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Quando você nasce, tem em si incontáveis pontes para outros mundos.

Há alguns anos fui fazer uma reportagem sobre o último voo do Mirage 2000, o caça de elite da Força Aérea Brasileira por quatro décadas. Viajamos, eu e o fotógrafo, à base aérea de Anápolis (GO), encarregada de proteger Brasília.

Pausa: sabia que apenas um avião fica de prontidão 24 horas por dia, abastecido e armado? E que, se os radares detectarem uma ameaça de ataque terrorista sobre o Palácio do Planalto às 3 da manhã, o piloto de plantão pegará uma bicicleta (sem marcha) para se deslocar de seu posto até o avião, a mais ou menos 100 metros de distância?

Pois bem. Retorno ao assunto principal. Quando eu tinha meus 8 anos de idade, estava convicto de que seria piloto de caça. Mantive o plano por alguns anos. Entre os 11 e os 13, mais ou menos, eu comprava revistas de aviação militar com frequência.

Por isso, a visita à base aérea era uma ocasião especial. Entendi melhor como funcionam as máquinas. Vi uma decolagem e um pouso na cabeceira da pista. Quase fui tragado pelo jato de ar quente das turbinas. Entusiasmado, perguntei ao piloto se eu ainda poderia me candidatar a ser um deles.

Não podia.

Eu tinha 25 anos, e a idade máxima para ingressar na Academia da Força Aérea e ser piloto era de 21. Depois disso, sem chance.

Aí entra a filosofia.

E entra a teoria dos mundos possíveis, que explicarei como um leigo (provavelmente de forma equivocada). É mais ou menos assim: tudo o que não é logicamente impossível (um solteiro casado, um círculo redondo etc) pertence a algum mundo possível.

Se você decide largar a carreira atual e estudar medicina, estará acessando o mundo possível em que isso acontece, e deixando de acessar outros em que você larga a carreira para virar palhaço ou mendigo.

Ser piloto de caça já não é uma opção para mim. A ponte que liga o mundo atual ao mundo do Gabriel-piloto foi dinamitada no exato momento em que completei 22 anos.

Até aí, pouca controvérsia: tudo o que é contingente poderia ter sido diferente ou jamais ocorrido, e a teoria dos mundos possíveis parece ser uma metáfora interessante para as múltiplas possibilidades que cada um carrega.

Mas uma corrente de filósofos defende que os mundos possíveis – ou universos alternativos – de fato existem e são tão reais quando este daqui. Veja o que diz a Enciclopédia de Filosofia de Stanford – o Lewis mencionado é David Lewis:

Critically, for Lewis, worlds and their denizens do not differ in the manner in which they exist. The actual world does not enjoy a kind of privileged existence that sets it apart from other worlds. Rather, what makes the actual world actual is simply that it is our world, the world that we happen to inhabit. Other worlds and their inhabitants exist just as robustly as we do, and in precisely the same sense; all worlds and all of their denizens are equally real.

Gosto de pensar nessa teoria porque ela é a mais bela formulação poética disfarçada de teoria filosófica séria. Você não encontrou o amor da sua vida? Pois há um mundo em que vocês são casados, felizes, moram em uma colina de Dakota do Sul e têm quatro filhos.

E esse mundo é realíssimo.

A mim, me conforta saber que em algum mundo o Botafogo é campeão da Libertadores. Ou que estou, exatamente agora, pilotando um Mirage 2000 para impedir que terroristas iranianos joguem um avião sobre o Beto Carrero World (Penha-SC).

O que me leva à última, também comovente, conclusão.

Pense bem: quando você nasce, tem em si incontáveis pontes para outros mundos. A cada dia, elas vão se tornando mais escassas. Como minha ponte para o mundo em que sou piloto de caça. Os mundos talvez continuem existindo, mas as pontes sucumbem. Elas vão se extinguindo até o momento em que você está só, num único universo possível de acessar. A morte chega no exato instante em que não há mais ponte a atravessar.

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Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.