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Outro trabalho linguístico de Cristiano Baldi é a utilização de imagens, fotografias, no estilo W.G. Sebald.

“Correr com rinocerontes”, de Cristiano Baldi (Não Editora, 2017, 288 páginas)

Correr com rinocerontes é o segundo livro, porém o primeiro romance de Cristiano Baldi, que estreou com uma coletânea de contos, Ou clavículas, da Livros do Mal, editora gaúcha que causou barulho no meio literário no início deste século e lançou nomes importantes, como o de Daniel Galera. O romance, por sua vez, é fruto de um trabalho elaborado para obtenção do título de Mestre em Letras pela PUC do Rio Grande do Sul, em 2015, apesar de ter sido iniciado quase dez anos antes. Somado a um ensaio sobre o processo criativo, a narrativa forma a dissertação de mestrado de Baldi.

Coincidentemente, também desenvolvi um projeto nesse sentido, só que na Universidade de Santa Cruz do Sul, que resultou no romance Os óculos de Paula. No meu caso, escrevi notas reflexivas sobre a criação da obra, num trabalho inédito na instituição gaúcha, concluído em 2013. Romper a barreira do texto formal em busca de titulação de mestrado ou doutorado ainda é uma novidade, por isso continuei acompanhando algumas publicações acadêmicas de escrita criativa. Entre elas, justamente o ensaio de Cristiano Baldi, disponível em sua versão online no site da PUC-RS. Finalmente, o romance agora também vem a público.

O jovem narrador e protagonista, jamais nomeado, também estuda mestrado, porém em São Paulo. Depois de um acontecimento com sua mãe, ele é chamado pelos avós para voltar a Porto Alegre. O motivo demora para ser elucidado e essa estratégia narrativa de Cristiano Baldi funciona muito bem. Há sempre uma sugestão de que algo grave possa ter acontecido, deixando o leitor o curioso e, por isso, sem largar o livro. Fatos passados começam também a vir à tona, principalmente envolvendo seu irmão, Igor, que tem deficiência mental, protagonista de um episódio em uma piscina de hotel em Gramado, peça-chave para a situação atual da mãe.

Era preciso cuidar de Igor, conduzi-lo através da sucessão dos momentos, evitar que ele fizesse algo tão terrível como aquilo que acabou fazendo apenas três anos mais tarde.

O espaço temporal nunca é explicitado. O narrador nos fornece pistas, nos faz realizar cálculos com relação às idades e concluir, a partir da reeleição de um dos presidentes da República, a data exata do evento que o trouxe de volta para o sul. E os flashbacks que perpassam a obra representam a confusão que é a vida, de acordo com a concepção da avó do narrador, depois de tantos percalços na família:

− Às vezes não parece que a vida está na ordem errada, que ela foi embaralhada por alguém?

Outro trabalho linguístico de Baldi é a utilização de imagens, fotografias, como a dos “recados sarcásticos na porta da geladeira”, na verdade bilhetes de sua namorada de São Paulo, Bárbara, com as desculpas que o protagonista daria aos avós para não visitá-los em Porto Alegre, ou então do livro cujo miolo foi todo rasgado, sobrando apenas a capa, “vítima” de uma garota que o narrador encontra em um bar:

Ela riu e disse que era inteligente na mesma medida em que era desatenta e que isso atrapalhava suas leituras da faculdade e que então, sempre que terminava de ler uma página de um livro, ela arrancava e jogava fora. Assim precisava fazer um esforço tremendo para manter a atenção, pois sabia que não poderia voltar e reler uma passagem mais complicada.

Recurso difundido por W. G. Sebald e, no Brasil, por Valêncio Xavier, foi muito bem trabalhado por Carlos Henrique Schroeder no romance As fantasias eletivas. Em Correr com rinocerontes, as fotografias sugerem algo sobre o enredo, apontam interpretações e, por não serem muitas, usadas numa quantidade aceitável, não poluem visualmente o romance.

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Deixo em aberto aqui na resenha um conflito entre o protagonista e uma pessoa que está ausente no enredo, uma ausência que incomoda o leitor e, por isso, está, paradoxalmente, bem presente na história. É uma das tantas camadas de interpretação que o escritor nos coloca, então deixo para o leitor reagir a sua forma.

O título, por sua vez, que segundo o autor no ensaio mencionado permaneceu apesar das mudanças que fez na história, me provoca uma imagem alegórica de alguém correndo entre uma manada de rinocerontes na iminência de ser esmagado a qualquer momento. O protagonista do romance se sente assim, bem como o leitor, que durante o decorrer do enredo se angustia pensando que a todo o momento levará a pisada, quem não tarda a chegar. É daqueles romances dos quais não saímos ilesos. E esses são os melhores.

Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.