PESQUISA

Por que a guerra no Curdistão é importante

por Amálgama Traduções (14/11/2015)

Há décadas nós ocidentais estamos em uma guerra, não reconhecida por nossos líderes, mas entusiasticamente proclamada por nossos inimigos

por John Gallagher
(o autor, canadense, estava lutando como voluntário no Curdistão sírio contra o ISIS.
na semana passada, ele foi morto por um atirador. o texto a seguir foi publicado
em maio, no seu Facebook, e dias atrás republicado no National Post, do Canadá.
a tradução é de João Philippe.)

Soldada curda combatendo o ISIS na Síria

Soldada curda combatendo o ISIS na Síria

Em primeiro lugar, deixe-me dizer o óbvio: eu não espero que ninguém acredite que é algo sensato se voluntariar para lutar contra o Estado Islâmico (EI). Candidatos a terroristas de todo o mundo, incluindo o Canadá (incluindo alguns com quem eu provavelmente estudei) estão inundando o Oriente Médio aos milhares. Eles têm os números e as armas para vencer essa guerra, então ficar do outro lado do campo de batalha é objetivamente insano.

Eu também respeito o ponto de vista de que a última coisa que qualquer ocidental deveria fazer é se envolver em outro conflito no Oriente Médio. Nós já causamos muito dano à região; a ascensão do Estado Islâmico é um resultado direto de equívocos de política externa cometidos pelos últimos dois presidentes norte-americanos (no mínimo!). Se você pensa que pelo bem da região nós deveríamos todos ficar em nossos lugares e não fazer nada, eu posso compreender. Mas não posso concordar.

A causa de um Curdistão independente é importante o bastante em si mesma para se lutar por ela. Os curdos são o maior povo do mundo sem um país próprio, e sofreram muito sob o jugo de potências regionais. Agora eles estão sob ameaça de outro inimigo genocida, e mesmo assim não cederam aos apelos maníacos do fanatismo religioso e do homicídio suicida. Isto deveria ser razão suficiente para o Ocidente dar a eles qualquer apoio do qual precisem em tais tempos de crise. Mas existe um motivo ainda melhor.

Há décadas nós estamos em guerra. Esta guerra não tem sido reconhecida pelos nossos líderes, mas é entusiasticamente proclamada pelos nossos inimigos. Esta guerra produziu baixas em todos os continentes, em praticamente toda nação da Terra. Ela teve períodos de intenso combate, seguidos por longos intervalos de rearmamento e reagrupamento, mas nunca terminou. Ela não está sequer próxima de ser vencida. Algum dia os historiadores olharão para trás e se admirarão com quanto esforço foi feito para enganarmos a nós mesmos a respeito da natureza deste conflito, e indagarão como nós nos convencemos de que ela não está sequer acontecendo. Esta guerra pode ter se iniciado em 1979, ou antes; em 2001 a intensidade do conflito aumentou; a retirada do Iraque iniciou a última fase. Assim como a Guerra Civil Americana, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, esta guerra envolve tanto ideias quanto exércitos. A escravidão, o fascismo e o comunismo eram todos más ideias que exigiram grandes sacrifícios para serem finalmente destruídas. Em nossos dias, temos uma nova má ideia: a Teocracia.

Nós vivemos em uma sociedade que cresceu em torno de um princípio filosófico muito básico: o de que o mundo em nossa volta pode ser compreendido utilizando nossos sentidos e mentes. A partir desse pensamento simples vem a revelação moral de que todos os seres humanos são iguais em sua capacidade, e portanto iguais em dignidade. Esta ideia radical foi o ponto de virada na história humana, antes da qual todas as civilizações haviam sido dominadas pela ideia de que hierarquias de classe e o racismo eram perfeitamente justificáveis de acordo com a sabedoria revelada de textos antigos, e santificadas por homens santos com um relacionamento especial com algum tipo de poder “divino”. Nós começamos a ver a justiça como algo que poderia ser medido pelos seus efeitos sobre pessoas que estavam vivas, não como superstição.

Esta ideia tem sido ameaçada desde o princípio, porque é a força mais poderosa para a emancipação humana que já existiu, e desta forma é uma ameaça mortal aos privilegiados. Ela também é uma ameaça àqueles que temem um mundo em que seres humanos possam ser os juízes de suas próprias razões. Alguns preferem subordinar sua própria moralidade a uma doutrina que eles sabem que jamais serão capazes de compreender completamente; é mais fácil concordar com isso do que encarar o pensamento de que estamos sozinhos neste mundo. Este terror para com a própria liberdade e ódio pela mente que faz a sua percepção ser inescapável, deu origem a movimentos que prometiam nos devolver nossas ilusões reconfortantes. O comunismo e o fascismo eram ambos respostas ao problema da liberdade humana. Estas ideias foram derrotadas. Mas sempre, lá no fundo, o germe destas ideias estava se reproduzindo agressivamente. A teocracia não é apenas um fascismo perigoso; é o modelo do fascismo, e de todos os totalitarismos. O comunismo dizia “ao invés de Deus, o Partido”. O fascismo dizia “ao invés de Deus, a Nação”. A teocracia simplesmente diz “Deus”.

Não há nada de unicamente islâmico nesta tendência, exceto que acontece de os proponentes mais violentos da teocracia hoje serem muçulmanos. No século XVI, eram os cristãos. Através de muita luta e corajosa defesa de nossos princípios, as forças do secularismo conseguiram arrancar o controle da sociedade europeia dos teocratas, e nós temos lutado os movimentos regressivos que tentaram tomar o lugar delas desde então. O mundo muçulmano tem sido dominado pela política teocrática por décadas, e esta guerra transbordou para abarcar o resto do mundo.

Todos nós estamos na linha de frente deste conflito, quer nós saibamos ou não. Podemos medir suas baixas não apenas pela contagem de corpos e os ataques terroristas mortais, “grandes manifestações”, ataques a embaixadas e artistas assassinados; nós podemos também medi-la no terror produzido entre cartunistas, satiristas, editores e vendedores de livros, veículos de mídia e educadores que estão sendo impedidos de fazer o trabalho necessário de manter a máquina do Iluminismo. Não apenas todos nós temos sido ameaçados; de muitas maneiras todos nós somos baixas nesta guerra.

A posição dos pacifistas e da esquerda apaziguadora neste tema não é tolerância, mas, ironicamente, aquilo a que ela afirma se opor: propagação do medo, e mesmo “islamofobia”, uma vez que isto trai seu extremo terror em ofender as sensibilidades de comunidades imigrantes e dos chamados “líderes comunitários” que presumivelmente lhes dariam ordens de marchar. Sua apologia preventiva à barbárie trai um profundo desprezo pelo caráter dos imigrantes muçulmanos, uma vez que presume que eles apreciam sua opressão mental e preferem a estagnação moral da Sharia e dos hadiths aos prazeres de uma sociedade secular, cosmopolita e aberta.

Eu conheci muitos autodenominados muçulmanos que nunca sequer haviam lido o Corão, não se importavam com o que dizer acerca do papel da mulher ou da punição por blasfêmia, que não sabiam ou não se importavam com a forma com a qual Maomé tratava seus prisioneiros de guerra, ou como ele lidava com poetas dissidentes em Meca. Beleza. Eu pessoalmente desejo que eles aprendessem um pouco mais a respeito estes últimos pontos e assumissem mais responsabilidade pelo empreendimento que eles mantêm, mas o ponto é que eles não são parte ativa do problema. Ainda assim, elementos dos nossos governos estão perfeitamente dispostos a aceitar que aquela brutalidade é algo que nós devemos automaticamente e sem julgamentos esperar dos muçulmanos, que são os Estados Unidos que devem se acomodar a eles. O que nós precisamos aqui é de mais educação histórica, não sensibilidade cultural.

Esta guerra que está em andamento no Oriente Médio é uma guerra contra a teocracia. Em muitos aspectos ela é uma guerra civil, e creio que há mais coisa em jogo no seu resultado do que qualquer potência está preparada para encarar. Mas também é uma frente distante em uma guerra civil dentro da sociedade ocidental, uma vez que estamos enviando tropas para lutar em ambos os lados. E aqui as apostas podem ser ainda mais altas. Nossa guerra não é apenas contra a teocracia; é entre aqueles que ainda creem no iluminismo, que auto-determinação é o mais básico e crucial de todos os direitos humanos, que o primeiro dever de todo homem na sociedade é defender os mecanismos pelos quais nós nos tornamos livres; e aqueles que no final das contas carecem da capacidade de acreditar em algo. Estas pessoas têm sido corrompidas pelas fábulas masoquistas propagadas por esquerdistas e políticos identitários que nos dizem que a sociedade ocidental é inerentemente racista, inerentemente machista e inerentemente imperialista, quando foi a sociedade ocidental que iniciou as ideias de que o racismo, o machismo e o imperialismo podem ser um problema em primeiro lugar.

Por causa de nossas crenças, nós vivemos na sociedade mais racialmente inclusiva, sexualmente liberada e anti-imperialista que já existiu na história da humanidade, e ensinar algo diferente aos jovens é um ato criminoso de violência intelectual. E a crise que enfrentamos hoje é resultado direto do pensamento “progressista”: nós estamos agora sob ameaça daqueles que se aproveitam do masoquismo e da apatia promovida pela esquerda para recrutar pessoas que preferirão uma ideologia violentamente afirmativa ao pessimismo niilista, mesmo ou especialmente se isto significa cometer atrocidades que fariam o “imperialista” médio vomitar. Aqueles que contribuem para este ambiente de decadência moral e vulnerabilidade são os idiotas úteis da jihad e colegas de viagem da teocracia, e é o dever de pessoas pensantes se opor à influência delas por quaisquer meios à sua disposição.

Eu fui criado em um ambiente fundamentalista religioso. Se hoje eu tenho qualquer existência intelectual ou espiritual pela qual seja digno lutar, é porque era impossível para as forças religiosas em minha vida me manter afastado dos ataques da razão e da consciência. Eles podiam me dizer que a evolução é uma mentira, mas eles não podiam me impedir de ler sobre ela ou proibir as escolas de ensiná-la. Eles podiam me dizer que blasfêmia é pecado, mas não podiam me impedir de esgueirar-me até Monty Python ou South Park. Os mecanismos da sociedade, em outras palavras, deram-me as ferramentas com as quais eu podia me tornar livre. Elas salvaram minha vida. Quem salvaguarda o maquinário social hoje? Apenas uma intelligentsia e uma elite política que balbucia sobre a necessidade urgente de nunca dar motivos para ofensa. Este não é apenas um fracasso lamentável; é uma emergência nacional.

Como a teocracia hoje, o fascismo era um movimento internacional, com partidos fascistas em todos os países ocidentais. Então veio a Segunda Guerra Mundial. A Alemanha Nazista tornou-se a porta-bandeira do fascismo, e quando ela foi esmagada, o movimento não apenas foi destruído, ele foi desacreditado para todo sempre. Ironicamente, a ascensão do Estado Islâmico nos dá a mesma chance hoje. Nós temos a capacidade de erradicar o jihadismo em nossa época. A própria cartilha dos terroristas vê a conquista e manutenção de território como um passo necessário para desacreditar a democracia ocidental e provar que o Califado é uma possibilidade política real no século XXI. Nós temos que provar que não é. E assim como fizemos com a Alemanha Nazista, nós temos que esmagá-lo com força avassaladora e impiedosa. Nós temos que conquistá-lo enquanto as covas coletivas ainda estão frescas, enquanto ainda há sobreviventes para testemunhar as atrocidades que presenciaram, enquanto os assassinos ainda estão vivos para serem levados a julgamento. Apenas destruindo o Estado Islâmico sem piedade nós podemos desacreditar a ideia, e forçar os aspirantes a jihadistas e seus companheiros de viagem a desistir do sonho insano de uma Nova Meca e juntar-se ao mundo moderno.

Estou preparado para dar minha vida pela causa de evitar o desastre para o qual estamos nos dirigindo como civilização. Um Curdistão livre seria uma causa boa o bastante pela qual se lutar para qualquer internacionalista, mas nós somos afortunados o bastante para poder arriscar nossos pescoços por algo mais importante e mais justo do que qualquer coisa que tenhamos enfrentado em gerações. Com alguma fortitude e brio, nós poderemos expurgar a doença que está envenenando nossa sociedade e nos unirmos para derrotar este mal derradeiro. Eu tenho lutado esta batalha de uma forma ou de outra por toda a minha vida. Espero que tenhamos sucesso. O resto está nas mãos dos deuses.

Amálgama Traduções

Além de textos exclusivos, também publicamos artigos traduzidos.