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Para tentar entender o suicídio

por Cassionei Petry (23/04/2017)

Fugir da discussão do tema não é solução. Faz parte do absurdo da nossa existência querer deixar de existir.

Costumo dizer que, enquanto reflito sobre o suicídio, não o cometo. Quando a mente se ocupa com algo, não há chance para se pensar em outra coisa. Ora, pensar, falar, discutir sobre o assunto são maneiras de evitar dar outro passo em direção ao abismo. É o que penso. Portanto, questiono se esconder o problema achando que ao mostrá-lo se está incentivando a pessoa a tirar a própria vida seja uma solução.

O tema entrou na minha lista de inquietações intelectuais quando estudava no antigo 2º grau no século passado. Antes disso, claro que passava pela minha cabeça que não dava mais para aguentar a minha vida, tão sofrida! Mentira, sempre tive uma vida relativamente boa e nunca sofri de depressão, então qualquer possibilidade de me matar (no meu caso, que fique claro) era bobagem de adolescente. Um dia, porém, recebemos na escola uma palestra de um numerólogo. Servi como voluntário de uma de suas demonstrações. Pegando alguns de meus dados numéricos (data de nascimento, RG, essas coisas), ele me disse que em uma de minhas vidas passadas fui um suicida. Além disso, quando eu chegar aos 50 anos, vou ter uma reviravolta muito dura na minha atual existência e que, para ajudar a superá-la, tenho de ler a obra de Og Mandino, um escritor de autoajuda.

Já estava me tornando um cético naquela época e, por isso, não levei muito a sério o que ele disse. Aquilo me despertou, porém, a estudar o suicídio, a tentar entendê-lo. Delimitei, no entanto, o foco para a morte voluntária na literatura, sobre escritores ou personagens que se recusam a viver. Durante o meu mestrado em Letras, escrevi um pequeno ensaio, que já foi citado em outros trabalhos acadêmicos. Li, por conseguinte, muito sobre o suicídio, e vou continuar lendo, é claro, pois se parar… vocês já sabem.

Apesar disso, estava querendo fugir de duas polêmicas do momento, uma envolvendo um romance que virou série e a outra o jogo da Baleia Azul, difundido pelas redes sociais. Leio que seriam incentivo para os jovens cometerem suicídio, e me pergunto, talvez sem ter a resposta definitiva, se quem deseja tirar a própria vida precisa ter algo que o provoque a fazê-lo.

A. Alvarez, que foi amigo da escritora Sylvia Plath (que se matou enfiando a cabeça no forno do fogão com o gás ligado), também tentou a morte voluntária depois de passar por terrível depressão e escreveu depois um importante estudo, O deus selvagem (Companhia das Letras, tradução de Sandra Moreira). Ele afirma no prefácio: “Nenhuma teoria será capaz de desvendar um ato tão ambíguo e de razões tão complexas quanto o suicídio” e que “sempre será parcial qualquer explicação que forjemos”. Isso vem de um sujeito que passou por esse problema, tentou cometer o suicídio, depois passou a tentar entendê-lo e escreveu para nos fazer tentar entender.

“Se não é possível a um terceiro compreender, é-lhe ainda menos possível julgar”, escreveu Georges Minois em História do suicídio (Editorial Teorema, tradução de Serafim Ferreira). Os tribunais das redes sociais ampliam as condenações de quem se mata (e quem sofre com as ofensas é, obviamente, a família) e de quem aborda o assunto, pois estaria incitando a cometê-lo. Os próprios mantenedores das redes sociais censuram a abordagem do tema através dos algoritmos. E muitos querem censurar a série 13 reasons why por ser um suposto “gatilho” para os jovens se suicidarem. Ora, por que não pode ser um “gatilho” para o debate? Não precisamos discutir as questões abordadas na história?

Passamos por alguns casos de tentativa de suicídio na escola onde leciono e recebi ordens, junto com meus colegas, para não abordar o tema nas turmas onde estão esses alunos. Obedeço, mas me pergunto se estamos fazendo o certo. Deixar de falar sobre Os sofrimentos do jovem Werther, do Goethe, ajudaria em algo? Abordar a obra, porém, ajudaria ou seria incentivo, como o foi para muitos jovens no final do século XVIII? E será que pode haver formas para ajudar um suicida? Ou, como escreve A. Alvarez, será que “o suicida pode simplesmente não querer ajuda”?

De qualquer forma, temos que entender o suicídio. Fugir da discussão do tema não é solução. Faz parte da vida essa possibilidade, faz parte do absurdo da nossa existência querer deixar de existir. É inevitável, portanto, citar Albert Camus no livro O mito de Sísifo (Record, tradução de Ari Roitman): “Com o puro jogo da consciência, transformo em regra de vida o que era convite à morte – e rejeito o suicídio”.

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Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.