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Direita ou gorgonzola?

por Bruna Frascolla (06/01/2019)

Recuso todo e cada item da quentinha da esquerda, mas a da direita é PT-cêntrica demais.

Tal como aqueles atendentes de lanchonete que gritam as opções para escolhermos o que ele vão atirar no sanduíche ou no macarrão, alguns grupos acham que têm que gritar para todo mundo isto:

– Esquerda ou direita!

Em comparação aos atendentes, as desvantagens são muitas: em primeiro lugar, gorgonzola e bolonhesa são sempre preferíveis a defensores da esquerda e da direita; em segundo, as opções da lanchonete são muito mais variadas; em terceiro, porque temos mais chances de fazer escolhas. Ao escolher entre esquerda e direita, ninguém lhe pergunta mais nada e entrega uma quentinha lacrada. Aliás, lacrada ou mitada.

Dentro da quentinha de esquerda, em meio à quinoa orgânica, temos as seguintes crenças: (1) Vivemos numa sociedade racista, machista, homofóbica etc., e todo mundo que discorda disso é racista, machista, homofóbico etc.; (2) O Estado deve dirigir a economia, ter muitas estatais, e quem discorda disso não quer ver pobre andando de avião; (3) As universidades públicas devem ser gratuitas, e quem discorda disso odeia a universidade pública; (4) Bolsonaro é fascista, e quem discorda disso é bolsonarista e fascista; (5) Assalto aos cofres públicos não é um grande problema, se capitaneado por um líder operário; (6) Violência urbana existe só porque os pobres têm poucas oportunidades e deve ser combatida com bondades estatais; (7) Só as pessoas de esquerda são cultas, inteligentes e bondosas.

Dentro da volúvel quentinha da direita, as seguintes asserções estão lambuzadas de leite condensado: (1) O liberalismo econômico é bom, porque o PT diz que é ruim; (2) O conservadorismo é bom, porque o PT diz que é ruim; (3) O politicamente correto é ruim, porque o PT diz que é bom; (4) Tudo o que os militares fizeram é bom, porque o PT diz que é ruim; (5) Como Olavo de Carvalho fala mal do PT, então ele só pode ser bom; (6) Bandido bom é bandido morto; (7) Como os petistas odeiam Bolsonaro, quem reclamar dele é petista.

Quanto a mim, recuso todo e cada item da quentinha da esquerda, mas a da direita é PT-cêntrica demais. Se o PT começar a defender que vacina é bom, eu é que não vou virar antivacina. Nessa quentinha, eu comeria o liberalismo e um conservadorismo reformista, à Burke ou Nabuco. Mas Nabuco era de direita?

A adesão maciça aos termos “esquerda” e “direita” deu-se no século XX, sob os auspícios do marxismo. Tudo o que não era de esquerda era, portanto, de direita. Se a esquerda era bem definida, apenas com facções marxistas se digladiando, no saco da direita eram atirados sumariamente Ustra e Merquior ao mesmo tempo. Democracia à época, não nos esqueçamos, era coisa de burguês, portanto coisa de direita. “Esquerda” e “direita”, tal como usados hoje, são termos inventados pela esquerda para determinar quem são os bons e quem são os maus. Em algum dado momento, os brasileiros não-esquerdistas começaram a se chamar de direita, dizendo: “Isso aí que você é a favor, eu sou contra!” E não se deram conta de que a esquerda era contra uma vasta gama desconexa de coisas, e que vai mudando ao longo do tempo. Veja-se Delfim Netto, signatário do AI-5 sem arrependimentos, alçado à condição de conselheiro de Lula e Dilma: ele é de esquerda ou de direita?

Mas o pior mesmo, no momento, é que com a quentinha de direita acabamos por legar a educação brasileira a gente que escreve coisas como:

Darwin não inventou a teoria da evolução: encontrou-a pronta, sob a forma de doutrina esotérica, na obra do seu próprio avô, Erasmus Darwin, e como hipótese científica em menções inumeráveis espalhadas nos livros de Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e Goethe, entre outros.

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Por que tanta onda em torno de Charles Darwin? Ele inventou o ‘design inteligente’, que vocês odeiam, e a seleção natural, que dizem que é falsa. Pregou abertamente o racismo e o genocídio, que dizem abominar. Para celebrá-lo, vocês têm de criar do nada um personagem fictício que é o contrário do que foi historicamente. Não veem que tudo isso é uma palhaçada?

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Você lê nos manuais, por exemplo, que Galileu ‘superou’ a física de Aristóteles. Durante quatro séculos essa bobagem foi repetida como verdade terminal. Só por volta de 1950 os estudiosos perceberam que a física de Aristóteles não era uma física, mas uma metodologia científica geral, bem mais sutil do que Galileu poderia jamais ter percebido, e muito bem adequada às necessidades da ciência mais recente.

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A mentira e o fingimento […] são no revolucionário a base constante da sua visão de si mesmo e do universo. Eu usaria a palavra ‘histeria’ para descrever esse quadro, se ele não fosse compatível com uma conduta externa aparentemente normal em tudo quanto esteja fora da área de atuação específica do indivíduo. Quando René Descartes, nas Meditações de filosofia primeira, confunde o seu eu temporal concreto com a ideia universal do eu cognoscente, e passa de um ao outro sem perceber que toma como narrativa autobiográfica o que é mera análise lógica de um conceito abstrato, isso é evidentemente um sintoma histérico, embora na vida diária o filósofo não desse o menor indício de histeria. Talvez ‘histeria intelectual’ seja o termo. E histeria significa deixar-se arrebatar pelo próprio fingimento a ponto de acreditar nele piamente.

Essas baboseiras constam no best seller de Olavo de Carvalho, que promete ao leitor ensinar-lhe O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota – o que já dá uma mostra das preocupações que afligem o seu leitor médio. Deveria, naturalmente, ser caso de Procon, pois o comprador sairá proferindo por aí que Darwin é genocida, que sua pretensa descoberta consta em São Tomás e em Aristóteles, cuja física é mais compatível com a ciência de hoje do que Galileu. Ah, e Descartes é um histérico por causa da Primeira Meditação. Bom mesmo, só Olavo de Carvalho. Caso o leitor ainda queira argumentar que ele é um bom mentor para o que quer que seja, não vou discutir com maluco. Deixo-o com sua quentinha.

É claro que nesse rechaço nos acompanham os esquerdistas. Mas, entre eles, tudo se passa como se o desvario ideológico e partidário fosse exclusividade da direita. É como se não houvesse Marilena Chauí afirmando que Sérgio Moro é um agente da CIA e a Lava Jato é um plano para roubar o pré-sal. É como se o Reuni não tivesse criado universidades voltadas à militância. Ou como se os cursos identitários e interseccionais, também apoiados pelo Reuni, não se fundassem em autores desmoralizados pelo Caso Sokal. Ou, pior ainda, como se a velha esquerda marxista não ensinasse em cursos de pedagogia que “para resolver [as contradições que marcam a organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção] é necessário alterar as próprias relações sociais que as determinam. E só a partir daí será possível resolver também os graves problemas educacionais que vêm afligindo os educadores e toda a população brasileira.” Isto está em Pedagogia histórico-crítica, de Demerval Saviani, e é usado em cursos de pedagogia. Graças à esquerda, e a ninguém mais, os cursos de pedagogia ensinam seus alunos, futuros professores, a dar problemas educacionais por coisa natural dentro de uma sociedade capitalista. O que as últimas décadas nos legaram está aí a olhos vistos. E o olavismo é só um efeito colateral disso, pois anos e anos fazendo d’“a direita” um tabu tornaram atraente para os jovens qualquer um que se apresentasse como “de direita”. Se a educação se inverter, e tornar esquerda um tabu, o futuro não é previsível?

A esquerda atual e os olavetes têm mais semelhanças do que diferenças. Ambos estão mais interessados em política partidária e em moral do que em fatos, e ambos são detratores do iluminismo, do racionalismo e da empreitada científica de descobrir o mundo. Se uns usam “cartesiano” como xingamento, outro chama Descartes de histérico. Se uns chamam a ciência de patriarcal e colonialista, outro chama-a de genocida. Nenhum tolera que, como Descartes, experimentemos pôr tudo em dúvida antes de tentar descobrir a verdade, nem que busquemos por fatos, os quais costumam contraditar ideologias. Ambos querem nos entregar uma quentinha pronta.

Não precisamos, nem temos o direito, de achar que a educação brasileira ficará sempre à mercê de ideólogos. Apesar de tudo, o momento atual é melhor do que o de dois anos atrás – porque aqueles que se autodenominam como de esquerda, os das quentinhas, são corporativistas, e não vão nunca dizer que Marilena é tão ridícula quanto Olavo, ou que patriarcado das feministas é tão ridículo quanto globalismo. Aproveitemos que um conjunto de negações da esquerda está no poder, pois assim não há tanto espaço para corporativismo. Afinal, mesmo que eventualmente sirvam ao mesmo governo, Guedes tem tanto a ver com Olavo quanto Merquior tinha com Ustra. É preciso debater com base em fatos, fazendo o uso da nossa própria razão. Nada de quentinhas!

Nabuco era de esquerda ou de direita? A pergunta é anacrônica, pois os marxistas ainda não tinham dominado o debate e o transformado nesse binarismo burro. Nabuco era monarquista e era liberal, era abolicionista e era conservador. Ele não se alimentava de quentinhas, buscava conhecer de tudo e escolhia seu cardápio livremente.

Bruna Frascolla

Doutora em Filosofia pela UFBA e pesquisadora colaboradora da Unicamp.