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Para onde vai o gosto no politicamente correto?

por Rodrigo Cássio (23/01/2016)

Nos jornais, as críticas de cinema decaem ao mesmo tempo que notícias como a do boicote de Will Smith ao Oscar se tornam mais frequentes.

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A época atual deve ser lembrada por revelar que o capitalismo já fez mais pela arte do que a esquerda culturalista jamais poderá fazer.

Em Imagens cintilantes, Camille Paglia compara a importância das batalhas aéreas de Star Wars às esculturas móveis de Alexander Calder e aos readymades de Duchamp. Não é preciso ter um juízo semelhante ao dela para notar o poder da sua intuição crítica. Paglia se interessa pelas artes visuais mantendo-se atenta a critérios que realmente importam: técnica, estilo, forma e gosto.

Com o domínio dos culturalistas, o desprezo por critérios como estes é tão grande que eles chegam a desaparecer. Nos jornais, as críticas de cinema decaem ao mesmo tempo que notícias como a do boicote de Will Smith ao Oscar se tornam mais frequentes. A especulação sobre cotas para minorias em premiações de cinema é como um último empurrão para que a crítica desapareça, aniquilada, no fundo do poço. De nada valem os critérios do julgamento estético se os culturalistas não se interessam por boa arte. Eles se interessam mesmo é por “fazer justiça”, usando a arte.

Em contraste com a política de pressão dos culturalistas, a busca pelo lucro do capitalismo nunca deixou de levar em conta um critério fundamental de gosto. Nós podemos até dizer, como Adorno dizia, que a massa inculta é refém da propaganda, consumindo lixo como se fosse arte. Mas Adorno não viveu o bastante para precisar admitir que até o lixo tem diferentes formas, e que as escolhas das massas não poderiam ser tratadas para sempre com indiferença pela teoria.

Mesmo Adorno, porém, viveu o bastante para reconhecer que a técnica criada pelo capitalismo poderia ser usada para fazer arte da melhor qualidade, e daí o seu elogio ao filme-concerto Antítese, do compositor Mauricio Kagel, nos anos 1960. Embora distante das teses frankfurtianas (o que lhe faz muito bem), Paglia não deixa de dizer algo parecido sobre o virtuosismo de George Lucas. Star Wars não somente se tornou possível por causa do capitalismo, como ofereceu uma contribuição para a história da arte que impactou o gosto de toda uma multidão de espectadores, inaugurando a era dos blockbusters no cinema.

O gosto da massa não precisa estar necessariamente em conflito com o bom gosto de uma época. Pouca gente se ateve a esse tema na segunda metade do século XX, mesmo que ele fosse um dos mais interessantes para pensar as transformações da cultura de massas depois que tanta gente a esmiuçou e denunciou nas décadas anteriores. Falecido em 2012, Omar Calabrese foi uma exceção e manteve a palavra “gosto” no centro de suas teorias. Hoje, nas poucas vezes em que Calabrese é lembrado, o conceito é ignorado, como se apenas a parte do seu pensamento que dialoga com o culturalismo tivesse alguma importância.

Um crítico ingênuo (ou beneficiado) poderia dizer que, no fundo, o que ocorre é o surgimento gradual de novos critérios para a arte, modificando-a. O seu maior equívoco estaria em negligenciar que a substituição de critérios estéticos por critérios políticos é uma forma de submissão e morte da arte. É por esse motivo que o politicamente correto dá origem a tantas obras ruins, e não deve legar nenhuma grande obra para a história do gosto, quando os culturalistas finalmente caírem fora das instituições e universidades que eles controlam no presente.

Rodrigo Cássio

Professor e pesquisador. Autor de Filmes do Brasil Secreto (Ed. UFG).