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O que une a esquerda brasileira

por Bruna Frascolla (31/05/2019)

O fascismo é a sua unidade ideológica definidora.

Este texto visa a responder à seguinte pergunta: Por que a esquerda brasileira se mostra complacente, quando não apoiadora, de certas ditaduras latino-americanas? Este tipo de pergunta exige que se dê uma conceituação de esquerda; afinal, sempre será possível definir uma verdadeira esquerda e negar que defenda ditaduras, numa mágica similar à que isenta o cristianismo dos horrores da Inquisição.

1. Direita e esquerda no Brasil

O primeiro passo para evitar esse tipo de mágica é considerar o grupo humano dado e aceitar a sua autodeclaração. Diziam-se cristãos os inquisidores; dizem-se esquerdistas muitos brasileiros. Olhemos o grupo autodeclarado de esquerda e procuremos a sua unidade ideológica.

Quando tal nomenclatura passou a ser usada em larga escala no Brasil? Certamente não foi no Império; em seus últimos anos, víamos que a polarização retratada por Machado de Assis em Esaú e Jacó girava em torno da forma de governo. Outra grande questão era a da abolição da escravidão, mas não havia nenhuma relação necessária entre a escolha da forma de governo e a posição acerca da escravidão, e nenhuma delas era dita de esquerda. Na República Velha, com estados fortes, a política nacional girava explicitamente em torno de grandes coronéis e caudilhos regionais, e o presidente era atrelado aos grupos nada ideológicos de café paulista ou leite mineiro. Durante o Estado Novo, pululam tribos políticas variadas, do integralismo ao comunismo –  várias perseguidas por Vargas, cuja ideologia dificilmente poderia ser descrita em termos de direta e esquerda. O varguismo se adaptou à democracia, e teria como mais ferrenho opositor o udenismo, e “udenista” era ofensivo o bastante para preterir a designação de “direitista” da parte dos seus opositores. Já em clima de Guerra Fria, a democracia seria golpeada em 1964, quando um grupo que se autodeclarava revolucionário toma o poder alegando prevenir a ameaça comunista. Acompanhando-se as autodeclarações, não foi “a direita” quem deu o golpe, mas sim “os revolucionários”.

Tomaram o poder em um país agrário onde não era usual referir-se às tensões políticas em termos de direita e esquerda. Mas, durante o seu regime, o país deixaria de ser agrário e se transformaria em urbano – ambiente muito mais propício à politização de classes médias. E temos bons motivos para crer que tenha sido aí que surgiu esse grupo humano que nos interessa, que é o da esquerda: o Brasil se transformava em classe média urbana precisamente quando as liberdades políticas eram sufocadas. Tinham todo o motivo, portanto, para abominar o regime. Juntando-se o clima de Guerra Fria à sedução que as proibições trazem, formam-se as condições ideais para que nasça a esquerda no Brasil. E ela batiza como “direita” tudo o que não lhe seja igual: a ditadura militar, os conservadores da TFP, o capitalismo, o liberalismo.

Grupos humanos são capazes de manter coesão pelo país e através de gerações. É possível apontar a origem do Flamengo e identificar flamenguistas por todo o orbe que não se conhecem, mas têm os mesmos desejos. Os flamenguistas têm uma vantagem sobre os esquerdistas: todos sabem muito bem o que amam e o que querem. Ser flamenguista significa torcer pelo Flamengo e querer que ele ganhe todas as partidas e campeonatos do mundo. Mas o que significa ser de esquerda para um brasileiro?

Em seu surgimento, “esquerda” no Brasil significava “contrário à ditadura”, no singular, porque havia uma ditadura no país. Antes da queda do Muro de Berlim, era possível idealizar a terra mágica onde a sonhada Revolução ocorreu. Por isso, é razoável supor que muitos brasileiros operem ainda com esse significado de esquerda. No nosso léxico, “esquerda” tem (ou tinha, antes da Lava Jato) uma conotação meliorativa e é atrelada à denúncia de violações dos direitos humanos, que soem acontecer em ditaduras. Talvez seja por causa desse léxico especial que brasileiros se perguntam por que a esquerda apoia certas ditaduras. Esta não é uma pergunta que um russo ou um vietnamita façam.

Mas “contra a ditadura” não significava, de modo algum, “contra toda ditadura”, nem “a favor da democracia”. Aqueles que queriam pegar em armas desprezavam o emedebista que usava das instituições para promover a democracia burguesa: o seu sonho era a ditadura do proletariado, que enfim conduziria ao paraíso terrestre do comunismo. Hoje, o nome do MDB evoca apenas corrupção e amorfia ideológica. Confortável entre os preconceitos brasileiros, uma historiografia oficial pintou uma luta armada entre os mocinhos da democracia contra os vilões da ditadura. Mantendo-se as personagens simplórias, foi muito fácil, com a Lava Jato, inferir que os papéis de mocinho e bandido estavam trocados.

No entanto, desde 1990 a esquerda brasileira mostrava com clareza solar que não tinha nenhum compromisso com a democracia, nem com os direitos humanos. À queda do Muro de Berlim, o PT criou uma espécie de Internacional regional, o Foro de São Paulo, e convocou para ela a ditadura castrista e até representante das FARC.[1] Ora, na redemocratização, o Brasil sabia muito bem que democracia presume pluralidade partidária – e a Colômbia vivia dilacerada por uma guerra civil por causa das FARC. Leiamos um trechos do documento resultante do primeiro encontro do Foro de São Paulo. O ano, repita-se, é 1990, e a cortina de ferro acabara de cair. Soljenítsin publicara o seu Arquipélago Gulag, todos sabiam das atrocidades de Stálin – do massacre dos kulaks, do Holomodor. Os romenos mostraram de maneira inequívoca o que achavam de Ceauşescu. E o documento do Foro convocado pelo PT dizia: “Analisamos a situação do sistema capitalista mundial e a ofensiva imperialista, recoberta por um discurso neoliberal, lançada contra nossos países e nossos povos [i.e., os latino-americanos]. Avaliamos a crise da Europa Oriental e do modelo de transição ao socialismo lá imposto [ênfase minha]. Passamos revista pelas estratégias revolucionárias da esquerda desta parte do planeta, e dos desafios a ela apresentados pelo quadro internacional. Seguiremos adiante com estes e outros esforços unitários.” Era um problema que o comunismo tivesse sido derrotado na Europa Oriental! O grande problema do mundo eram os Estados Unidos! Caiu a cortina de ferro, e não há uma palavra sequer acera de violações dos direitos humanos!

Nominalmente, os participantes do primeiro Foro de São Paulo defendem a democracia e os direitos humanos. Mas, se defendem Cuba e lastimam a queda da URSS, é forçoso depreender que dão um significado muito duvidoso ao termo “democracia” e ter profundo ceticismo quanto ao seu compromisso com os direitos humanos. Não saíram da Guerra Fria, e são revolucionários. Continuaram desprezando os feitos do MDB, e chamando de direita tudo o que não fosse igual a si próprios. Prova disso é social-democracia ser de direita em português brasileiro.[2] [3]

Que define, então, a esquerda brasileira? A defesa nominal da democracia e o combate a quase tudo o que representam os Estados Unidos. Inclusive a “democracia burguesa” e os direitos humanos.

2. Em busca de um conceito ideológico de esquerda no Brasil

Hoje nos obrigamos a enquadrar os grupos políticos em um espectro linear, entre a extrema esquerda e a extrema esquerda. Nem sempre foi assim: era possível definir grupos políticos a partir de suas ideias. Um monarquista era quem defendesse a monarquia; um liberal, quem defendesse uma série de ideias liberais; um comunista, quem defendesse a coletivização dos meios de produção e a Revolução do proletariado etc. Não que isso impedisse nuances, pois um monarquista poderia ser parlamentar ou absolutista; um republicano poderia ser positivista ou liberal; um liberal poderia se restringir à economia ou à política, ser monarquista ou republicano etc. Não seria uma boa ideia voltarmos a rotular grupos políticos apenas por suas ideias, em vez de nos obrigarmos a enfileirá-los numa linha horizontal?

Fazer tal enfileiramento de ideias implica acreditarmos na realidade objetiva da distinção entre esquerda e direita. Mas na certa encontramos mais pessoas dispostas a adotar essa distinção do que a conceituá-las. Fiquemos, então, com Bobbio, um dos poucos a aceitar o desafio e fazê-lo de maneira clara e objetiva. A diferença entre direita e esquerda reside em esta última ter um norte, que é a igualdade, uma espécie de Estrela Polar[4]. A direita não teria um Cruzeiro do Sul; sua caracterização é negativa. Seguindo boa lógica, divisão de Bobbio é perfeitamente binária: P e ~P. De esquerda é aquilo que se norteia pela igualdade; de direita é aquilo que não se norteia pela igualdade – podendo ter qualquer outro norte, inclusive norte nenhum.

Esta é uma distinção que se conforma aos velhos preconceitos brasileiros que davam uma conotação meliorativa à esquerda[5], mas, ao mesmo tempo, admite a possibilidade de existirem má esquerda e boa direita. Para isso, Bobbio introduz uma oposição auxiliar, que é a entre liberalismo e autoritarismo: assim, há as possibilidades conceituais da esquerda autoritária e da direita liberal, além da esquerda liberal e direita autoritária. Dentro desse esquema, faz sentido dizer que Stálin era de esquerda, porque o credo marxista defendia a igualdade a ser atingida por meio da revolução, e que Hitler era de direita, porque a ele só interessava a supremacia alemã. Italiano, Bobbio tinha à sua frente os ataques terroristas de esquerdistas que não aceitavam a democracia, tais como Cesare Battisti. A fortuna deste mostra o abismo que separa a esquerda italiana da brasileira.

E parece que, ao contrário da tolerância visada, a distinção de Bobbio serviu no Brasil antes para subsidiar um corporativismo de esquerda: se é de esquerda, guia-se por um belo princípio, e eventualmente comete equívocos. A direita, a seu turno, não quer ver pobre andando de avião ou precisa desconstruir preconceitos inconscientes. E assim, à primeira vista, é possível revisar a história brasileira recente fazendo parecer que havia ideologias de direita e esquerda claras. Os militares deram um golpe porque não toleravam as reformas de base, igualitárias, do esquerdista Jango; e, ainda que as causas do golpe sejam controvertidas, fato é que os militares deram um golpe em nome da ordem – não da igualdade – e que o fizeram com o apoio da potência capitalista que antagonizava com a potência comunista. Logo, eram de direita.

Mas basta recuarmos mais um pouco na história, e vemos que a distinção ideológica de Bobbio não se sustenta. É preciso atentar ao tratamento dado pela esquerda a Getúlio Vargas.

As lideranças que se colocaram à frente da esquerda brasileira em 2018 eram Lula e Ciro Gomes. Este se reivindicava como melhor alternativa à liderança maior, que ele mesmo libertaria da cadeia após atropelar o judiciário. E, ainda por cima, se postava orgulhoso diante do retrato de Getúlio Vargas, anunciando que queria seguir os seus passos.

Não houve, na história do Brasil, ditadura mais autoritária do que a de Getúlio Vargas. Disto sabe qualquer um que tenha em mente a sua Constituição polaca, promulgada após um golpe de Estado. O movimento golpista de Getúlio era inimigo do comunismo, e com forte corrente antissemita. Tinha seu próprio Protocolo dos Sábios de Sião, o Plano Cohen, redigido pelo mesmíssimo Olympio Mourão que iniciaria um o golpe de Estado em 1964. Quanto ao desrespeito aos direitos humanos, é ocioso mencionar o seu extensivo uso do DOPS (órgão criado pela República Velha e extinto só por Collor), ou o significado da placa “Entre sem bater” pendurada pelo Barão de Itararé na sua redação, ou as Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos, quando podemos apenas lembrar da entrega, para a Alemanha nazista, de uma judia grávida, a comunista Olga Benário. Dentro do léxico brasileiro da Guerra Fria, é possível ser mais “de direita” do que isso?

Getúlio tampouco tomou o poder sob a bandeira da igualdade social. Resta, portanto, abandonar como critérios definidores da esquerda a defesa real da democracia, dos direitos humanos e o discurso igualitário. Procuremos por alguma pista nas realizações políticas. Quem sabe nelas não podemos discernir um arco ideológico que ligue Getúlio, a esquerda brasileira e as ditaduras latinas do pós-guerra fria?

Em Vargas, há a CLT, inspirada na Carta del Lavoro, e o “nacionalismo”, o fechamento xenófobo da economia acompanhado pelo fomento da indústria nacional. Parece que encontramos, então, uma linha ideológica definidora da esquerda brasileira atual: ela segue tratando a lei trabalhista fascista como sagrada, e segue atacando o “imperialismo” enquanto entrega a chave dos cofres públicos para a Odebrecht e a JBS. O ataque ao imperialismo coincide também com a retórica do Foro de São Paulo – e a relação das ditaduras latinas com a Odebrecht dispensa comentários.

Acontece, porém, que nisso a esquerda adota posições típicas do fascismo, identificado com a direita. Além disso, seguindo essas semelhanças, não podemos explicar por que a esquerda abomina a última ditadura brasileira. N’A moeda e a lei, Gustavo Franco enxergou um arco de política econômica que liga Vargas à hiperinflação dos anos 80, tendo tido uma pequena ruptura com o governo de Castello Branco, que foi reparada depois por Costa e Silva. Castello pôs a economia aos cuidados de Campos e Bulhões, mas o Brasil voltou à normalidade inflacionária em 1967 com Costa e Silva, que tirou os liberais e deu plenos poderes a Delfim Netto. Este, a propósito, foi em 1968 signatário AI-5; e, nos anos 2000, conselheiro econômico de Lula, o maior ícone da esquerda brasileira. Subsidiou a perseguição de Dilma, quando guerrilheira; e a sua política econômica, quando “presidenta”. Tal política era a da substituição da emissão desenfreada de papel-moeda pelo papel de crédito, ou crédito subsidiado, para empresários amigos. Por que, então, a esquerda não amaria Costa e Silva? Nada que ele tenha feito a algum esquerdista supera o que Vargas fizera com Olga Benário.

Bolsonaro elogiava muito o torturador Ustra, quando deputado. Na campanha, ficou um pouco discreto, passou a defender nominalmente a democracia e parou de falar de Ustra em toda oportunidade possível. Ciro Gomes fez justo o contrário. Inflamou seu discurso contra a democracia e aprofundou-o: não só emulou Vargas, como defendeu enfaticamente a ditadura venezuelana sempre que perguntado. Garantiu que a Venezuela era tão democrática quanto os Estados Unidos e o Brasil, e que todos os seus problemas são causados por uma oposição neonazista. A posição do PT acerca da Venezuela era conhecida. Por alguma cegueira, porém, social-democratas começaram a migrar de Marina para Ciro como um meio de evitar a polarização entre Bolsonaro e Haddad.

3. Um monstro velho

Resta uma definição de esquerda e direita que pode nos ajudar a enxergar coerência no cenário brasileiro e, por tabela, latino-americano. Para isso, deixamos de lado a crença na validade das noções de direita e esquerda como ferramentas de análise política, e reuniremos apenas os grupos conforme o padrão ideológico que apresentem.

A distinção é a de Aurel Kolnai, um judeu húngaro que, residente na Áustria, via se adensarem as nuvens do fascismo e do nazismo. Deu-se ao trabalho de ler todos os ideólogos do nazistas, bem como os seus autores favoritos, para combatê-los na imprensa austríaca. Fugiu para a Inglaterra e lançou em inglês, com a mesma finalidade de exposição e crítica, A guerra contra o Ocidente. Ele fez isto em 1938, quando os horrores do nazismo não tinham sido descobertos. Portanto sua análise foca em ideologia em vez de fatos. É um recorte tão raro quanto útil.

Para ele, o nazismo enquanto teoria política é a mesma coisa que fascismo. (Isto não quer dizer que fascismo e nazismo sejam a mesma coisa, porque o nazismo não era só uma teoria política e envolvia crenças místicas, romantismo e pseudociência racial.) O fascismo não foi apenas um movimento político já extinto, como o jacobitismo ou o Contestado; foi também o fundador de uma doutrina política documentada em textos. Essa doutrina pode ser resumida como um tribalismo e uma revolta contra os princípios liberais que norteiam o Ocidente. Com o fascismo, teria havido uma revolução intelectual que abolia qualquer noção de liberdade individual, e pensava o Estado como uma finalidade em si mesma. O fascismo pode ser descrito como um tribalismo porque não se guia por ideias racionais passíveis de serem compartilhadas por toda a humanidade, mas sim pela obediência incondicional de um grupo, tomado como conjunto orgânico e não como uma associação de indivíduos, a um cacique, o Grande Líder carismático que encarna a alma do Povo. O Povo é como uma grande tribo; e, em vez de adotar o formalismo de uma sociedade (termo que presume as noções de individualidade e contrato), se pauta pelo pertencimento a uma comunidade originária.

A esquerda marxista e a direita fascista são revolucionárias, mas na primeira há a luta de classes, e espera-se a Revolução da parte do proletariado. A direita, formada por esquerdistas desiludidos, desistiu de qualquer forma de igualdade de direitos, ao tempo que manteve todas as críticas esquerdistas à democracia. Desaparece a luta de classes, e surge a luta do Povo contra a sociedade elitista que o humilha e o Ocidente que o oprime. A Revolução não vem mais de uma classe, mas sim do próprio Povo, que destrói as instituições liberais burguesas, com seu pérfido individualismo, para se fundir num novo corpo, que é o Estado. Em vez de instituições, no Estado de direita há somente o Povo e o seu Líder.

Podemos encontrar todas as características dessa doutrina na esquerda brasileira. O fascismo é a sua unidade ideológica definidora.

Vejamos como Kolnai resume o pensamento de Moeller-Bruck, autor de O Terceiro Reich: “Os proletários alemães devem manter o seu rancor proletário, e até fervê-lo com sua raiva antiburguesa, não para combater capitalistas alemães, senão para bater no típico burguês ocidental, para o benefício ‘comum’ da nação germânica.” O brasileiro inteirado do noticiário policial logo reconhecerá a esquerda brasileira: o trabalhador brasileiro não deve de jeito nenhum odiar a Odebrecht, a Friboi, ou a nossa “indústria nascente”. O ódio fica para “os banqueiros” que não são do BNDES; fica para os liberais com capital. O trabalhador pode dar o seu FGTS para ser administrado por Geddel com rentabilidade abaixo da inflação – problema, mesmo, é vender a Cedae (que dá lucro, como frisa Freixo) ou abrir o país para o capital. É mais fácil achar hoje, na esquerda, o termo “raça” do que “proletário”. Não há luta de classes; há luta do Povo (uma coletividade mística) contra seus inimigos burgueses ou estrangeiros. Para Lula, uma grande conspiração para prendê-lo se deu porque ele “feriu poderosos interesses econômicos fora do país. Enquanto o pré-sal despertou a cobiça das petrolíferas estrangeiras, empresas brasileiras passaram a disputar mercados com exportadores tradicionais de outros países.”

Esse Povo está em constante guerra contra o Ocidente, e por isso o militarismo, que inclui milícias ideológicas, é um traço do fascismo. O livro se chama A guerra contra o Ocidente porque é a ideologia da Alemanha recém-derrotada pela França e pela Inglaterra, símbolos de democracia e capitalismo, e historicamente acuada pelo Império Romano, difusor da racionalidade humanista e da religião universalista. A razão e a liberdade (econômica e política) são os símbolos do Ocidente atacados. Trocando-se a Inglaterra e a França pelos Estados Unidos, podemos, mais uma vez, reconhecer a esquerda brasileira: ela mesma imperialista, ressentida dos sucessos do irmão do norte.

Assim como a esquerda brasileira, Mussolini também era um defensor nominal da democracia; mais ainda, um defensor de uma democracia superior: “O fascismo é contra a democracia que iguala o povo ao maior número, rebaixando-o ao nível da maioria; mas é a forma mais pura da democracia, se o povo for concebido, como deve ser, qualitativamente, e não quantitativamente, como a ideia mais potente porque mais moral, mais coerente, mais verdadeira”[6]. Por certo Mussolini não deu nenhum parâmetro racional por que possamos julgar se um indivíduo é parte do Povo. Mas foi franco o suficiente para mostrar que alguns são povo e outros não, ajudando-nos a explicar por que alguns moradores do Leblon são povo, mas peões evangélicos, não. Não é nada de racional, nem tem a ver com classe. É algo qualitativo.

Mussolini também subsidia a crítica feita à democracia burguesa: “Regimes democráticos podem ser definidos como aqueles nos quais, de quando em quando, se dá ao povo a ilusão de ser soberano, enquanto a verdadeira efetiva soberania está em outras forças às vezes irresponsáveis e secretas. A democracia é um regime sem rei, mas com muitíssimos reis, às vezes mais excludentes, tirânicos e ruinosos do que um só rei que seja tirano.”[7] Na fórmula menos elegante de Boulos, a nossa democracia é como o BBB, no qual o povo iludido aperta botões sem entrar na casa. Confundir um programa de entretenimento televisivo com o parlamento diz muito sobre a concepção que se tem das instituições.

Então eis a nossa resposta à pergunta de por que a esquerda brasileira apoia certas ditaduras: é uma consequência necessária de sua ideologia. A nossa esquerda é fascista, e apoia regimes fascistas aliados na luta contra os valores liberais do Ocidente. Apoiar ditadura é a norma da esquerda brasileira; a exceção é rechaçar as ditaduras alinhadas com os Estados Unidos na Guerra Fria, dentre as quais, a dos nossos militares. Não que eles sejam totalmente sem valor. Como apontou Manuela D’Ávila, ao menos eles tinham “visões nacionalistas”. Imperdoável, mesmo, é terem se associado à Casa Branca.

Na verdade, até o Estado Islâmico pode ser um ator dialogável. Tem essa agenda comum.

4. O elo perdido

A questão de como os direitistas europeus d’antanho viraram os esquerdistas latinos surgidos na Guerra Fria decerto é objeto para investigação histórica (como a empreendida por Victor Farías), mas podemos mostrar que a ideia não é nada extravagante. Na Venezuela chavista, em 1999, o peronista de esquerda e ex-guerrilheiro Norberto Ceresole publica Caudilho, Exército, Povo: A Venezuela do Comandante Chávez, um verdadeiro fóssil do pré II Guerra Mundial. Nega o Holocausto, afirma que a morte de alemães por norte-americanos seria maior e mais grave do que a morte de uns poucos judeus pelos nazistas, e diz que não é um antissemita, mas sim um ardente defensor da causa Palestina. Defende ainda um regime de terceira via, “pós-democrático”, que não é nem comunista, nem liberal. Democracia, para ele, seria imposição de um racionalismo ocidental, e inadequada aos povos não-ocidentais ou da periferia do Ocidente. Nesse novo sistema pós-democrático, há de haver o líder carismático ligado diretamente às massas, sem intermédio de instituições burguesas. Haveria ainda uma guerra civil entre os verdadeiros chavistas e aqueles que queriam uma conciliação com a burguesia.

Além da guerra civil, seria necessária uma guerra de potências estrangeiras na Colômbia para restaurar a soberania bolivariana. A Venezuela nascera oprimida, separada da Colômbia, pelos mesmos vilões apontados por Kolnai. Cito Ceresole: “A Venezuela, mais do que nenhum país ‘latino-americano’, necessita libertar-se do manto de chumbo que representou ter assumido a dupla herança da revolução inglesa (pertencimento subordinada ao mercado mundial capitalista) e da revolução francesa (cultura política ‘cidadã’).”[8] Recuperaria a unidade bolivariana conquistando a Colômbia, onde haveria uma guerra civil generalizada com o crescimento das FARC, aliadas da Revolução, contra paramilitares sionistas e agentes do imperialismo. Eis o militarismo, afinal, na forma de apologia à guerrilha. A intenção ulterior seria a “origem da Pátria Grande”[9].

Esta é a ditadura de esquerda apoiada pelos esquerdistas brasileiros. É claro que a nossa esquerda é fascista.

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NOTAS

[1]      As FARC participaram do primeiro encontro, e foram desfiliadas somente em 2002, com contrariedade da delegação petista. O processo foi descrito pelo insuspeito Breno Altman.

[2]      Para além do histórico de polarização entre PT e PSDB, veja-se a entrevista de Jean Wyllys ao Conversa com Bial. Nela, não só o PSDB, como também o PPS é qualificado como direita clássica, por oposição a extrema direita.

[3]      É importante frisar que essa mentalidade tem impacto sobre a educação, e reforça o preconceito favorável à esquerda. Veja-se o tratamento dado à Revolução Cubana nos livros didáticos. Vélez Rodríguez teve a mera intenção de fazer revisionismo com sinal trocado, e não conseguiu passar disto.

[4]      Cf. o Capítulo 8, “A estrela polar”, de Direita e esquerda.

[5]      Conotação essa compartilhado pelo próprio Bobbio: cap. 8, §3: “Sempre me considerei um homem de esquerda, portanto sempre atribuí ao termo “esquerda” uma conotação positiva, mesmo agora em que a esquerda é cada vez mais hostilizada, e ao termo “direita”, uma conotação negativa, mesmo hoje em que a direita está sendo amplamente revalorizada.”

[6]     Mussolini, A doutrina do fascismo in Opera omnia, v. 34, p. 120. Florença, 1961.

[7]     Id. ibid., p. 126.

[8]     Op. cit., p. 25. As aspas são porque tal cidadania não seria verdadeira, e o correto seria hispano-americana.

[9]     Op. cit. p. 27.

Bruna Frascolla

Doutora em Filosofia pela UFBA e pesquisadora colaboradora da Unicamp.