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Pedro Gonzaga respira literatura. A música tentou sequestrá-lo, mas ele mais ou menos escapou dela sem resgate.

“Em outros tantos quartos da terra”, de Pedro Gonzaga (Edições Ardotempo, 2017, 146 páginas)

Luis Fernando Verissimo batiza os poemas que publica no final de sua crônicas de “Poesia numa hora dessas?!”. Foi a frase em que pensei quando iniciei a leitura de em outros tantos quartos da terra, de Pedro Gonzaga, Editora Ardotempo, 144 páginas. Em meio ao furacão da política no país, o que faço lendo poesias e, o pior, escrevendo sobre elas? Mais grave é aquele que as escreve neste momento. Alienados? Talvez. Quem vive a literatura de certa forma se afasta de tudo, apesar de muitas vezes ela também tratar dessas questões. “O mundo anda tão complicado”, como disse outro poeta. Vamos complicá-lo ainda mais, ora pois.

Do conto à poesia, passando pela crônica e pela docência, Pedro Gonzaga respira literatura. (Seu pai, diga-se, é um grande professor e crítico de literatura aqui no RS.) A música tentou sequestrá-lo, mas ele mais ou menos escapou dela sem resgate. Sorte a nossa, pois assim ele se dedica a escrever versos como estes: “pois é no reino das pequenas coisas/ que o amor governa senhor”.

Nas dobras dos lençóis amarrotados de quartos de hotéis pode estar a essência da vida. Esqueçamos as ruas, o barulho, “lá fora uma grande alarido de buzinas”, e procuremos o silêncio, em que pese precisarmos ouvir “os horrores/ que este século ainda nos guarda”. O poeta busca essa essência.

A essência está nos grãos de areia grudados atrás do joelho da mulher, nos restos de chiclete colados em baixo da mesa da sala de aula, no cheiro de cigarro impregnado nas “barbas esdrúxulas”, nas gotículas de chuva que escorrem nas rendas da calcinha ou numa vidraça, no pó dos tapetes que Abdullah vende “há quinhentos anos/ numa pequena ladeira/ na Istambul ocidental”, na “última gota de esperma/ (…) vertida em outra pele”, na gordura nas mesas de restaurantes vazios, nos cabelos de uma toalha molhada. Está nos espaços em branco de um livro de poesias.

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Escrevo minhas impressões sobre o livro de Pedro Gonzaga ouvindo jazz, mais precisamente John Coltrane. Não é por acaso. Pedro também é saxofonista. Seus poemas, no entanto, não me parecem musicais, são mais secos, buscam narrar a vida e contar as emoções mais do que sugeri-las. E o faz bem. As descrições de cenários também se destacam:

os mercados do centro estão cheios
tendas vendem translúcidos tecidos
homens e mulheres longe do sol
tragam fumaças doces
enquanto seus corpos se usam
e se contorcem e se dilatam (…)

Em “poemas”, o eu lírico diz por que publica seus versos: “para vencer a política”. Por isso faz sentido poesia numa hora dessas.

O título do livro escrito assim, em minúsculas, nos apresenta uma ambiguidade interessante. Os quartos, numa primeira leitura, são dos cômodos mesmo de uma casa ou de um hotel, de acordo com o poema “sucesso”, que consta na quarta-capa, mas pode nomear também uma divisão em quatro partes de algo. Terra, por sua vez, pode ser o planeta mesmo ou o chão. Encontra-se, portanto, poesia em todos os quartos do planeta, onde há duas pessoas se amando, em todos os cantos da terra, enfim, em outros tantos lugares.

O poeta colhe a poesia.

O leitor se alimenta dela.

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Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.