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Vila-Matas sem contratempo

por Cassionei Petry (20/09/2017)

Enrique Vila-Matas é a própria literatura em carne e osso.

“Mac y su contratiempo”, de Enrique Vila-Matas (Seix Barral, 2017, 304)

A Enrique Vila-Matas pode-se atribuir o que diz o narrador de La parte inventada, de Rodrigo Fresán: “Era un adicto a los escritores. Nada le interesaba más como tema y trama”. E é o que acabam esperando os seus leitores, sempre sedentos por mais um enredo em que um personagem ora se veja envolvido com o processo de criação literária, ora num momento de total falta de inspiração, ora lendo e comentando sobre suas leituras, ora recusando-se a escrever.

O recente romance (diário, livro de contos ou ensaio) de Vila-Matas tem um pouco de tudo isso. E mais, ele também se volta para a própria obra, inclusive de forma crítica. Mac y su contratiempo (que sairá no Brasil pela Companhia das Letras) tem como narrador e protagonista um advogado de mais de sessenta anos que decide escrever uma obra literária, depois de anos sendo apenas um bom leitor, e agora com mais tempo, pois perdeu o emprego. O que lemos, na verdade, é um diário sobre esse seu intento.

Mac Vives Vehins é casado com Carmen e mora no bairro El Coyote, em Barcelona, lugar fictício, cujo nome tem origem literária. É só mais uma de tantas referências intertextuais da obra. O protagonista, inclusive, começa a escrever ouvindo Kate Bush, por certo a canção “Wuthering Heights”, inspirada já no título no romance O morro do ventos uivantes, de Emily Brothë, e também “Babooshka”, nome que lembra a boneca que tem outra dela e dentro desta há outra e depois outra e depois outra… Mac y su contratiempo, da mesma forma, tem uma história e dentro desta há outra e depois outra e depois outra…

Las novelas que me gustan siempre son como cajas chinas, siempre están llenas de cuentos.

O protagonista, buscando inspiração para escrever, ouve em uma livraria o seu vizinho, Ander Sánchez, um escritor consagrado, dizer que não gosta de sua obra da juventude, Walter y su contratiempo. Mac decide, então, reescrevê-la secretamente, num processo de modificação e repetição:

Veo, leo, escucho, y todo me parece suscetible de ser alterado. Y lo altero. No paro de alterar.

Tengo vocación de modificador.

También de repetidor.

Para tanto, começa a reler a obra. Então temos a outra história, ou melhor, outras histórias, e as reflexões que Mac faz, relacionando a leitura com a vida pessoal das personagens “reais” (“hay cuentos que se introducen en nuestras vidas y prosiguen su caminho confundiendóse con ellas”), inclusive chegando a desconfiar de que sua esposa o estaria traindo com o vizinho.

No livro que lê, o protagonista é Walter, um ventríloquo que encontra sua voz, daí seu contratempo, pois um ventríloquo não pode ter uma única voz, assim como o escritor. Alguns dos capítulos, ou contos, têm nomes e enredos semelhantes ao do livro Una casa para siempre, do próprio Vila-Matas, o que me levou a reler a obra, publicada em 1988, e comparar as duas. Mais uma vez fui capturado pela armadilha vila-matiana, que nos leva a ler e reler outras obras buscando referências, sendo que aqui é o seu próprio livro o ponto de partida.

Mac, portanto, lê o livro de Ander Sánchez, que na verdade é de Vila-Matas, e quer reescrevê-lo. Mac, então, é Vila-Matas (“Yo soy uno y muchos y tampoco sé quién soy”), que quer reescrever sua obra. E consegue. Vila-Matas quer que o leitor leia seu outro livro e depois este. E consegue. Ander Sánchez queria que seu livro fosse esquecido. E falha. Mac quer reescrever a obra. Será que conseguirá?

Vila-Matas, ou Mac, repete e modifica temas e episódios recorrentes em outros livros do autor. Volta neste romance a história de quando o escritor alugou o apartamento de Marguerite Duras, relato que, por conseguinte, também aparece em Una casa para siempre e em Paris no se acaba nunca. Foi nesse apartamento que escreveu sua segunda narrativa, La asesina ilustrada. Repetem-se também as citações de outros escritores, muitas vezes inexatas, até inventadas, mas que fazem parte do universo do escritor espanhol.

Abreviando o Enrique, se lermos E. Vila-Matas ao contrário, leremos “Satam Alive” (quem faz essa observação é o próprio escritor, no prólogo de En un lugar solitario, que reúne seus cinco primeiros livros). O sujeito é tinhoso e sabe arrecadar almas para sua seita. Mac y su contratiempo agradará a seus seguidores, mas também pode ser lido pelos não iniciados. Vila-Matas faz literatura no mais alto grau. Na verdade, Vila-Matas é a própria literatura em carne e osso.

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Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.