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De sua obra, cabe destacar a elaboração intertextual.

Não foi muita surpresa para mim saber que o Belchior vivia na minha cidade, Santa Cruz do Sul, onde morreu neste domingo. Havia comentários sobre isso e ele tinha amigos pessoais por aqui. É errada a informação de que ninguém sabia do fato. Ao mesmo tempo, porém, bate aquela sensação de “puxa, eu poderia tê-lo visto, poderia dizer da minha admiração pelas suas letras, poderia simplesmente reverenciá-lo” (apesar de em “Como o diabo gosta” ele nos aconselhar a “sempre desobedecer/ nunca reverenciar”). Há poucos dias eu e minha esposa visitamos amigos que moravam a três casas dele, mas que não sabiam que eram vizinhos do grande músico. Ouviam comentários, mas não acreditaram. Só agora se deram conta que aquele “cidadão comum, como esses que se vêm na rua”, caminhando à noite, era o “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”. E pensar que eu poderia ter esbarrado com ele naquele sábado!

Logo que resolveu sumir da vida pública, seguindo o que ele cantava (“saia do meu caminho/ eu prefiro andar sozinho/ deixe que eu decida a minha vida”), senti um misto de indignação e compreensão. Me atrai muito essa mística do artista recluso, daquele que já deu o que tinha que dar ou o que se isola justamente para criar mais. Ao que parece, Belchior fazia parte do segundo time, pois estava compondo, segundo informações da polícia.

Na literatura, os casos de artistas reclusos são muitos. No Brasil, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Raduam Nassar (que voltou aos holofotes para atacar o governo Temer). Fora daqui, J.D. Salinger,Thomas Pynchon e Elena Ferrante (que na verdade é um pseudônimo).

Na ficção, um dos meus filmes preferidos, Encontrando Forrester, conta a história de um escritor que vive isolado em um apartamento, sem quase nenhum contato com o mundo exterior, depois de ter escrito pelo menos um romance de sucesso. Eu mesmo criei um personagem recluso no meu romance Os óculos de Paula e, confesso, a possibilidade de eu fazer o mesmo não está descartada (nesse caso, claro, ninguém sentirá falta).

Na música, é algo é difícil, pois o artista geralmente precisa do palco e de aparições  na mídia para se manter financeiramente. E, pelo que se sabe, Belchior não estava sendo chamado para shows e suas dívidas foram crescendo. Um dos motivos, talvez, para seu sumiço. Porém, depois disso, o público clamava por suas apresentações. Tarde demais.

De sua obra, cabe destacar a elaboração intertextual. Um leitor da mais alta literatura, Belchior dialogava com Dante Alighieri, Honoré de Balzac e Olavo Bilac (“Viver a Divina Comédia Humana onde nada é eterno/ Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso/ Eu vos direi no entanto:/ Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não/ Eu canto.”), Edgar Allan Poe (“Como Poe, poeta louco americano/ Eu pergunto ao passarinho: Black bird, Assum-preto, o que se faz?/ Haven never haven never haven never haven never haven/ Assum-preto, passáro preto, black bird, me responde, tudo já ficou atrás/ Haven never haven never haven never haven never haven/ Black bird, passáro preto, passáro preto, me responde/ O passado nunca mais”), Anthony Burgess (“Longe o profeta do terror/ Que a Laranja Mecânica anuncia/ Amar e mudar as coisas/ Me interessa mais.”), mas também citava outras letras de músicas, como o verso “a felicidade é uma arma quente”, dos Beatles.

Esperamos que, tal qual Fernando Pessoa, Belchior tenha deixado um baú de coisas inéditas (músicas, poemas, contos, quem sabe um romance ou a uma provável tradução da Divina Comédia que ele estaria fazendo). E que a tristeza da sua morte faça reviver a obra. “É Freud, rapaziada”.

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Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.