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Steve Bannon não é um nazista – mas sejamos honestos sobre o que ele representa

por Amálgama Traduções (15/11/2016)

Conservadores de princípio têm o dever de condenar e trabalhar para erradicar o animus que é a raison d’être da alt-right.

Ian Tuttle, National Review
trad. Daniel Lopes e Gabriel Roisenberg Rodrigues

Steve Bannon

Steve Bannon

Comecemos sendo razoáveis: Steve Bannon não é Joseph Goebbels.

Foi assim que Bannon foi descrito recentemente pela rede francesa de notícias a cabo La Chaîne Info (O Canal de Informação), e a mídia americana abraçou a comparação, particularmente em vista da nomeação de Bannon como “estrategista chefe e conselheiro sênior” do presidente eleito. O Huffington Post lamentou caracteristicamente: “Um Nacionalista Branco é o Novo Estrategista Chefe da Casa Branca”.

No que diz respeito às atitudes pessoais de Bannon, isso é uma hipérbole. Julia Jones, por quase duas décadas parceira de roteiros de Bannon em Hollywood, disse ao Daily Beast em agosto que “nunca tomei conhecimento do ‘Steve racista’ que está sendo retratado agora. Nunca o ouvi contar qualquer piada racista, e seu melhor amigo era um afro-americano que frequentou [a faculdade] com ele … Nunca vi sequer uma pitada de racismo”. Outros relataram o mesmo. Ben Shapiro, que trabalhou sob as ordens de Bannon em seu site, Breitbart, até sair de lá este ano, escreveu em seu próprio site que “não tenho evidência de que Bannon seja um racista ou que ele seja um antissemita”.

No entanto, sob a égide de Bannon, algo horrível tomou conta da direita.

Em março de 2012, Bannon – um banqueiro de investimentos que virou documentarista conservador – se tornou diretor do Breitbart News. Até aquele momento, o website havia sido malandro, mas não malicioso, refletindo a personalidade de seu fundador Andrew Breitbart (uma personalidade que desde sua morte tem sido vítima de um revisionismo grosseiro por parte da esquerda). Mas, sob a liderança de Bannon, as travessuras do Breitbart News se transformaram em outra coisa. Quando não estava promovendo mentiras ao estilo Pravda durante o período de campanha – por exemplo, garantindo como “100% confirmada” a alegação de Trump de que “milhares” de pessoas em Nova Jersey celebraram os ataques de 11 de Setembro – o site aumentava sua base de acessos servindo o que queria a alt-right, um bando pequeno mas zuadento de supremacistas brancos, antissemitas e trolls de internet. Em maio, o editor da Weekly Standard, Bill Kristol, foi classificado de “judeu renegado”. Em setembro, um artigo sobre a coletiva de imprensa em que Trump reconheceu que Obama nasceu nos EUA vinha ilustrado de uma foto de Harambe, o gorila assassinado a tiro este ano no zoológico de Cincinnati. Este verão, Bannon informou alegremente à Mother Jones que o Breitbart News havia se tornado “a plataforma da alt-Right”. (E se você, como Newt Gingrich, acredita que a alt-right não existe, favor consultar meu Twitter.)

A esquerda, com suas incessantes acusações de “racismo” e “xenofobia” e coisas do tipo, bagunçou a fronteira entre racistas reais e os milhões de americanos que votaram em Trump por conta de um desejo de mais solidariedade social e consenso cultural. Não é “racista” querer fortalecer os laços que unem os cidadãos de seu país.

Mas a alt-right não é uma “invenção” da mídia. A alt-right é uma mistura de filosofias que, em seu âmago, rejeitam o princípio fundamental de que “todos os homens são criados iguais, dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis”. A alt-right adota um etno-nacionalismo que tem contrapartes no pior da extrema-direita europeia: o Amanhecer Dourado na Grécia, ou o Jobbik na Hungria. (Não é nenhuma coincidência que Bannon passou este verão elogiando “as mulheres da família Le Pen” nas estações de rádio londrinas, referindo-se à líder da Frente Nacional francesa e sua sobrinha, uma representante da FN no parlamento francês.) E ainda que isso de modo nenhum justifique a quebra de vitrines de lojas para protestar contra um resultado eleitoral legítimo, como o fizeram vândalos neste fim de semana no Noroeste Pacífico, também é verdade que nem todo detrator de Trump é tão desprovido de massa encefálica quanto Lena Dunham. Se minorias étnicas e religiosas estão preocupadas, é em parte porque Donald Trump e seus colegas mais próximos passaram os últimos meses flertando com um dos movimentos políticos mais nocivos da história recente da América.

Ademais, como alguns na esquerda notaram mais claramente do que seus pares na direita, o problema não é se Bannon assina embaixo de uma variedade tóxica de loucura política; é que sua aprovação de facto dela permite que se dissemine e exija legitimidade, e com isso aquilo que é no momento um perverso culto periférico pode, com o tempo, tornar-se mainstream. Os EUA não vão testemunhar o aparecimento de pogroms ou “campos de internamento” em janeiro. Mas países requerem vínculos de confiança entre cidadãos – incluindo aqueles cidadãos eleitos para serem líderes. A esquerda roeu tais vínculos, com seu comprometimento impensado de virtudes cosmopolitas. Mas a direita ameaça rompê-los de vez se continuar a cortejar os proponentes do etno-nacionalismo ou cair em sua retórica.

Conservadores de princípio, especialmente aqueles em posições de liderança, têm o dever político e moral de condenar e trabalhar para erradicar o animus que é a raison d’être da alt-right, e preservar os pilares do projeto americano. Este projeto é mais do que abstrações metafísicas; mas também não é uma simples questão de blut und boden. Não, Steve Bannon não é Joseph Goebbels. Mas ele disponibilizou um fórum para pessoas que passam o dia no Photoshop fazendo montagens com fotos de conservadores.

Tanto para conservadores quanto para liberais, deveria ser motivo de grande preocupação que essa pessoa tenha à disposição o ouvido do próximo presidente dos Estados Unidos (um homem sem convicções particulares e sem lealdade a quaisquer princípios em especial). É a oportunidade para uma causa comum na tarefa crucial dos anos vindouros: a vigilância.

Amálgama Traduções

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