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Tudo começou na Casa Civil

por Sérgio Pessanha (16/03/2017)

A contribuição de Dilma Rousseff para o desastre econômico não começou em 2011, mas em 2005.

Entender a escalada da tragédia econômica brasileira passa necessariamente por entender o papel fundamental da figura de Dilma Rousseff nela.

Engana-se, no entanto, quem pensa que esse papel começou a ser desempenhado em 2010 na sua primeira campanha à presidência. Também não foi lá em 2011/12, com os juros sendo baixados na marra pelo BC com sua clara interferência. Nem mesmo em 2013 quando boa parte dos indicadores já demonstrava o esgotamento do tipo de politica praticada, mas a nossa digníssima presidente preferiria desconsiderá-los e maquiar os resultados descaradamente até a próxima eleição por via de manobras contábeis das mais irresponsáveis da nossa nova democracia.

Não, a coisa toda começou lá atrás em 2005. Foi logo após um certo Zé Dirceu ser queimado no princípio dos vazamentos que culminariam no julgamento do primeiro grande caso de corrupção da era petista. O mensalão já dava sinais dos estragos que faria e Lula, esperando antever qualquer começo de desestabilidade em seu governo, optaria por tirar o Zé da Casa Civil e colocar em seu lugar a primeira mulher a chegar ao cargo de maior articulação do planalto: Dilma Rousseff, a “competente” gerente que saía do Ministério de Minas e Energia.

Até esse momento, o Brasil ia de vento em popa. Não considero nenhum hiperbolismo da minha parte dizer isso. Muito se devia a Antônio Palocci, o primeiro Ministro da Fazenda de Lula. O sujeito era aquele tipo de petista meio tucano, fã do Armínio Fraga e de políticas econômicas mais ortodoxas do que a tendência do seu partido. Fazia, junto ao Meirelles – presidente do BC e hoje ministro da fazenda de Temer – o bê-á-bá das finanças públicas. O primeiro governo Lula tratou de manter tudo aquilo que antes seu partido criticava: da responsabilidade fiscal ao tripé macroeconômico. Fizeram valer a “carta ao povo brasileiro”, onde Lula argumentara que não iria fazer nenhuma loucura no governo e que seu combativo discurso de líder sindical tinha ficado para trás. Os mercados logo se acalmariam frente às primeiras sinalizações, o boom das commodities engrenaria, viria o crescimento nunca antes visto… Vocês sabem, aquele tempo marcou uma época em que, por incrível que pareça, um governo da esquerda trabalhista se sustentou no poder via uma política econômica “neoliberal” (digo isso no entendimento superficial do termo).

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Tudo indo muito bem até o mensalão vir à tona, e voltamos aqui para a Casa Civil: sai Zé, entra Dilma. A gerentona famosa por seu gênio difícil tratou de criar logo suas primeiras rusgas com outras figuras do alto escalão do Planalto. Era a segunda metade de 2006 quando uma dessas brigas veio a publico. Palocci e Paulo Bernardo articulavam no seio do lulopetismo o que seria um ajuste fiscal de longo prazo. (Pois é, a historia nos leva a um tempo em que se foi fortemente cogitado a necessidade de se frear os gastos públicos de forma razoável enquanto o país atravessava um bom momento econômico, o que certamente nos teria livrado de uma considerável parcela dos problemas que atualmente nos atingem.)

Acontece que o ajuste viria a ser chamado de “rudimentar e desnecessário” pela então ministra da casa civil. Nessa queda de braço, Lula acabaria comprando o lado da sua futura sucessora. Pouco depois, Palocci, também queimado pelos desdobramentos do mensalão, cederia lugar a Guido Mantega na Fazenda. O governo enfim engrenaria sua marcha ao nacional-desenvolvimentismo, Lula 2, Dilma 1 e o surgimento da Nova Matriz: o ultimo desfecho das desventuras econômicas “dilmísticas”.

Hoje a ex-presidente sai mundo afora palestrando contra o “neoliberalismo” e apresentando seu suposto contraponto enquanto alardeia sobre o “golpe” sofrido. Pode-se pensar que Lula, como grande articulador político, perceberia agora os equívocos e voltaria seus olhos para a política econômica do qual obteve real sucesso, certo? Infelizmente, não. Em reunião recente para discutir um “programa de emergência para a crise”, Lula preferiu escutar Barbosas e Belluzzos – o mesmo tipo de economista que teve no governo Dilma a sua máxima evidência empírica de fracasso. O ex-presidente saiu do encontro dizendo que o Brasil “precisa de um impulso via facilidade de crédito”, como se isso não tivesse sido o cerne do que foi aplicado nos últimos anos.

E Palocci? O ponderado ex-ministro da fazenda esqueceria as brigas antigas, seria membro da coordenação nacional da campanha de Dilma e entraria em seu governo como um dos principais ministros. A preocupação do sujeito passaria a ter seu foco direcionado no enriquecimento pessoal e não mais na ideia de ser o “combativo ortodoxo” em meio à heterodoxia crônica da gerentona e seu partido. Na odisseia petista, o bom senso econômico definitivamente virou coisa do passado.

Sérgio Pessanha

Graduando em economia pela Universidade do Sul de SC e empresário.



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