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A guerra se interessa por você

por Amálgama Traduções (14/11/2015)

O Ocidente não pode coexistir com o Estado Islâmico. Como sabemos agora, um ou outro deve deixar de existir

Noah Rothman, Commentary
tradução: Paulo Silva e Pedro Novaes

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O experimento liderado pelos Estados Unidos para determinar se o mundo ocidental poderia conviver com a existência de um virulento Estado Islâmico terminou em fracasso na noite da última sexta. Acabou quando ao menos oito homens armados com armas automáticas e cinturões suicidas conduziram um dos mais ousados e coordenados ataques a um alvo ocidental que o mundo viu na última década. Acabou quando guerreiros suicidas detonaram seus dispositivos durante um evento esportivo que contava com a presença do presidente da França. Acabou quando quem frequentava restaurantes finos e shopping centers foi alvejado. Acabou quando mais de cem parisienses feitos reféns em uma casa de shows foram executados metodicamente, alguns deles conseguindo enviar uma ou duas mensagens de texto pedindo intervenção policial antes de encontrar seus destinos. Os alvos são familiares; decadência, ocidente, civilização. Os perpetradores também são familiares.

Muito ainda está por ser confirmado sobre o ataque terrorista que teria tirado ao menos 128 vidas e ferido outras 200 mais, muitas delas de forma crítica. O que nós sabemos agora é que o nível de coordenação neste ataque indica um planejamento substancial e de longo prazo, e um nível de capacidade tecnológica alheio às células terroristas baseadas na Europa. Esta operação foi conduzida com patrocínio estrangeiro. Enquanto um dos terroristas alegadamente professava ser um membro do proto-califado islâmico radical ISIS, e esta organização desde então tem reivindicado o ataque, a culpabilidade do Estado Islâmico precisa ser estabelecida firmemente. De certo modo, contudo, a próxima tarefa do Ocidente não depende de se estabelecer a culpa do ISIS. O Ocidente não pode coexistir com o Estado Islâmico. Como sabemos agora, um ou outro deve deixar de existir.

Falando claro, a política norte-americana não tem sido eliminar o ISIS, mas confiná-lo a suas fronteiras fluidas. Barack Obama relutantemente jurou liderar uma coalizão concebida para “degradar e destuir” a organização, mas os efeitos práticos de seus 18 primeiros meses de campanha tem sido fazer o que ele admitia até ontem: “conter” o Estado Islâmico. O Ocidente está cansado da guerra. Ele não quer mais retomar a guerra no Oriente Médio, mas o desengajamento resultante é precisamente o que permitiu ao ISIS ameaçar amadurecer e fazer metástase. Mesmo se o ataque a Paris estiver lincado a outra rede terrorista na região, há uma clara indicação de que uma incubadora terrorista no Iraque e Síria não pode sobreviver. Este é um proto-estado que deve ser destruído, não apenas porque valores e patrimônios de toda a humanidade estão sendo destruídos, mas a serviço da preservação da segurança nacional.

Ninguém quer uma guerra eterna, mas isso é precisamente o que o Ocidente chamou para si com suas demonstrações de hesitação e a decisão de levar adiante uma guerra que infligisse poucas cicatrizes. Enquanto isso, os valores ocidentais são lentamente corroídos à medida em que deixamos de nos incomodar com a presença de soldados nas ruas, com programas de armazenamento de metadados e demonstrações espetaculosas, como as revistas em aeroportos promovidas pela TSA, a agência americana de segurança nos transportes.

Não pode haver uma “nova normalidade” enquanto um dos lados neste conflito seguir redefinindo continuamente o sentido de “normalidade”. O Estado Islâmico não será destruído com ataques aéreos. A meia dúzia de membros de Forças Especiais e consultores americanos em terra no Iraque e na Síria não conseguirá neutralizar essa ameaça. Não há como conter o Estado Islâmico. Somente uma força esmagadora pode levar a cabo a necessária tarefa de destrui-lo. Mais que isso: é uma responsabilidade do mundo civilizado fazê-lo.

A França não hesitou em se juntar aos Estados Unidos, em solidariedade, na manhã do 11 de Setembro. Os Estados Unidos e seus aliados europeus não deveriam hesitar em sair em defesa da França. Paris não precisa, entretanto, depender da boa vontade de seus vizinhos.

“Vamos liderar uma Guerra, e ela será impiedosa”, declarou o presidente francês François Hollande, enquanto percorria a cena da terrível carnificina de ontem à noite. Para assegurar que esse compromisso com a restauração da segurança internacional conte com o pleno propósito do Ocidente, Paris deve invocar o Artigo 5o da OTAN e acionar a previsão de defesa coletiva da Aliança.

Hollande sofrerá pressão para não invocar uma previsão tão poderosa, como fizeram os Estados Unidos após os ataques de 11 de Setembro. A Turquia sentiu essa mesma pressão, em 2012, quando Ancara afirmava que invocaria a previsão de defesa mútua do Tratado após o abate de seu avião militar sobre a Síria. Apesar disso, a ameaça inexplicavelmente arrefeceu dias depois.

O Ocidente deseja desesperadamente virar as costas para o câncer em gestação na Síria, mas ele não se deixará ignorar. Paris é o começo. Em seguida, virão Londres, Moscou, Roma, Berlim, Nova Iorque. Que o presidente François Hollande seja sábio o suficiente para não permitir que a eterna tendência do Ocidente para fechar seus olhos retorne quando o choque desse ataque passar.

“Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra se interessa por você”, teria dito Leon Trotsky, o comandante do Exército Vermelho de Lenin.

Era tanto uma advertência, como uma ameaça. Estava ali um homem que sabia guerrear. O Ocidente não pode mais se iludir com a ideia de que o Estado Islâmico será contido com uns poucos ataques aéreos casuais. Este é um conflito internacional, e a França deve internacionalizá-lo. Não se trata de vingança, mas de prevenção e defesa. Haverá mais sangue derramado, e os métodos para derramá-lo poderão ser ainda mais sofisticados da próxima vez.

É hora do Ocidente e dos Estados Unidos, sobretudo, se portarem com seriedade. É hora de conduzir essa guerra com a intenção de concluí-la, em vez de seguir tolerando uma política de contenção infindável. O Estado Islâmico e a ideologia que ele representa têm que ser destruídos. Do contrário, empurrarão a civilização ocidental para que se destrua no esforço inútil de tentar se isolar em uma fortaleza. Estamos em guerra. Já é hora de começarmos a agir de acordo com isso.

Amálgama Traduções

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