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De Camus a Gessinger, a música que mais influenciou minha vida.

1.

No decorrer de uma estéril e confusa discussão entre amigos, precipitada pela recente polêmica acerca de um funk “proibidão” dos mais repulsivos que fora retirado de catálogo por serviços de streaming, surgiu a inevitável questão sobre o papel da arte na formação cultural da sociedade. Entre as idas e vindas tão comuns nos debates em grupos de whatsapp – entendida agora a esterilidade? – afirmei que embora não gostasse de alguns artistas era capaz de reconhecer não apenas a capacidade ou qualidade técnica do trabalho, mas a relevância de uma obra para a construção e o desenvolvimento individual sobre as mais diversas circunstâncias da vida.

Lembro de ter citado o quanto Legião Urbana, por mais que nos lembremos de canções saturadas de platitudes como “Eduardo e Mônica” (“quem irá dizer que existe/não existe razão nas coisas feitas pelo coração?”) ou “Pais e Filhos” (“é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”), nos guiou pelo caminho da descrença na ação política com “Que País é Este?” (“ninguém respeita a constituição mas todos acreditam no futuro da nação”) ou “Perfeição” (“vamos comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado… o meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões”). É difícil expor esse tipo de argumento no ambiente anárquico e geralmente infestado de virtue signalling (exibição de virtude) de um grupo de mensagens instantâneas.

Ainda que a discussão tenha se encerrado tão subitamente quanto se iniciou, detive-me a pensar sobre o impacto que músicas, filmes e livros que consumi tiveram no processo de forja do meu caráter, para bem e, certamente, para o mal.

Pelo lado do bem, de imediato emergiu a percepção de quanto a leitura de Albert Camus ao longo da vida adulta me impactou e, reverberando sobre o que faço, penso e falo, imagino que tenha mudado o homem formado que eu já era ao ler, pela primeira vez, ao 21 anos, O Estrangeiro. Daí pra frente, se as leituras e releituras de Camus me levaram a Montaigne, Kierkegaard e Santo Agostinho, a verdade é que a responsabilidade por eu ter trilhado esse caminho que mudou minha visão de mundo é de um gaúcho chamado Humberto Gessinger. Robert Smith, vocalista do The Cure, também tem uma menor parcela de culpa.

Minha música preferida dos Engenheiros do Hawaii era “Exército de Um Homem Só” (“nos interessa o que não foi impresso/e continua sendo escrito à mão/escrito à luz de vela quase na escuridão/longe da multidão/somos o exercito de um home só/no difícil exercício de viver em paz”), mas, ainda que em segredo – porque para aparecer alternativo nos anos 90 era cool menosprezar a banda gaúcha com letras metidas a inteligente que tocava na rádio – o fato é que provavelmente foram poucos os dias da minha juventude em que não ouvi ao menos uma canção deles. Não lembro ao certo quem, onde e quando, mas ainda durante a faculdade de Direito, em Florianópolis, disseram-me que “Gessinger é um cara muito intelectual, as letras dele estão cheias de referência a literatura”, e que “A Revolta dos Dândis”, a primeira música do disco de 1987 com mesmo nome, fazia referência a O Estrangeiro, romance de 1942 do autor franco-argelino Albert Camus.

Este breve romance de Camus já era indicação constante de professores e amigos mais velhos. A letra de Gessinger era simplesmente brilhante para mim. A melodia da música me acompanhava desde a infância. Era preciso ler o livro.

2.

Minha primeira experiência com Camus não foi tão marcante. Lembro de ter gostado do livro, de ter compreendido superficialmente a relação de “A Revolta dos Dândis” com a obra, mas ficou a sensação de que não compreendera inteiramente a trama ou que não desvendara sua mensagem. Levou quase 10 anos para que voltasse a lê-lo, dessa vez estimulado pela revelação feita por um grande amigo, sob efeito de alguma quantidade de álcool e da batida do Pós-Punk do The Cure, que “Killing An Arab” era totalmente inspirada no mesmo romance.

Acredito que a experiência que a vida te entrega entre os vinte e os trinta anos seja um pressuposto para que O Estrangeiro funcione como deve funcionar junto ao leitor. Nesta segunda leitura, extrai de Mersault, o protagonista do romance, uma postura sobre a indiferença humana que me despertou ora afinidade, ora repulsa. Não dava para parar aí. Era preciso ler mais Camus.

O Homem Revoltado (1951) foi o livro escolhido para buscar compreender este intrigante autor. A partir daí foi impossível deixar de considerar Camus uma das minhas principais referências intelectuais, não porque ele tenha proposto uma visão, uma cura, um alívio, um conforto, mas porque Camus me apresentou à possibilidade de que todo caos, toda (aparente) falta de sentido, não necessariamente sejam males; ou, que os remédios para estes problemas possam causar males ainda maiores.

Fui cativado por Camus porque seu trabalho legou o resgate intelectual da responsabilidade de ser dono do próprio destino a despeito do caos, da incerteza e do pessimismo que emerge da análise racional da realidade.

Humberto Gessinger, líder e letrista dos Engenheiros do Hawaii, jamais escondeu a admiração pelo autor de O Estrangeiro e admitiu expressamente a influência de sua obra em alguns trabalhos da banda. A biografia oficial do grupo faz referência ao fato de Gessinger estar lendo O Homem Revoltado durante a gravação do disco A Revolta dos Dândis.

Difícil não acreditar que o autor tenha exercido algum tipo de fascínio sobre Gessinger, se encontramos não apenas um festival de referências, mas uma síntese da obra de Camus numa única canção, aquela que considero a mais cult e mais libertária do Rock brasileiro: “A Revolta dos Dândis”.

A Revolta dos Dândis
(Humberto Gessinger)

Entre o rosto e o retrato
o real e o abstrato
Entre a loucura e a lucidez
Entre o uniforme e a nudez
Entre o fim do mundo e o fim do mês
Entre a verdade e o rock inglês
Entre os outros e vocês

Entre mortos e feridos
entre gritos e gemidos
A mentira e a verdade
A solidão e a cidade
Entre um copo e outro da mesma bebida
E entre tantos corpos com a mesma ferida

Entre a crença e os fiéis
Entre os dedos e os anéis
Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos!

Entre a minha boca e a tua
há tanto tempo, há tantos plano
Mas eu nunca sei pra onde vamos
E eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
E que não passa de ilusão

A letra da primeira música do disco dos Engenheiros do Hawaii de 1987 revela desconforto com o espírito da sociedade moderna. Há uma clara oposição às imposições de alinhamento que caracterizam a vida social no século XX. Nesse sentido, a composição pode ser tomada como um manifesto em favor da individualidade numa sociedade que classifica e segrega de acordo com preferências pessoais, hábitos de consumo, opiniões politicas e visões de mundo. Exatamente o tipo de imposição que perturbava Camus, um outsider que rejeitou fundamentalismo e posições extremadas.

Sua obra mais relevante no sentido de acusar os extremos é O Homem Revoltado, cujo capítulo “A Revolta dos Dândis” batizou a canção e o álbum da banda de Gessinger. Mas as referências nessa contagiante música são se limitam ao título. Toda a composição é, intensamente, vida e obra de Camus.

Se o refrão parece uma alusão clara e direta à obra mais famosa da Camus (“eu me sinto um estrangeiro”), a verdade é que a frase define Camus entre seus pares: sempre um outsider, francês entre os argelinos, argelino entre os franceses. Camus nunca se sentiu inteiramente integrante da turma existencialista capitaneada por Sartre, que fazia vistas grossas para as notícias dos excessos que chegavam da União Soviética de Stalin; esta independência lhe causou desprestígio e o menosprezo nos meios acadêmicos franceses da época.

Camus, já laureado com um Nobel de literatura, faleceu num acidente de carro portando, além de seu último romance, o póstumo O Primeiro Homem, um ticket para uma viagem de trem que acabou não sendo usado em razão de uma carona de última hora que lhe seria fatal. Esta ironia do destino não ficou de fora da letra de Gessinger (“passageiro de algum trem que não passa por aqui”).

No mais, a composição é farta de referências aos romances e ensaios de Camus. Seja por alusões indiretas ao protagonista em crise de consciência de A Queda (1951) na primeira estrofe, seja pela clara alusão às imagens da trama de A Peste (1947) na segunda estrofe: “Entre mortos e feridos/Entre gritos e gemidos/A mentira e a verdade/A solidão e a cidade/Entre um copo e outro da mesma bebida/E entre tantos corpos com a mesma ferida.”

Em A Peste, meu livro favorito do autor, Camus expressa sua visão de que se há salvação para os homens em meio aos flagelos, esta não se dará pelo mundo das ideias, mas pela abnegação e esforço pessoal, pela capacidade de amar não a abstração chamada “humanidade”, mas sujeitos de carne e osso. Neste sentido, a salvação é um esforço ininterrupto e de alcance individual.

Estou farto das pessoas que morrem por uma ideia. Não acredito em heroísmo. Sei que é fácil e aprendi que é criminoso. O que me interessa é que se viva e que se morra pelo que se ama. (Rambert, personagem de A Peste)

Na briga de torcidas entre os outros e vocês, o herói camusiano, cantado por Gessinger, é um estrangeiro que prefere a realidade, ainda que dura e solitária, às falsas ilusões e promessas fundadas em fantasias e delírios messiânicos, que expõem todos nós, incluindo os que amamos, aos riscos do incerto.

Entre os outros e vocês da histeria cultural, Camus e Gessinger servem de alento e inspiração para a busca de algo além do que se vende como referência e imposição popular. É normal, e talvez recomendável, sentir-se um estrangeiro em meio a gritos e gemidos de pura insensatez.

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Norival Silva Júnior

Advogado especialista em Direito Digital.