas principalmente por ela. Os olhos azuis perderam o brilho, a língua presa lhe pareceu só um detalhe cômico naquele rosto cheio de arestas. Você pensou em Fibonacci e pensou em falar, mas ela não entenderia. Ela não entenderia nada porque, naquele exato momento, ali deitado de costas, o pau mole e cansado e satisfeito, depois de tanta conquista, de tanta luta, de passar por cima de tudo o que você acreditava ou não acreditava, de empunhar bandeiras que no fundo lhe pareciam estranhas, de cantar o Hino Nacional, de bater continência, de sonhar com um país melhor, maior, mais poderoso sob um Estado forte e moralíssimo, depois de tudo você percebeu que estava deitado ao lado não da mulher da sua vida, e sim de uma idiota qualquer.

E assim, em se odiando, você se arrastou para casa, sentindo-se mais homem do que nunca e se sentindo homem como sempre, isto é, um tolo suscetível aos encantos de qualquer sereiazinha de olhos azuis, língua presa e lábia enganosamente sedutora a lhe prometer dezessete segundinhos de prazer.

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Paulo Polzonoff Jr

Tradutor, jornalista e escritor. Autor de O homem que matou Luiz Inácio. Vive em Curitiba.