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O comportamento de grupo nas redes sociais

por Rodrigo Cássio (24/05/2016)

O grupo não pensa para entender aquilo que ainda não entende, mas para justificar aquilo que já julga entender.

Michel Temer golpista

Em psicologia social há um fenômeno chamado “pensamento de grupo”. Nesses tempos de Lava Jato e pós-impeachment, o Facebook confirmou ser um cano estourado de exemplos para observar este fenômeno. Isso certamente vale para os dois lados da disputa política que envolve a queda de Dilma, porque o pensamento de grupo não é exclusivo de uma ideologia ou partido. Todavia, pelo menos na minha timeline, a propaganda a favor da tese de que tivemos um golpe no Brasil deve ser o mais fantástico desses exemplos.

Um pouco além do que se reclama nos posts, a indignação seletiva não é o aspecto que melhor demonstra o pensamento de grupo. Mais importante que ela é o fato de as pessoas deixarem de pensar com base em informações suficientes e raciocínios sólidos, passando a submeter a linguagem e os fatos às suas decisões prévias. Assim, o pensamento já não serve para refletir e julgar. Ele serve para confirmar aquilo que deseja ser verdadeiro.

Na gravação com Romero Jucá, conhecida ontem, o impeachment é mencionado como uma forma de proteger os políticos ameaçados pela Lava Jato, inclusive Lula, que é citado. Os defensores da tese do golpe negligenciaram esse dado para considerar o material uma prova de que houve golpe contra Dilma.

Ora, não é preciso muito esforço para levantar algumas questões: “Se esta é a prova do golpe, Lula é um beneficiário?”; “Se Lula é beneficiário, o discurso do PT contra o golpe não é contraditório?”; “Se o golpe existiu para interromper a Lava Jato, não é forçoso que se trata de um golpe fracassado?” (A investigação teve novas operações ontem e hoje, e já influenciou a saída do próprio Jucá do ministério…); “Se um golpe fracassa em seus objetivos, não é equivocado continuar a chamá-lo de golpe?” (Se o golpe é o esforço de instrumentalizar o impeachment para paralisar a Lava Jato, isso não constitui prova suficiente de que o impeachment deve ser visto, em si mesmo, como um golpe); “Não será cedo demais ou pouco demais para termos tanta certeza sobre tudo isso que estamos dizendo?” etc.

Mas nada disso – questões, dúvidas – parece importante para quem se contenta com o pensamento de grupo. O grupo não pensa para entender aquilo que ainda não entende. O grupo pensa para justificar aquilo que já julga entender. Por isso o compartilhamento de tantas notícias fakes favoráveis à tese do golpe: o pensamento de grupo é ansioso. Por isso a ênfase dos posts que dizem apenas um sonoro “SIM, FOI GOLPE”: o pensamento de grupo faz pressão para a conformidade de todos. Por isso, também, esse gozo de alívio e fúria que chega a dispensar o sarcasmo que há pouco ainda animava as polêmicas nas redes: a vontade de confirmar a tese do golpe é tão grande que já está valendo a pena postar memes chamando os leitores de “trouxas” ou “burros”, porque eles apoiaram um golpe que, enfim, teria sido provado!

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O que motiva toda essa excitação não tem a ver com a consistência de qualquer prova encontrada. Não tem a ver com “ter razão”, mas sim com “ser membro do grupo que tem razão”. E quando “ser membro do grupo que tem razão” passa na frente do “ter razão”, já estamos envolvidos dos pés à cabeça no fenômeno impetuoso do pensamento de grupo. Quanto mais nos alimentamos com a ideia de que o nosso grupo é o mais inteligente e moralmente superior, mais desprezamos a importância de que o nosso pensamento individual resista livremente à influência irracional dos sentimentos de vínculo e pertença. No auge do vínculo, já não se trata mais, propriamente, de pensar. Basta seguir o grupo.

As remissões retóricas ao nazismo em busca de comparações com a atualidade tem quase sempre algo de forçado e banalizante, assim como o emprego da palavra “golpe” para se referir ao impeachment de Dilma. Apesar disso, é irresistível lembrar de um depoimento de Albert Speer, assessor de Hitler, sobre como a imperturbável certeza dos nazistas sobre suas próprias qualidades suprimiu a autocrítica do Terceiro Reich: “Cada autoengano foi multiplicado como em uma sala de espelhos, tornando-se uma imagem distorcida e repetidamente confirmada de um mundo fantástico de sonhos que já não tinha qualquer relação com o mundo exterior”.

Guardadas as diferenças de contexto, o pensamento de grupo nas redes sociais tem operado de maneira parecida. Uma crítica relevante da comunicação deveria estar atenta à generalização desse comportamento. Que um bom número de pessoas capazes de fazer essa crítica prefira se dissolver no grupo e dedicar-se à propaganda ideológica explícita é algo realmente desolador, ainda mais quando sabemos que autores recentes – como Pierre Levy – viram nas redes sociais a possibilidade de manifestação de uma inteligência coletiva capaz de novas formas de interação e criatividade.

Rodrigo Cássio

Professor e pesquisador. Autor de Filmes do Brasil Secreto (Ed. UFG).