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“A Cunha” tupiniquim

por Leandro Tessler (23/11/2014)

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente foi fundada recentemente

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Em 1999 o Discovery Institute, entidade que se dedica a difundir e propagar a pseudociência que ele chama de intelligent design (“design inteligente” segundo quem conhece mal a língua inglesa), publicou um documento estratégico. O documento se chama “A Cunha“. O documento propõe uma estratégia para aceitação e difusão do intelligent design na sociedade americana, e é bem estruturado, com objetivos e estratégias a médio e longo prazo.

Os principais objetivos são:

  1. Derrotar o materialismo científico e suas heranças moral, cultural e política.
  2. Substituir as explicações materialísticas pela compreensão teística de que a natureza e os seres humanos foram criados por Deus.

Quando li isso pela primeira vez, somado aos grafismos tão amadores e fontes de tão mau gosto, minha primeira reação foi achar que se tratava de uma fraude/piada, no estilo do Flying Spaghetti Monster. Não era. O documento é autêntico. A Estratégia da Cunha consiste em introduzir as ideias do intelligent design por alguma fresta e ir progressivamente expandindo sua influência, como uma cunha em madeira (dãããã). A estratégia inicial era fazer o intelligent design ser aceito como uma alternativa nas ciências e na pesquisa científica. Isso deveria ser acompanhado por debates em instituições de ensino e na vida em geral.

Felizmente a estratégia da cunha falhou fragorosamente nos EUA. Nenhuma universidade séria realiza palestras ou debates sobre o assunto (OK, o orientador do William Dembski o convidou para dar um seminário na Universidade de Chicago, mas isso não teve grandes consequências e suscitou protestos na universidade), e as tentativas de propor a interpretação do intelligent design nos currículos de ensino médio foi amplamente rechaçada. Como alertou o emérito educador Mark Terry, “Só uma revolução científica estranha busca estabelecer sua posição nos currículos de ensino médio antes que a pesquisa tenha sido comprovada. Esse óbvio obstáculo será removido se a revolução for efetivamente baseada numa redefinição da ciência em lugar de novas pesquisas”.

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente foi fundada recentemente, lançando um manifesto que equivale a uma carta de intenções. Esse manifesto repete, de forma adaptada às condições locais, exatamente a Estratégia da Cunha:

  1. Não são favoráveis, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.
  2. Criticam o ensino da Teoria da Evolução invocando um “direito constitucional dos alunos de serem informados que há uma disputa já instalada na academia entre a Teoria da Evolução e o intelligent design quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens”. Eles devem estar se referindo à academia de ginástica ondem praticam seus abdominais. Na academia científica, onde a ciência avança através de publicações em periódicos sérios, não há disputa alguma. As discussões sérias sobre Evolução passam longe do intelligent design.
  3. Para se diferenciar do criacionismo estritamente religioso eles o enviam para “aulas de filosofia e teologia”. É uma estratégia para parecerem científicos.

Intelligent design é religião disfarçada. Eles professam exatamente as mesmas ideias que os criacionistas assumidos, mas com uma roupagem pseudocientífica. É assim: a vida e o surgimento dos seres humanos não pode ter resultado da seleção natural (acho que todos os apoiadores do intelligent design faltaram às aulas de termodinâmica) e exige uma inteligência superior que decide os destinos do universo. Essa inteligência superior não precisa ser o Deus cristão, mas tem todas as características dele.

Será que a estratégia da cunha está funcionando nas terras tupiniquins?

Parece que sim.

O folclórico deputado Marco Feliciano apresentou o projeto de lei 8.099/14, que propõe o ensino de criacionismo nas escolas. O Partido dos Trabalhadores corretamente decidiu denunciar e apresentar críticas ao projeto. No entanto, o partido errou fortemente ao consultar sobre o assunto não uma sociedade científica séria como a SBPC ou a Academia Brasileira de Ciências, mas justamente a pseudocientífica Sociedade Brasileira do Design Inteligente (só não tem link porque eles não têm página na web ainda), que posa de defensora da ciência “que o mundo empírico nos revela”.

É péssimo para a ciência brasileira que o partido do governo reconheça uma sociedade pseudocientífica como autoridade acadêmica. Espero que as sociedades científicas sérias em algum momento desautorizem publicamente a Sociedade Brasileira do Design Inteligente. O presidente executivo desta afirma no Facebook que estará “em breve submetendo uma carta às sociedades e periódicos científicos brasileiros defendendo o ensino da TDI”.

Será uma ótima oportunidade para que as sociedades e periódicos científicos brasileiros tomem uma posição relegando a pseudociência ao seu lugar e bloqueando definitivamente a Estratégia da Cunha tupiniquim.

Leandro Tessler

Físico (UFRGS) Ph.D. (Universidade de Tel Aviv), Professor Associado do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp.