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O romance começa com o cadáver do professor sendo recuperado das águas suíças, para ser examinado pela dupla de protagonistas.

"Moriarty", de Anthony Horowitz (Record, 2015, 350 páginas)

“Moriarty”, de Anthony Horowitz (Record, 2015, 350 páginas)

Se fosse um escritor autorizado a utilizar em sua obra um dos personagens ficcionais mais famosos da história, praticamente uma garantia por si só de boas vendas entre um público que permanece fiel, década após década, o que você, caro leitor, faria? Pois o inglês Anthony Horowitz optou por escrever um romance inteiro sem utilizar o tal personagem, apesar de contar com o apoio e a colaboração da Conan Doyle Estate Ltda., a organização que administra os direitos do criador do maior detetive de todos os tempos. E isso depois desse mesmo Horowitz ter escrito, há três anos, A casa da seda, um livro anunciado internacionalmente como “o novo romance de Sherlock Holmes”, que foi resenhado aqui na época.

A explicação para tal aparente heresia é que dessa vez o autor resolveu centrar seu interesse não no protagonista de tantas e tão famosas histórias que povoam a imaginação de gerações desde o século XIX. O alvo dessa vez foi o seu mais conhecido Nêmesis: o professor James Moriarty, o “Napoleão do Crime”, aquele gênio da matemática que se tornou o líder do submundo londrino até enfrentar Holmes no conto “O problema final”, publicado em 1893. No mundo real, a existência do antagonista foi a de servir como um pretexto para Conan Doyle por um ponto final em suas histórias detetivescas.

O médico escocês já estava farto da popularidade de sua mais conhecida criatura, acreditava que ela eclipsava não apenas seus outros escritos – feitos com uma ambição literária muito maior que as histórias que vendia para revistas como Strand Magazine – como sua própria existência. Ele só aceitou voltar a escrever novas histórias do Grande Detetive depois de muita pressão por parte do público e de ofertas financeiramente irrecusáveis de seus editores. Com isso, Doyle retoma sua criação dez anos depois no conto “A aventura da casa vazia”, com uma breve explicação de que Holmes escapara do confronto com seu inimigo (que havia terminado com a queda de ambos nas cataratas de Reichenbach, um colossal acidente geográfico localizado na Suíça). O sumiço de Sherlock entre uma história e outra ficou conhecido entre seus estudiosos e admiradores como O Grande Hiato.

Porém, se o detetive retornou com todas as honras para completar sua carreira como personagem literário oficialmente, o mesmo não se deu com seu algoz. O único outro texto do cânone que trata, ainda que indiretamente, do Bonaparte criminoso foi o romance O vale da morte, impresso há exatamente um século. Pois esse outro ainda maior hiato foi sanado agora por Anthony Horowitz com seu novo livro, chamado justamente de Moriarty. O romance começa com o cadáver do professor sendo recuperado das águas suíças, para ser examinado pela dupla de protagonistas. São eles Athelney Jones, um inspetor da Scotland Yard criado por Conan Doyle como coadjuvante no segundo romance de Sherlock Holmes, O signo dos quatro (de 1890); e Frederick Chase, esse de autoria de Horowitz, um investigador americano que trabalha para a agência particular Pinkerton.

A dupla repete muito claramente a dinâmica consagrada pelas aventuras de Conan Doyle. Jones, traumatizado pelo seu encontro com o Grande Detetive, no qual saiu-se humilhado diante das habilidades dedutivas do outro, acabou por se dedicar ferrenhamente a estudar e a praticar o metódo sherlockiano: a cada oportunidade que surge, ele se põe a exibir seus dotes recém-adquiridos de leitura fria das pessoas e dos cenários. Da mesma forma, o menos brilhante, embora esforçado, americano se torna o Watson da vez, narrando em primeira pessoa a história em todos os seus pormenores.

O que une a dupla é a investigação de um possível contato entre o gênio do crime inglês e seu correspondente americano, um gangster chamado Clarence Devereux que leva para a Europa uma brutalidade inédita em termos criminosos, que antecede em meio século os métodos de um Al Capone em Chicago. Temendo que esse novo vilão vá se aproveitar do vácuo deixado pelo desaparecimento simultâneo de Holmes e de Moriarty, acompanhamos a parceria entre Scotland Yard e Pinkerton nas páginas desse lançamento da Record (o livro anterior de Horowitz havia sido publicado no Brasil pela Zahar, mas mesmo com a troca entre editoras houve o cuidado de manter o bom trabalho da tradutora Maria Luiza X. de  A. Borges).

Assim como já havia sido visto em A casa da seda, Moriarty demonstra bem os conhecimentos do autor em relação à Inglaterra vitoriana e à obra de Conan Doyle. O ponto alto do livro, pelo menos para os fãs mais ardorosos das histórias do detetive, são aqueles em que surgem personagens já conhecidos, entre bandidos e aliados de Holmes. Por exemplo, é impagável a reunião de inspetores em plena sede da Scotland Yard para comentar a suposta morte de Sherlock Holmes. Lestrade, Gregson e outros coadjuvantes que se viram inferiorizados pela inteligência arrogante do detetive consultor de Baker Street em um caso ou outro se juntam para lamentar a ausência daquele cuja presença fazia qualquer rival parecer um amador ignorante.

A obra traz ainda  uma espécie de faixa bônus. Dissemos no começo desta resenha que Anthony Horowitz optou por escrever um romance sem utilizar Sherlock Holmes, o que é verdade. Mesmo assim, o personagem aparece, sim, no livro Moriarty: o autor escreveu ao final um conto chamado “As três monarcas”, no qual imita perfeitamente o estilo do criador daquele universo. A história, narrada por John H. Watson, mostra Sherlock Holmes sendo procurado por  Athelney Jones para ajudar na solução de um caso aparentemente banal: um bandido qualquer foi morto tentando roubar três estatuetas sem muito valor da Rainha Vitória em uma vizinhança de Londres. O capricho para emular uma história original foi tão grande, que o livro traz até mesmo o que seria a capa da edição da Strand Magazine que teria publicado o conto.

Romeu Martins

Jornalista formado pela UFSC. Desde 2009, tem publicado contos de ficção científica, fantasia e terror, tendo participado da primeira coletânea nacional dedicada a Sherlock Holmes.