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O Partido Republicano em 2016

por Elton Flaubert (20/02/2016)

Se o GOP repetir a tradição de ter um candidato conciliador em momentos de tensão, Marco Rubio será o escolhido.

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Perfil dos candidatos

O partido republicano hoje é o partido da base conservadora em suas diferentes nuances e enfoques. O establishment do GOP nunca esteve tão compromissado com bandeiras sociais do conservadorismo, como a militância contrária ao aborto. O conservadorismo do GOP contrasta com o modern liberalism dos democratas, como na crítica ao Obamacare e ao programa de controle de armas. Geralmente, republicanos apoiam a livre-iniciativa, o livre-mercado, a desregulamentação, o enfoque na sociedade civil, o federalismo, a separação dos poderes, a descrença no aquecimento global, o sindicalismo restrito, e a defesa dos tradicionais valores judaico-cristãos.

O melhor programa econômico para um republicano é a criação de empregos, o empreendedorismo e o fortalecimento do setor privado. Tudo isto seria mais eficiente do que qualquer interferência paternalista do Estado. Na saúde, são contra um sistema de pagador único, por se tratar de “medicina socializada”, mas apoiam o medicare e o medicaid. Na política externa, é quase unânime o apoio a Israel e a ênfase na segurança nacional. Alguns temas dividem o partido, como imigração, economia, política externa e a liberdade frente à segurança nacional.

Vejamos alguns pontos discordantes entre os seus cinco principais candidatos nas primárias de 2016:

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Divido os pré-candidatos dessa maneira (com asterisco, os que já retiraram sua candidatura):

Tea Party: Ted Cruz, Ben Carson, Huckabee*, Santorum*, Rand Paul*

Pragmáticos: Jeb Bush, John Kasich, Chris Christie*, Carly Fiorina*, Jim Gilmore*

O conciliador com retórica belicista: Marco Rubio

Jacksoniano: Donald Trump

Ted Cruz

Formado em direito por Harvard, Ted Cruz é conhecido por ser um rígido constitucionalista. Como um adepto do originalismo, Ted compreende que a sustentação americana encontra-se na Constituição, que demarca a inspiração dos pais fundadores da nação. Todas as suas posições políticas advém disto.

Defensor intransigente da Constituição, Ted Cruz é um crítico severo do ativismo judicial, do abuso das executive order, do abuso de poder do Executivo e do Judiciário sobre o Legislativo, e das políticas econômicas ilegais que foram promulgadas nas últimas décadas. O candidato também se destaca por sua forte defesa do conservadorismo em temas sociais, como aborto, casamento gay e drogas.

A defesa da Constituição como elemento de encontro entre as gerações passadas e futuras também o leva à defesa do livre mercado e da mínima regulamentação. Um governo que cobra muitos impostos e taxas retira o poder da sociedade, sobrepõe-se a ela e lhe tira a liberdade. Para ele, colocar-se contrário às políticas econômicas intervencionistas significa defender a liberdade fundadora dos Estados Unidos, pois impede a tirania do Estado. Por isto, é contrário a todas as formas de subsídios.

Pelo fato do conservadorismo americano ser empirista e humanista — baseado numa hipostasia do homem no tempo, representada por uma noção de tradição que pertence à ação dos homens de outrora e não à base transcendente da cultura em si –, Ted Cruz possui também certos cacoetes nacionalistas. Ele é favorável à deportação de mais de dez milhões de imigrantes ilegais em quatro anos. Muitos desses imigrantes estão bem estabelecidos nos Estados Unidos há anos e já possuem filhos que nasceram lá, além de serem importantes para a economia. No entanto, ainda não é claro como isto poderia ser realizado e se não se trata apenas de promessa de campanha para agradar seu eleitorado.

Ted Cruz é filho do Tea Party e da ala do conservadorismo social. Com este perfil, elegeu-se senador em 2012 pelo Texas. Seu eleitorado é predominantemente evangélico e conservador, identificando-se por sua militância originalista e em temas sociais. Venceu em Iowa, num dos estados onde o eleitorado republicano tem este perfil. É crítico de Trump e de sua falta de modos. É visto com desconfiança pela elite republicana por muitas vezes jogar a culpa em seus colegas de partido (quando estes não podiam alterar no Congresso muitas políticas de Obama), fazendo o jogo populista do “anti-establishment”.

O candidato possui ótima retórica, temperamento calmo e é um bom líder. Entre os seus apoiadores encontram-se Rick Perry (ex-governador do Texas), Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro de Israel), Thomas Sowell (economista), Glenn Beck (apresentador), Jack Welch (CEO da General Eletric), William R. Forstchen (historiador), Mark Levin (radialista) e Rush Limbaugh (radialista).

Rand Paul e os libertários

O senador de Kentucky, Rand Paul, já se retirou da disputa. No entanto, ele representou uma das alas mais dissonantes do partido: os libertários. Filho de outro libertário famoso no partido, Ron Paul, Rand era um dos favoritos para a indicação entre 2013 e 2014, mas sucumbiu diante do ISIS e dos atentados terroristas.

O libertarianismo americano de direita (tipo hegemônico no país) nasce de uma ênfase dada às fundações revolucionária da nação para garantir o desfrute da liberdade de seus habitantes. Eles são conservadores que acreditam que a sociedade é melhor e mais feliz quando a liberdade de escolha é maximizada. Céticos da autoridade e crentes no papel de uma sociedade civil ativa e forte. As suas principais influências são Thomas Paine, Ayn Rand, Murray Rothbard e Friedrich Hayek.

Politicamente, o movimento tem como referência o conservadorismo das décadas de 1920 e 1930, que lutava contra as políticas econômicas de FDR e era isolacionista em política externa. Por vezes, esses libertários podem ser associados como uma espécie de extrema-direita populista. Alguns de seus integrantes já foram acusados de antissemitismo ou de ter relações próximas com antissemitas reconhecidos.

Os libertários de direita são críticos do que chamam de imperialismo americano, do militarismo e do intervencionismo. Guerra só em último caso, de proteção e com aprovação do Congresso. De resto, a nação não deveria interferir, preferindo liderar pelo exemplo. Sem participação no jogo político mundial, os Estados Unidos não teriam mais inimigos querendo sua destruição.

Eles também são contrários à “guerra contra às drogas”, pedindo sua liberalização, e acreditam que todos os seres humanos devem ser livres para tomar suas decisões. Em economia, são contrários a qualquer interferência do governo e clamam pela extinção do FED. São também contrários ao aborto, porque o livre arbítrio não deve sobrepor-se à defesa da vida humana. Quanto ao casamento gay, a maioria é contrária e defende que cada estado decida por si. Pessoalmente, Rand Paul não concorda com o casamento gay e é favorável à privatização do casamento, assim como é contrário aos direitos LGBT por não acreditar em direito por comportamento.

Os libertários costumam ser fortemente anti-imigração. Durante a campanha, Rand Paul afirmou que o seu desafeto no Senado, Marco Rubio, era o mais fraco em política externa e segurança nacional, pois este seria a favor de qualquer um entrar no país.

Os conservadores libertários foram um elemento essencial do Tea Party. Rand era apontado com um dos três principais presidenciáveis em 2014, mas sucumbiu diante do medo de ameaça externa, da sua defesa pelo fim do embargo cubano e por causa da política de drogas. Durante sua campanha, recebeu apoios de Mitch McConnell (senador por Kentucky), Walter Block (economista), Ed Crane (co-fundador do Cato Institute), Jonathan Davis (vocalista do Korn), Chael Sonnen (lutador de MMA) e Vince Vaughn (ator). A maior parte dos seus apoiadores migrou para Ted Cruz, que é o candidato mais próximo ideologicamente de Rand. Scott Banister (membro do conselho do PayPal), o seu maior contribuinte, declarou apoio a Ted após sua desistência.

O establishment na lona

Quando a campanha começou, ainda no meio de 2015, poucos imaginaram que os candidatos pragmáticos, mais alinhados aos conservadores moderados do partido, iriam ter tamanha desvantagem meses depois. Jeb Bush surgiu como o candidato favorito do antigo establishment republicano, mas naufragou no desgaste do sobrenome, na fúria da base com os rumos do partido na última década e por ser pouco carismático. Ele é o pré-candidato mais rejeitado no partido.

Jeb foi um bom governador na Flórida, mas lhe faltam elementos para liderar uma nação. Sendo o candidato mais financiado, gastou muita grana e até agora obteve poucos votos. Se isso já não bastasse, tem o pior desempenho de um republicano contra Hillary (pior que Trump), demonstrando a irritação do eleitor americano com dinastias familiares e suas elites políticas.

John Kasich, governador de Ohio, vem obtendo muito sucesso na sua administração. O estado cresce acima da média nacional e o índice de desemprego diminui. Reconhecidamente bom administrador, Kasich vem se gabaritando como o candidato dos moderados no partido. Sem muito apoio político ou financeiro, cresceu em cima do espólio do establishment que está em pleno naufrágio com Bush. Suas chances são pequenas, não só devido a sua campanha moderada, como também pelo fato de quase todos os outros candidatos terem bom desempenho contra Hillary Clinton. Esse era um fator que fazia o voto conservador migrar para os moderados em prol da vitória em novembro.

Esses dois governadores são pragmáticos e descartam loucuras administrativas. Conhecendo os meandros da administração pública, possuem mais maleabilidade. São candidatos contrários ao populismo, sem, por isso, deixarem de serem conservadores. Estão na lona pelo forte sentimento anti-establishment do povo americano, que desconfia dos burocratas de Washington e dos políticos profissionais.

O efeito Marco Rubio

De origem cubana, o jovem senador pela Flórida, Marco Rubio, é o favorito da maioria dos analistas políticos para vencer as primárias. Seus pais migraram de Cuba antes da ascensão de Fidel Castro. De origem pobre, seu pai trabalhava como barman e sua mãe como camareira em Nevada. Através de empréstimos estudantis, Rubio conseguiu se formar pela Universidade da Flórida.

Depois de anos na Câmara de Representantes da Flórida, Rubio dirigiu no estado o comitê de Mike Huckabee, pré-candidato nas primárias de 2008. Em maio de 2009, durante o auge do Tea Party, Rubio decide se candidatar ao Senado pela Flórida. Seu adversário nas prévias seria o então governador, Charlie Crist. Tendo muitas ligações com o Tea Party devido à campanha de Huckabee, Rubio conseguiu derrotar Crist. Inconformado, Crist decidiu concorrer como independente.

Entrando no Senado como um afilhado do Tea Party, Rubio se revelou um político conciliador, crítico do tamanho do governo e defensor de uma política externa atuante. Com o democrata Chris Coons, elaborou uma lei que estendia créditos e isenções fiscais para empresas que investiam em pesquisa e para veteranos que quisessem começar uma franquia.

Em 2013, participou no Congresso da famosa “Gang of Eight”, uma comissão formada por oito senadores de ambos os partidos, com a função de escrever um projeto de reforma abrangente da imigração, oferecendo uma oportunidade para regularização dos ilegais.

Rubio é socialmente conservador e moderado dentro do GOP em economia e imigração. Por sua característica e atuação, ele é o pré-candidato com menos rejeição internamente, e o republicano – junto com Kasich – com menos rejeição no país. Ele agrada tanto conservadores como moderados, tanto republicanos quanto independentes. O GOP tem uma longa história de escolher conciliadores num momento de tensão dentro do partido. Se essa história se repetir, Rubio será o escolhido.

O senador tem feito sua campanha em nome dos “sonhos americanos” do qual ele é produto, do pragmatismo, e relembrando a retórica hawkish dos “neocons”. Desde o segundo governo Obama e, ainda mais depois da ascensão do ISIS, Rubio tem se notabilizado por ser um falcão em política externa. Ele é favorável a mais investimento na modernização das tropas militares, de uma política externa agressiva, do uso de tropas terrestres contra o ISIS e do retorno do protagonismo americano. Por esta faceta, agrada uma parte do establishment republicano e os veteranos de guerra. Rubio foi o grande antagonista em política externa de Rand Paul no Senado.

Talvez por lhe faltar consistência e por pairarem dúvidas sobre sua firmeza de caráter, Rubio ainda não aconteceu. Todos esperam o momento onde ele irá assumir a ponta e partir para vencer Hillary. Há uma boa chance de isso ocorrer se Jeb e Kasich saírem da disputa o quanto ante — dessa maneira, os votos anti-Trump migrarão para o conciliador Rubio. Ele tem tido apoios de Rick Santorum (ex-candidato), George Pataki (ex-candidato), Bobby Jindal (ex-candidato), Nikki Haley (governadora de South Carolina), Tim Scott (senador de South Carolina) e mais oito atuais senadores, Paul Singer (investidor), Norman Braman (dono do Philadelphia Eagles), Larry Ellisson (um dos fundadores da Oracle) e Kenneth Griffin (CEO da Citadel).

No próximo texto, abordarei Donald Trump e seu significado.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.