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Trump explorou com sucesso o ressentimento das classes brancas. Mas que ninguém se engane: isso não é conservadorismo.

Noah Rothman, Commentary
trad. Daniel Lopes

Election Protests Washington

Os Estados Unidos – possivelmente incluindo muitos na equipe de campanha de Donald Trump – estavam completamente despreparados para a eleição da celebridade bilionária para a presidência. Talvez ninguém estivesse menos preparado do que os eleitores mais jovens da nação, que tomaram as ruas de várias cidades na quarta para protestar contra o resultado da votação. Gritando “not my president” e um punhado de profanações, o que faltava de percepção a esses manifestantes em idade estudantil sobrava em ardor. A ironia é que a fonte de sua angústia desprotegida – um estado que compartilham com os esquerdistas mais velhos – é fruto de seus esforços. Enquanto os conservadores faziam de tudo para evitá-las, Donald Trump mobilizou as políticas de identidade e utilizou-as em seu proveito. Ele balcanizou o eleitorado, e ao fazê-lo assegurou a maioria no colégio eleitoral.

As pesquisas de terça serão mais úteis quando medidas para refletir o comparecimento total. O que já sabemos é que Donald Trump provavelmente terá recebido menos votos que Mitt Romney e, se a contagem atual indica corretamente, John McCain. Ele venceu não apenas porque Hillary Clinton recebeu impressionante 6 milhões de votos a menos que Barack Obama em 2012, mas também porque a distribuição do apoio a Trump foi muito mais eficiente que a de Clinton.

De uma perspectiva republicana, Trump arrancou o impossível. Ele ganhou estados que os republicanos não ganhavam havia quase 30 anos. Wisconsin, Pensilvânia, Michigan – para não falar de eternos swing states como Ohio, Flórida e Iowa – caíram no campo de Trump. Foi uma vitória dramática, mitigada apenas pela terrível expectativa dos conservadores. Donald Trump teve que concorrer como um democrata para atingi-la.

Trump não venceu a eleição apenas devido aos eleitores insatisfeitos da classe média e classe trabalhadora brancas, que foram o grosso de sua base de apoio. O colapso do entusiasmo por Clinton na coalizão que tinha dado a vitória a Obama garantiu que o voto em Trump não fosse inteiramente monocromático. Não podemos dizer ainda com certeza quantos americanos de minorias votaram em Trump. O que podemos dizer é que a maioria do voto em Trump foi menos educado, acima de 45 anos e predominantemente rural. Se é verdade que houve um grande ganho de eleitores de baixa renda por parte de Trump, Clinton ainda levou a maioria desses votos, enquanto Trump conseguiu ganhar a maioria ou pluralidade da faixa eleitoral com renda de cerca de 100 mil dólares por ano.

Então, o que é que o evangélico branco de baixa renda do sudoeste de Ohio tem em comum com o democrata moderado de alta renda no entorno de Grand Rapids, Michigan? Os fatores que os levaram a se unir em uma coalizão pró-Trump foram muitos: renda estagnada, frustração com Washington, sentimento de alienação em relação às elites costeiras etc. Apesar das circunstâncias díspares, essa união acabou criando nos apoiadores brancos de Trump um bloco de votação baseado em identidade similar ao que os democratas conseguiram com os afro-americanos.

Donald Trump argumentou que o livre comércio tornou os EUA menos prósperos e que as elites sacrificaram a riqueza americana para garantir seus lucros no exterior. Ele alegou que mão de obra imigrante e terceirização destruíram a indústria americana. China, México e imigrantes ilegais são inimigos, ele insistia. Suas vítimas implícitas são a última faixa demográfica que é fácil de ignorar e maldizer: os brancos.

Os eleitores de Trump têm certa razão. Eles afirmam que a correção política é um porrete utilizado pela esquerda para silenciar apenas os demograficamente indesejáveis (brancos, homens, população rural). Eles se irritam com os abnegados membros das forças da lei e das forças armadas sendo denegridos por pessoas influentes. Eles veem seu estilo de vida sufocado por regulações e suas comunidades transformadas por aqueles que não compartilham de sua cultura ou valores. Além disso tudo, é sempre dito a eles que essas preocupações e o sentimento de alienação a elas associado é fanatismo, pelo qual devem ser punidos.

Trump explorou esse ressentimento e teve um sucesso espetacular. Mas que ninguém se engane: isso não é conservadorismo. Sequer é realista. A indústria pesada Americana não irá voltar, não importa o quão caro um governo Trump torne a importação e os itens básicos que os americanos compram no atacado no Wal-Mart. O discurso politicamente correto não desaparecerá; nem as elites culturais. Donald Trump é que vai ascender aos picos mais rarefeitos da sociedade, que é o que ele sempre quis. No entanto, o apelo nostálgico de suas promessas, ao mesmo tempo revanchistas e sentimentais, criou uma nova coalizão eleitoral republicana. O sucesso leva a imitações, e não resta dúvida de que Donald Trump terá muitos imitadores.

A tragédia para o conservadorismo nisso tudo é que agora os republicanos provavelmente se voltarão ao trumpismo, resultado dessa surpreendente vitória eleitoral. Porque Trump venceu de forma tão convincente, o Partido Republicano provavelmente fará altas apostas em demografia, identidade, balcanização e políticas de divisão. Isso funciona. Os esquerdistas nas ruas lamentando a retórica facciosa de Trump e seu apelo à unidade tribal estão vendo seu próprio reflexo no espelho. Seria engraçado se não fosse tão trágico.

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