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Escola partida em pedaços

por Cassionei Petry (21/07/2016)

O Escola Sem Partido me atraiu num primeiro momento. Seus defensores, porém, me fizeram repensar o apoio.

Escola Sem Partido

Em princípio, ter uma escola sem partido deve ser algo bom. Criticar uma escola sem partido também deveria ser algo a ser aplaudido. Expor pontos de vista faz parte da democracia, do debate. O que se nota, no entanto, é um ódio por parte dos defensores de ambos os lados em relação à ideologia do outro. O projeto Escola Sem Partido é bom porque elimina o pensamento de esquerda, vociferam alguns. O Escola Sem Partido é ruim porque quer calar o professor, bradam outros. Enquanto isso, o estudante, pelo menos aquele que busca o conhecimento, no meio do fogo cruzado se pergunta: afinal, quando a escola deixará de ser partida? Quem juntará seus pedaços?

Acompanhei durante um bom tempo o projeto através de sua página do Facebook e, inclusive, contribuí enviando mensagens quando lia notícias em que as decisões da educação eram pautadas por questões ideológicas e partidárias. Como professor da rede estadual do Rio Grande do Sul, sou bombardeado seguidamente pelo ideal político dos meus pares, principalmente relacionados ao sindicato, do qual nunca fui sócio, mas seguia algumas de suas determinações: já fiz greve, passeata, votei em assembleias que eram conduzidas aos berros, cantei músicas e gritei frases de efeito, repetidas muitas vezes sem um questionamento profundo sobre o que estava fazendo. A decepção surgiu quando o PT esteve no governo gaúcho e, quando foi deflagrada uma greve, a adesão foi pouca, afinal o principal partido da esquerda, que sustentou durante anos as ideologias sindicais, tinha o controle das mentes de milhares de professores. Pulei fora desse barco, pois se eu lutava para não ser massa de manobra dos poderosos, também não queria me tornar massa de manobra de sindicatos, que também são poderosos. Hoje sou apenas um indivíduo.

Como sou contra a partidarização das escolas e do ensino, o Escola Sem Partido me atraiu num primeiro momento. Seus defensores, porém, me fizeram repensar o apoio. Muitos comentários na página do projeto davam conta de denúncias de professores que, vejam só, se declaravam ateus em sala de aula. Vejam que crime! Eu, portanto, não poderei mais dizer que não creio em nenhuma divindade, mesmo quando estou falando sobre mitologias, porque estaria influenciando meus alunos a deixarem de ter suas crenças? E não poderia falar sobre os mitos gregos sem também falar, com a mesma profundidade, sobre as centenas de outras crenças que existem? Se não é isso que o projeto preconiza, é o que seus defensores querem que aconteça.

A defesa do Escola Sem Partido também vem sempre acompanhada de imagens com as figuras de Marx, Che Guevara e Paulo Freire geralmente de forma depreciativa, colocando-os como principais culpados pelos rumos da educação. Lógico que esse endeusamento é a causa de vários males da escola. Já escrevi artigos contestando Paulo Freire. Acontece, no entanto, que a ênfase nessas figuras denota que a Escola Sem Partido tem lado, e esse lado é o da direita e não da esquerda. Seus defensores são apenas do aspecto ideológico de direita, logo, a postura adotada é atacar tudo da esquerda e sugerir que se estude as figuras da direita. Pelo menos é o que está ocorrendo na prática. Vale lembrar que todos que são contra estão sendo tachados de esquerdistas ou instrumentos na mão da esquerda e que a direita deve se unir em prol da causa. Isso diz muita coisa.

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Por outro lado, as críticas ao projeto dão conta de que querem calar o professor, acabar com o ensino do pensamento crítico, impor novos pensadores no lugar dos estudados. Acontece que, para eles, ser crítico é contestar, ser rebelde, ser de esquerda, ter Che Guevara como herói, Marx como ideal de filósofo, seguir a pedagogia de Paulo Freire, criticar o capitalismo e exaltar o socialismo, mesmo este que não tenha dado bons resultados em nenhum lugar do mundo depois de mais de 100 anos. Da forma deles, também calam muitos professores.

A questão é: teremos mais uma lei, diretriz, seja lá o que for, que dará limites à atuação do professor? Se sou contra a Base Comum Curricular, tenho que ser contra o Escola Sem Partido, pois limita, sim, o pensamento, tanto quanto a prática atual na educação alicerçada pelos ensinamentos de Gramsci, a ideologia de gênero, o politicamente correto e leis como as que exigem a presença do negro e do índio no ensino da literatura nos limitam.

Quero ler Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto e outros escritores não por serem negros, mas sim porque eram grandes escritores. Para mim pouco importa que Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e tantas outras sejam mulheres, e sim a qualidade literária que elas apresentam. Trago para a sala de aula as letras das músicas de Chico Buarque pela sua qualidade e o que representaram em determinada época, e não porque ele seja partidário de A e ou B. E não quero estudar uma letra de “pancadão” porque “é preciso diversificar a questão cultural em sala de aula dando espaço para todas manifestações”. Assim como gostaria que o outro professor fosse livre para dizer o que ele pensa, mesmo que ele traga para a sala de aula justamente a letra de um “pancadão”. Que se faça a crítica, não a proibição a esse tipo de professor. Assim vale se ele quer dizer o que pensa sobre o socialismo, desde que não reprove um aluno só porque discorda dele.

Não quero ser conduzido pelos outros. Eu quero conduzir minhas aulas, quero que meus alunos saiam da escola com o máximo de conhecimento possível e é sim aquele conhecimento que acho mais relevante que vou ensinar. Se o aluno não concorda, ele vai buscar outro conhecimento. Se quiser ler John Green, leia, mas não na minha aula. Na minha aula, Graciliano Ramos é mais importante, não porque foi comunista, mas porque era um ótimo escritor. A escola hoje está em pedaços porque a política é sua tônica, formar cidadãos críticos é mais premente, tornar prazerosa a aula é o objetivo. O conhecimento, que é o mais importante, fica em último plano, relegado ao pó das bibliotecas. Nem a Escola Sem Partido e nem os seus críticos resolverão esse problema.

Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.