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O petismo e a verdadeira extensão de sua derrota

por Bolívar Lamounier (18/04/2016)

A desastrada intervenção de Lula fixou os contornos finais desse triste episódio de nossa história política.

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Os 25 votos acima do 342 necessários fixaram em números, mas não exprimiram do ponto de vista político toda a contundência da derrota petista. Todos os agentes políticos – a começar pelo próprio PT – precisam ter consciência deste ponto. Medir adequadamente o volume do movimento pró-impeachment é a primeira condição para uma percepção realista da nova situação política que se instaurou no país desde a votação do último domingo.

Comecemos pelo óbvio: a presidência Dilma acabou. Suas chances de sobrevivência no Senado são ínfimas, e mesmo no caso de se concretizarem, suas condições de governabilidade não existem mais. Evaporaram. Liquefizeram-se. Para bem aquilatar isto, basta observar que o apoio à presidente ficou reduzido ao próprio PT, ao PCdoB e ao PSOL. Se ela quase nada conseguiu fazer nos longos cinco anos e quatro meses durante os quais teve à sua disposição uma ampla maioria congressual, por certo não fará melhor agora, derrotada e exposta ao mundo como uma líder caricata.

Registremos, em segundo lugar, que o rito inicialmente sugerido pela Câmara foi derrubado, tendo prevalecido a versão do STF, muito mais favorável ao governo. Mais adiante, a três dias da votação em plenário, o recurso (indevidamente) impetrado pelo Advogado Geral da União no sentido de suspendê-la foi rejeitado por acachapantes 8 X 2 – isto, dito seja de passagem, num STF com 8 ministros nomeados por Lula e Dilma.

Em terceiro lugar, a aprovação popular ao governo Dilma. Também aqui, o contexto é essencial. Até as manifestações de 2013, Dilma Rousseff ostentava índices de aprovação da ordem de 60%; Deus e todo mundo davam-na por imbatível na sucessão presidencial de 2014. As manifestações cortaram-na pela metade, o que não impediu o marqueteiro João Santana de declarar, do alto de sua arrogância, que a levaria de volta aos 60%.

Santana não contou com o efeito devastador de dois fatos novos: a campanha eleitoral mentirosa, ocultando a real situação da economia, e a revelação, pela operação Lava Jato, de que o PT se envolvera até a medula no assalto à Petrobras. Com estes dois fatores, Dilma passou a surfar sobre diáfanos 10% de aprovação.

Quarto, a opinião pública e as ruas. Em priscas eras, o PT se via (e era visto) como o dono das ruas. A praça era dele, como o céu é do condor. Perplexos, seus chefes perguntavam-se “onde foi que erramos”, não compreendendo que as pernas do partido estavam sendo arrancadas por uma criatura de múltiplos tentáculos: a prepotência e o despreparo da presidente; as infrações por ela cometidas contra a legislação orçamentária e fiscal; o aprofundamento da crise econômica, fruto de suas políticas alucinadas, adicionando centenas de milhares de trabalhadores ao rol dos desempregados e, last but not least, a progressiva evidência de que o próprio Lula provavelmente se envolvera em maracutaias de bom tamanho.

Ao longo do percurso acima relembrado, um símbolo sério, o juiz Sérgio Moro, constituiu-se como um poderoso contraponto simbólico a Lula, o outrora respeitável símbolo da probidade. Desse ponto em diante, nem toneladas de mortadela e hectolitros de tubaína salvavam as manifestações pró-Dilma do raquitismo que as acometera. As maiores manifestações foram indiscutivelmente as de apoio ao juiz Moro e ao impeachment. Contra o suposto monopólio petista das ruas, funcionou o princípio similia similibus curantur (o semelhante pelo semelhante se cura).

Mas isso ainda não era tudo. Não para Lula. Imbuído de uma visão puramente instrumental da política, anêmica em valores e robusta em malícia, incensado como grande negociador, Lula acreditou piamente em sua capacidade de reverter a tendência pró-impeachment. Contava, para tanto, com três ingredientes: (1) sua presença em Brasília, impregnando a atmosfera da capital com seu inconfundível carisma; (2) sua despudorada inclinação a jogar o jogo bruto: assumindo para todos os efeitos práticos as rédeas do poder, instalou-se num hotel e se dedicou a tentar seduzir os deputados com verbas e cargos (e certamente também a ameaçá-los com retaliações); (3) cabendo a Dilma, a essa altura reduzida a uma simples correia de transmissão, mandar para o Diário Oficial os resultados das “negociações” de Lula.

A desastrada intervenção de Lula fixou os contornos finais desse triste episódio de nossa história política. Não descarto que ele possa recuperar uma parte importante de seu capital eleitoral, mas a figura simbólica outrora respeitada mesmo por seus adversários, o líder político capaz de apontar horizontes e inspirar a nação, esse está morto.