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Sinos e trombetas*

por Amálgama (12/12/2008)

por Eustáquio Gomes – Para a idade que tinha, 75 anos, Tancredo Neves movia-se com surpreendente agilidade no solar colonial onde nasceu, em São João Del Rei. Mesmo agora que estava prestes a ser eleito presidente da República, ainda passava alguns fins de semana lá. Não podia nem de longe imaginar que em menos de […]

por Eustáquio Gomes – Para a idade que tinha, 75 anos, Tancredo Neves movia-se com surpreendente agilidade no solar colonial onde nasceu, em São João Del Rei. Mesmo agora que estava prestes a ser eleito presidente da República, ainda passava alguns fins de semana lá. Não podia nem de longe imaginar que em menos de quatro meses estaria morto.

Ele veio nos receber à porta da rua, guiando-nos com segurança por entre os móveis antigos e as imagens sacras que atulhavam a sala e os outros cômodos do sobrado. Ele era um homem consistente e de zigomas rijos, apesar do nariz deformado pelo septo e do crânio achatado e quase inteiramente calvo, que nos últimos anos ganhara aquela conformação amolecida da velhice que tanto se assemelha à da infância. Mas, como se sabe, ele não morreria da ossatura nem do colapso das artérias, mas do divertículo de Meckel.

Com os braços apoiados numa cadeira de encosto oval, ele disse ao Dr. Alvarenga que sim, aceitaria com prazer o título que a Universidade desejava lhe oferecer, como aceitara antes o da Universidade de Coimbra. Entretanto, não seria melhor aguardar o resultado da eleição presidencial, para que os senhores conselheiros que votariam a honraria não corressem o risco de desapontar-se? Alvarenga respondeu que todos já o considerávamos eleito… “para o bem do Brasil”, completou. Depois falou-se de política propriamente, da situação que Tancredo encontraria no país após 21 anos de ditadura, da possibilidade de pela primeira vez se chegar a um amplo acordo nacional, de conciliação e de trégua entre os partidos, coisas que não diferiam de suas declarações diárias na televisão, mas que agora eram ditas num tom reservado que nos envaidecia e acalentava.

A certa altura, como ele tardasse a entrar no assunto principal e Alvarenga não quisesse forçar nada, tomei coragem e fiz a Tancredo a velha pergunta nunca esclarecida: se era verdade que ainda ele guardava a caneta Parker que Getúlio Vargas usara para assinar a carta-testamento encontrada junto de seu corpo em agosto de 1954. “Não só guardo como de vez em quando eu a uso”, disse ele com um sorriso benévolo, como se aquele fosse um assunto sobre o qual ele falasse pela primeira vez. E disse que pensava voltar a usá-la para assinar seu termo de posse. Ao que eu, exorbitando de minhas prerrogativas (as de ghostwriter), perguntei se ele achava mesmo de bom alvitre usar aquela caneta, considerando-se o sortilégio de 1954. “Ora”, respondeu Tancredo de bom humor, “aqui em Minas sabemos que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. E para satisfazer nossa curiosidade, tirou de uma gaveta um pequeno estojo de madeira. Abriu-o e mostrou-nos uma caneta cravejada com os tais brilhantes e rubis de que tanto se falava, com uma terminação negra e uma magnífica pena de aço. Ali estava um legado do ditador mais amado do país, um talismã que talvez funcionasse como uma correia de transmissão no curso daquela história incerta que era a história do Brasil. Imaginei o ditador escrevendo com ela a sua carta de suicida e concluindo-a com a célebre frase: “Saio da vida para entrar na história”.

Nesse momento começaram a tocar juntos todos os sinos da cidade. Eram seis da tarde. A algaravia de sons era tremenda. Tancredo, com um sorriso, disse que São João Del Rei era a capital brasileira dos sinos. A gente sanjoanense, disse, era regida por dois signos sonoros: o dos sinos, dado o número de igrejas; e o das cornetas, pois a cidade também tinha um regimento. Todos compreendiam perfeitamente o significado de cada toque, tanto o dos sinos quanto o das cornetas, “de modo que estamos sob o signo de Deus e da Pátria”, disse.

“Não se tira o sapato antes de chegar ao rio, mas também ninguém chega ao Rubicão para pescar”, disse Tancredo mudando de tom, como uma transição para entrar no assunto do livro, o livro que havíamos escrito para ele, que dava mostras de havê-lo lido de uma assentada. Que elucubrações teria tido durante a leitura? Era para saber isso que estávamos ali.

Tancredo falava agora como um desses pregadores que, de repente, baixam a voz com o propósito de persuadir e infundir calma. Disse: “Chamei o senhor agora porque, se eleito, vou passar dois meses viajando para conversar com outros chefes de estado. Não queria adiar minhas impressões sobre o seu trabalho. Olhe, vou lhe dizer uma coisa: o seu livro equivale a um programa de ministro”. Sim, ele estava certo de que o Dr. Alvarenga daria um belíssimo ministro; infelizmente, disse, ministérios não são montados ao sabor de admirações pessoais, mas de composições partidárias, de alianças negociadas ao longo de anos; entretanto, assim como são feitas as composições, elas podem ser desfeitas com o passar do tempo; ministros podem ser trocados ao sabor das recomposições; com o que, meu caro reitor, quero lhe dizer que o senhor volte lá para a sua universidade e espere. Tenha paciência que chegará a sua vez.

Lá fora, quando já pisávamos o calçamento de pedra, eu disse ao Dr. Alvarenga que não me parecera um bom sinal a caneta-tinteiro que Tancredo nos mostrara. E expliquei porquê: Getúlio havia assinado a sua carta-testamento com uma Parker 51, e aquela era uma Parker 61. As 51 começaram a ser produzidas em 1942 e as 61 apenas em 1956, dois anos depois do suicídio de Getúlio. Vargas não poderia ter assinado a carta com uma 61. “Tem certeza disso?”, perguntou o reitor. “Absoluta”, respondi.

 
* Este post é um fragmento de O diário jubilaico de Sidraque Matias, novela inédita de Eustáquio Gomes, autor, entre outros, de A febre amorosa e Paisagem com neblina e buldôzeres ao fundo.

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