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Para que eles nunca mais esqueçam

por Eduardo Matos de Alencar (24/09/2018)

Um balanço das eleições até aqui. E por que precisamos eleger Jair Messias Bolsonaro no primeiro turno.

1. Mea culpa, ou Cego é quem não quer ver

Entre dezenas de peças de publicidade eleitoral que ajudaram a compor o quadro da campanha mais desastrosa da história do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), uma me chamou a atenção mais do que as outras. Na peça, veiculada na rádio, uma mulher reclama que sua mãe está morrendo na fila do hospital, mas ninguém faz nada. O doutor diz que não tem leito disponível, falta medicamento etc. Ela não aguenta mais, já reclamou para Deus e o mundo, mas ninguém ajuda! Enquanto isso, só o que a gente vê é notícia de roubalheira na televisão. Vai dando uma raiva, uma vontade de fazer uma besteira… Segue-se um barulho de revolver engatilhando, e o narrador explica, calma e seriamente, porque, quando a gente não pensa direito, faz besteira e depois se arrepende. Ato contínuo, fala sobre a importância na gestão da saúde, os maravilhosos hospitais de São Paulo etc.

É improvável que o publicitário responsável, ou o sr. Geraldo Alckmin, tenham passado uma vez sequer por uma situação parecida durante suas vidas. Caso contrário, saberiam que o efeito da peça acaba despertando no cidadão comum exatamente a reação instintiva que a fictícia mulher teria de tomar para salvar a vida da própria mãe. No Brasil, qualquer um que já tenha ficado refém de péssimos serviços públicos sabe que, muitas vezes, a fronteira entre a vida e a morte reside na ousadia, na falta de vergonha e na atitude enérgica e até um tanto impulsiva contra o mal iminente. Quem assiste bovinamente ao ente querido definhar sem a devida atenção na maca do hospital termina amargando ressentimento no velório. E quem se queixa, reclama, protesta, faz barulho e arruma barraco acaba não raro conseguindo uma resposta satisfatória de funcionários ou gestores cuja maior preocupação, muitas vezes, é se livrar dos problemas o mais rápido possível.

Nesse aspecto, não se pode dizer que a peça tenha sido de todo fracassada. Ela, de fato, capta um sentimento que grassa no coração dos brasileiros. As revelações associadas à Operação Lava Jato e a todas as movimentações do sistema de justiça criminal que a ela se seguiram, desmoralizando, progressivamente, as principais lideranças dos partidos políticos que vem se alternando no governo do país desde o início da Nova República, junto com a crise econômica e institucional que se abateu no país como resultado da incompetência e improbidade de presidentes como Dilma Rousseff e Michel Temer, vem deixando o brasileiro exatamente como a mulher da peça: acuado, sufocado, indignado e pronto para uma resposta rápida e o mais enérgica possível.

Tenho uma parcela razoável de certeza de que esse é o sentimento por trás de grande parte das intenções de voto em Jair Messias Bolsonaro. Certamente, ele se associa com outros fatores, como a crescente insegurança da vida urbana e rural, o medo da violência e da morte, a esterilidade econômica, a falta de emprego, o sufocamento da iniciativa privada, a grande carga tributária que reduz o poder de compra dia após dia e a ineficiência de serviços públicos que não conseguem prover o básico. Os brasileiros, vivemos cotidianamente sob um nível de tensão, estresse, acocho, instabilidade e sensação de ruptura iminente que talvez nenhum povo do mundo fosse capaz de suportar durante tanto tempo.

Parte desse cenário se deve a causas remotas, que nada tem a ver com os últimos quatro ou cinco anos. O nível atual anomia social ou o descolamento entre as pessoas e as instituições tem também a ver com a incapacidade de um arranjo institucional que tudo promete e nada dá. A Constituição de 1988, nesse aspecto, sempre me pareceu uma bomba relógio que prevê mais direitos do que o Estado brasileiro jamais seria capaz de dar sem sufocar a própria dinamicidade da sociedade e, consequentemente, a fonte do seu próprio Poder, de modo que esse destino talvez se precipitasse mais cedo ou mais tarde. É claro que a rapacidade, a arrogância, a alienação, a mendacidade, a hipocrisia, a concupiscência e as ideias fora do lugar de grande parte de nossa classe política contribuiu com sua parte.

O recente crescimento econômico e ascensão social de parcela da população brasileira, acompanhado de uma bolha midiática de promessas de um futuro luminoso, parece ter exercido um efeito de aceleração no cronômetro dessa bomba relógio. Esse cenário de privação relativa, isto é, da sensação de perda de algo em comparação ao que se tinha ou se julgava próximo, junto com a anomia social e o descrédito generalizado nas instituições, terminou atirando o país num cenário claramente pré-revolucionário, que repete em tudo o estado da questão da bibliografia especializada sobre o tema.

Alguma hora, a corda tinha que romper. E, de certa forma, rompeu. A recente greve dos caminhoneiros revelou a uma sociedade boquiaberta o poder disruptivo que determinadas classes podem ter, mas que não encontraram, à época, lideranças e projetos claros, capazes de conduzir o país às mudanças necessárias, seja em termos de um rompimento brusco do ordenamento institucional, seja em termos de sua reacomodação em novas bases, esta última alternativa bem mais adequada aos nossos processos de renovação de ciclo político, que se dão mais ou menos a cada 30 anos, desde o final da longa estabilidade do Segundo Império.

Foi nesse clima que o povo brasileiro mergulhou de cabeça no processo eleitoral. Como eu, muita gente ainda acreditava que o establishment, ou as elites políticas que tem governado o país até então, fossem demonstrar capacidade de dar resposta a essa demanda represada. Esperávamos, talvez, uma política de aggiornamento dessas mesmas elites, em face da sua desmoralização nos últimos anos e das demandas prementes de uma sociedade em crise.

Ninguém chegou a formular muito bem em que medida um projeto assim deveria ser apresentado, mas acredito que devesse contemplar uma disposição franca de abrir pelo menos parte da caixa-preta da política nacional, cortar da própria carne, reconhecer responsabilidades, libertar as energias sufocadas da sociedade civil e devolver ao povo parcela das liberdades e dos recursos que lhes tem sido tomadas dia após dia. Tudo isso, junto com o trabalho adequado de marketing e o perfeito funcionamento das máquinas eleitorais, prometia colocar o país de novo nos eixos, longe do petismo e daquilo que parecia, então, a aventura de um lobo solitário, deslocada de respaldo em instituições sólidas, mas promissora para um futuro nem tão distante. Ou seja, a lógica do que, em sociologia, se chama de Efeito São Matheus, ou a tendência de que recursos atraiam mais recursos, associada à suposição da antifragilidade de elites políticas que tinham nas mãos a capacidade, os recursos e as tecnologias disponíveis para nos livrar de mais uma crise, foi o que me levou, assim como a muita gente, a acreditar no seu triunfo ao fim e ao cabo, ainda que, no meu caso, tudo isso viesse permeado por uma desilusão profunda, sem qualquer apego a um sistema político ao qual já havia virado as costas e sofrido as consequências por causa disso.

Pois bem. Não aconteceu. As elites que podiam dar resposta ao problema se embolaram numa sucessão de erros que envolveu arrogância, vaidade, ignorância, inépcia, alienação, apego excessivo a privilégios, busca pela sobrevivência e incapacidade de comunicação. Aquilo que se convencionou chamar de Centrão, uma maçaroca de partidos e caciques que se definem pela baixa consistência ideológica, pelo fisiologismo e pelo vazio em termos de projeto de futuro, dividiu-se em candidaturas furadas, lideradas por homens ocos, apresentando o mesmo pacote inconsistente que os levou a seguidas derrotas contra o petismo nas últimas quatro eleições. Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Marina Silva disputaram a tapinhas de luva o posto de candidato mais anódino nessa eleição. Entre os quatro, logicamente, o candidato do PSDB talvez mereça o prêmio, pela quantidade de recursos investidos. Jogou parado, largou parado e parado morrerá. A fortuna favorece os audazes, diziam os romanos. Os covardes e pusilânimes, porém, morrem mil vezes antes da própria morte.

No campo da extrema esquerda, a disputa pelo legado do lulismo vem se intensificando a passos largos. Pouco a pouco, Ciro Gomes e Fernando Haddad foram se destacando como as únicas opções viáveis, principalmente após o fracasso do primeiro em conseguir apoio da récua que terminou se incorporando à campanha tucana. Nesse jogo, o tônus da disputa tem se intensificado para ataques cada dia mais virulentos contra instituições como a imprensa, o mercado financeiro, o Poder Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal, os partidos políticos que não fazem parte desse jogo e todas as demais que possam eventualmente ser classificadas como participantes do “golpe jurídico-midiático-parlamentar-com-amplo-apoio-de-manifestações-de-rua” ou o raio que o parta de nome que essa gente utiliza para classificar todo mundo que não está ao lado deles – eu incluso.

A ligeira vantagem de Haddad nessa disputa, devido ao apoio explícito do ex-presidente Lula e às máquinas do petismo ainda ativas em muitos estados do Nordeste, tem nos levado a um cenário de provável segundo turno, que pode resultar num desastroso retorno do petismo, com todas as consequências que o revanchismo, a incapacidade, a sanha por escapar do jugo da Justiça, a falta de legitimidade e a ausência de apoio político podem trazer, incluindo o prolongamento da instabilidade e, possivelmente, a precipitação de ruptura do sistema como um todo, com todos os elementos para um banho de sangue inédito na história política nacional.

É claro que, em toda batalha, não se deve analisar somente os erros de quem perdeu. O inimigo deve ter algo a ver com isso, dizia o General George Pickett, derrotado durante a Guerra Civil Americana. Jair Messias Bolsonaro se provou um campeão com capacidades bem além do esperado, para muita gente. O homem é, de fato, o protótipo do político antifrágil. Contra tudo e contra todos, há dois anos prospera e cresce na adversidade. Suas trapalhadas se mostram grandes trunfos em uma, duas ou três jogadas adiante. Sua impulsividade facilmente se converte em credibilidade. E até quando se encontra irremediavelmente acuado, tem conseguido desviar a energia dos oponentes de volta para eles com a habilidade de um mestre bêbado do kung fu. Toda vez que tropeça, o candidato do PSL parece atingir um ponto fraco de algum adversário, nem que seja, no mínimo (que facilmente se transforma em máximo, em se tratando de persuasão), por despertar a simpatia do público, que logo se converte em torcida diante da semelhança entre as fraquezas do lutador e as suas próprias.

Afinal, o que foi a negociação desastrosa para atrair parte do Centrão, possivelmente motivada pela dificuldade de fazer concessões? O aparente fiasco logo se transformou num reforço da imagem de incorruptível, num componente a mais no currículo a lhe fiar a promessa de não governar na base do toma-lá-dá-cá. E as declarações impulsivas, que, quando não terminaram atraindo a atenção do público por confirmar parcela de seus preconceitos e/ou visões de mundo, foram habilmente direcionadas para polêmicas como kit gay, redução da maioridade penal etc.? E o reconhecimento das próprias limitações técnicas, num pleito infestado de homens ocos, sofistas bem treinados, mas, todo mundo bem sabe, incapazes de se debruçar sobre problemas reais com a habilidade de especialistas de verdade? Até quando um jornalista habilidoso tentou lhe colocar na saia justa com uma pergunta mais técnica durante um dos debates em que participou, a questão foi tão difícil que os telespectadores simplesmente não entenderam o que se passava ali. Em inúmeras situações em que muitos seriam partidos ao meio, Bolsonaro se amoldou, desviou, reverteu o golpe, ou simplesmente aguentou o tranco e prosperou.

De certa forma, talvez a sociedade brasileira tenha sido vítima de um efeito reverso, algo que a sociologia política nunca tratou muito bem, que diz respeito ao poder que o fraco alcança no exato momento em que se desnuda de todas as ilusões de força e se assume enquanto tal, exposto, nu, humano. São Paulo expressa essa realidade ambígua na Segunda Epístola aos Coríntios, quando diz sentir prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo, “porque quando estou fraco, então sou forte” (12:10). Essa assunção de fraqueza, que rebaixa o homem ao nível dos seus iguais, permitindo um acesso mais imediato aos seus corações, um verdadeiro reconhecimento, parece ser capaz de anular o coeficiente de determinismo que orientava o raciocínio de tanta gente, como uma propriedade ambígua do Poder, que se manifesta principalmente na civilização Ocidental desde, pelo menos, o advento do cristianismo. É o que eu, pelos poderes imbuídos em mim pelo diploma, batizo de Efeito São Paulo, e espero tratar mais do tema em publicações posteriores[1].

Outros fatores, obviamente, também se apresentaram para que essa consolidação na liderança se fizesse possível. O programa de governo de Jair Messias Bolsonaro apresentou respostas para problemas reais que não foram objeto de atenção das elites políticas nacionais, algumas concretas, outras meramente simbólicas e muitas fruto do simples improviso. O afluxo de liberalismo econômico na sua campanha, materializado na presença do brilhante Paulo Guedes, mas já presente num processo de aproximações sucessivas nos últimos cinco anos, pelo menos, foi celebrada pelo mercado em bem mais de um aspecto, ainda que perdurasse a desconfiança sobre sua viabilidade e credibilidade, dado o passado de inclinação estatizante do candidato. A ênfase no discurso de enfrentamento da criminalidade, que terminou incorporando, junto com a ênfase no direito à posse de arma e na repressão no estilo mano dura, propostas como investimento em inteligência e investigação policial, veio de encontro direto aos anseios de um povo vítima cotidiana da barbárie na democracia mais violenta do mundo. Até mesmo projetos pouco claros ou mesmo apelativos, como a militarização das escolas ou o combate ao doutrinamento ideológico, encontraram ouvidos atentos para jovens e pais de família que vivem o cotidiano de violência, desordem, desmando e ineficiência da educação brasileira.

Em grande parte, esse pacote, junto com a própria figura do Bolsonaro, parece dar resposta a demandas represadas no seio da sociedade civil, muitas das quais com reflexo direto na composição do Legislativo, cuja dissociação com o Executivo, inclusive, respondeu por parte do nosso atual debacle institucional. Para se ter uma ideia disso, é possível pensar, por exemplo, no tamanho de três, dos quatro maiores lobbies da legislatura atual na Câmara dos Deputados, com 119 representantes compondo a bancada do Boi, 85 a da Bíblia e 35, da Bala. Excluindo os que se afiguram como representantes de mais de um dos segmentos, isso dá um total aproximado de 212 deputados, pelo menos segundo levantamento do Estadão. Esse blocão, junto com a necessidade de sobrevivência política, dados os riscos de dissociação em relação ao próprio eleitorado, possivelmente ajuda a explicar as traições no Centrão, que levaram campeões de voto para o lado do candidato do PSL, um cenário já considerado por especialistas como Filipe G. Martins num debate que tivemos no início do ano. As máquinas enguiçaram porque sua direção era outra, bem mais importante que os recursos imediatos do Fundo Partidário.

É claro que ninguém faz nada sozinho. Política é, também, quem pede por você. Toda uma nova geração de brokers, isto é, intermediários que atuam para levar informação de um canto a outro de um sistema, demonstraram seu vigor. Intelectuais e/ou influenciadores digitais como Olavo de Carvalho, Filipe G. Martins, Bene Barbosa, Flavio Morgenstern, Nando Moura, Allan dos Santos e outros mais ou menos famosos demonstraram capacidade de se comunicar com um número bem maior de pessoas do que as máquinas partidárias jamais o fizeram. No campo das micro relações, os grupos de Whatsapp se revelaram como canais para atuação de brokers no nível das redes de relacionamento interpessoal que certamente apagaram a importância das estruturas tradicionais para a mobilização de carreatas, passeatas, adesivaços ou simples convencimento dos eleitores, incluindo uma série de atores que trabalharam na surdina, na produção de milhares de vídeos, memes e outros materiais de campanha, que infestaram os celulares dos brasileiros, muitos dos quais produzidos como resposta praticamente instantânea ao marketing eleitoral oficial, compensando, muitas vezes, pela quantidade, a baixa qualidade técnica de sua produção. Nesse jogo, a relação direta que o próprio Bolsonaro mantinha com os seguidores foi certamente um componente forte para o seu predomínio nas redes sociais, mas não o único. Esse enorme campo de força foi consolidado pelo trabalho conjunto e pela imagem de muita gente, ao longo da última década, mas com especial intensidade após 2013.

Numa época em que os canais abertos de televisão se transformaram em máquinas de propaganda ideológica, jornalismo enviesado, péssima dramaturgia e franca alienação em relação à visão de mundo de seus telespectadores, com a internet operando como um instrumento eficiente para furar a reserva de mercado da concessão estatal, essa mistura entre antigas e novas estruturas de mediação exerceu um efeito realmente devastador, encontrando no pleito presidencial um canal para sua manifestação que não se refletiu da mesma forma no âmbito Executivo Estadual ou no Legislativo. Várias lições resultaram daí para quem quer fazer política no futuro, entre elas, a de que não se pode começar tarde e a de que, com consistência, determinação, ação prolongada no tempo e força da personalidade, é possível quebrar até mesmo estruturas de poder há muito estabelecidas. Ou seja, se Bolsonaro teve sucesso nessa empreitada para um país inteiro, muita gente que se diz da nova política, mas só se faz presente às vésperas das eleições precisa mudar sua forma de atuação, se quiser ter algum sucesso no futuro.

2. “Sinais! Fortes sinais!”, ou O que restou para nós

É claro que esse cenário foi marcado pelo imponderável. Não só pela inabilidade de quem parecia ter a faca e o queijo na mão, que preferiu sentar no queijo e enfiar a faca vocês sabem onde. O atentado contra o candidato do PSL pegou absolutamente todo mundo de surpresa. Durante vários dias, a cena de violência extrema foi martelada na cabeça de todos nós. E, ao final desse processo, não eram só as tripas do líder nas pesquisas que restaram perfuradas, mas também a cama que estava sendo armada pela publicidade adversária, ou o teto que logo se converteu em piso, a partir do qual o candidato, levado também pela ação de uma militância difusa, mas entusiasmada, saltou para um voo que, até o presente momento, não encontrou qualquer barreira em sua trajetória.

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Todo esse conjunto colocou o país diante de um cenário que tem despertado cada vez mais apreensão. A possibilidade de que se consolide um segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad é ruim em bem mais de um sentido que pode conceber a imaginação humana nesse exato momento. Eu posso resumir rapidamente os riscos envolvidos numa eventual vitória do PT nesse pleito, com todo o revanchismo e disposição para o ataque contra as instituições acumulado durante os últimos anos, que se faz inevitável diante da possibilidade de condenação judicial de grande parte de suas lideranças envolvida em escândalos de corrupção. Todo mundo sabe o destino que aguarda o sr. Sergio Moro, o sr. Marcelo Bretas, bem como os procuradores, delegados e policiais envolvidos na luta heroica da Lava Jato, com todos os seus acertos e tropeços, no caso que esse cenário se materialize de fato.

É possível também imaginar o que será da liberdade de imprensa do país, dado as declarações de intenção do próprio PT em documentos oficiais e nos discursos das lideranças do partido. O passado acumulado de esquemas de corrupção para garantir governabilidade também é um forte componente a se somar às previsões do que deve acontecer para que um candidato fraco, de um partido com minoria parlamentar, consiga efetivar o tão propalado acordão “com Supremo, com tudo” para “estancar a sangria”.

Não é difícil supor, no âmbito das relações cotidianas, da ocupação do aparato do Estado, das possibilidades de acesso a incentivos financeiros e até na liberdade mesma da internet o que vai significar viver sob o jugo de quem vem acusando todo e qualquer opositor de golpista desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Destinos que se ligaram aos nossos mais recentemente, como os dos nossos irmãos venezuelanos, também estarão definitivamente selados neste cenário já negro demais, por si só, para que eu precise carregar nas suas cores a fim de provocar a imaginação de quem me lê.

Mas eu prefiro mesmo é ficar na previsão mais próxima, do que pode significar, para esse país, um segundo turno como esse. A tendência de alinhamento de parte do Centrão e do restante da esquerda com o candidato petista, já anunciada por caciques como FHC, é uma consequência óbvia da busca por sobrevivência, mas, em vez de apaziguar os ânimos, ela deve precipitar o país numa convulsão social sem precedentes. É fácil prever qual a imagem que cada lado evocará sobre o outro nesse jogo. De um lado, o discurso do povo contra o sistema, da polícia contra os bandidos, do herói vítima de atentado contra o criminoso presidiário. Do outro, a narrativa dos campeões da democracia contra o golpe, da Nova República contra a Ditadura, da liberdade contra ameaça fascista, dos pobres, negros, mulheres e LGBT contra o preconceito, o racismo, a misoginia e a ameaça de extermínio.

Tudo isso com tempo igual de televisão, marqueteiros à disposição, redes sociais na sua melhor forma, militância entusiasmada e um nível de tensão institucional nunca antes experimentado nos últimos 30 anos. Isso para um processo eleitoral que já teve um candidato vítima de atentado, o qual, levado pela própria convicção, pelas circunstâncias em que se encontra ou, de novo, pela capacidade de reverter fraqueza em força, aproveitou para jogar no centro da arena dúvidas legítimas sobre a confiabilidade de um processo eleitoral que não permite auditoria externa, já provado como passível de fraude por especialistas capacitados, em defesa do qual acorreram, de maneira suspeita, não só todos os políticos que estarão do outro lado da disputa, como também decisões absolutamente controversas da Justiça, que impossibilitaram a implementação de processos de votação perfeitamente auditáveis, utilizados em vários países do mundo, aprovados por maioria parlamentar.

“Sangue” e “violência” são as palavras que me vem em mente para descrever esse cenário mais imediato. “Ruptura”, “desordem”, “caos” e outras menos agradáveis se apresentam quando se trata de pensar nos meses que se seguirão ao final do pleito, principalmente em caso de vitória petista. Quem acompanhou meu raciocínio até o presente momento deve estar pensando na mesma coisa agora. Eu sei que a alternativa vai parecer um remédio amargo demais para muita gente. Porém, não é difícil perceber que a melhor probabilidade que nos resta, a julgar pelas tendências das últimas pesquisas eleitorais, é uma só. A única maneira de por um fim nessa aceleração vertiginosa do tempo, nessa precipitação da História sobre nossas cabeças, é eleger Jair Messias Bolsonaro para a Presidência da República no primeiro turno.

Já é hora de abandonar as ilusões perdidas. Não haverá fato novo a mudar esse cenário. A bala de prata estourou no revólver do caçador. Nem Geraldo Alckmin, nem Henrique Meirelles, nem Marina Silva têm qualquer chance de conquistar nem mesmo a segunda posição. O voto útil já faz sentir seu peso sobre os eleitores e o efeito manada, sempre presente em parcela do eleitorado que “não quer perder o voto” já apontou sua direção. Eu sei que a posição parece há muitos de vocês execrável. Eu entendo os motivos, e faço coro a alguns dos argumentos que levam à rejeição do candidato do PSL, mesmo da parte de pessoas que igualmente nutrem horror pelo petismo.

Bolsonaro nunca foi o candidato dos meus sonhos, nem mesmo da minha preferência. Durante meses, deixei de lado qualquer declaração de intenção de voto, porque iniciei o ano conformado com a ideia de dar um voto silencioso e envergonhado para o candidato do PSDB, que parecia então o mais apto a fazer algumas concessões e compor a aliança que descrevi no início deste artigo. Obviamente, a minha crítica ao sistema político não continha nada de elogiosa. O desprezo que nutro por ele é tamanho que fui capaz de queimar todos os navios que ainda me sobravam no porto com um ensaio que me rendeu, até agora, alguma fama, mas uma quantidade ainda não devidamente mensurada de desafetos e portas fechadas. Ainda assim, acreditava que Bolsonaro poderia ser uma boa alternativa para a direita brasileira, após um longo processo de institucionalização. A coisa toda simplesmente me parecia uma aventura ingênua demais para este ano, ainda que bem-intencionada, sob inúmeros aspectos.

O PSDB, entretanto, pode se dar ao luxo de haver convertido ao menos um voto: o meu. Mas não no sentido que ainda alega ser possível o sr. Geraldo Alckmin. Desde a crise dos caminhoneiros que a insatisfação com a elite política e sua incapacidade de adaptação me parece ter chegado ao ponto de saturação, um sentimento que só foi confirmado na apresentação do programa de governo tucano, ainda que, até o momento da facada, ainda acreditasse na possibilidade de alavancagem. Àquela altura, minhas inclinações oscilavam entre um voto de convicção em João Amoêdo, estimulado em grande parte pelo que julgava como trapalhadas do candidato do PSL, ou uma adesão explícita ao seu nome, já que Paulo Guedes e diversos pontos do programa me agradavam francamente. Dois litros de sangue alheio derramado foram mais do que o suficiente para que meu cérebro vagaroso e minha personalidade de São Tomé se convertesse ao óbvio: a única solução para esse impasse que nos encontramos atualmente é uma vitória de lavada do 17, no dia 7 de outubro.

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3. A convicção no nada contra a utilidade razoável, ou A importância do senso de proporções

Eu tenho fé demais na boa vontade humana para saber que qualquer sujeito que não um eleitor convicto de esquerda possa estar inclinado a me dar razão a essa altura. Perdoem-me desde já se pareço ofensivo ao dizer que pessoas como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias ou Marina Silva não me pareçam dignas de um voto de convicção nesse momento. Todos vocês sabem que parcela do apoio que deviam a esses candidatos se esteava em cálculos de alguma forma pragmáticos, porque algum nível de pragmatismo e de concessão com algumas mazelas da política nacional todos eles apresentavam, em maior ou menor grau. É por isso mesmo que não há mais sentido em pensar em convicção para se apegar a essas barcas furadas. Até mesmo o purismo mais enfático dos eleitores do Novo deveria se render, minimamente, a uma ética de responsabilidade nesse exato momento. Todos vocês sabem que as possibilidades contidas nos cenários mais ou menos imediatos que desenhei acima levam ao fim das próprias condições de possibilidade de qualquer processo de renovação da política nacional.

Goethe dizia que preferia mil vezes a injustiça à desordem. A afirmação, ainda que controversa, é uma paráfrase ao apelo de São Paulo para que se tenha obediência aos governantes, mesmo que muitas vezes sejam injustos, contanto que não atentem frontalmente contra a Lei Divina. Eu sei que muitos dos que me leem não são católicos, mas pensem nisso: a desordem é pior do que uma injustiça, porque ela é a injustiça contra todos nós, indiscriminadamente e fora de qualquer proporcionalidade. Portanto, peçam desculpas ao vosso líder, fortaleçam o partido e os ideais de renovação no Parlamento e no Executivo Estadual, e vamos juntos evitar o mal maior que se pode conceber nesse exato momento.

É claro que muitos podem levantar uma suposta inevitabilidade da instabilidade institucional e da ruptura num eventual governo Bolsonaro. Eu acho que a pequena análise que fiz sobre represamento de demandas e o deslocamento do Legislativo em relação ao Executivo aponta ao menos para um indício de que isso não seja uma previsão de todo certa. Nesse momento, dadas as circunstâncias, Jair Messias Bolsonaro representa, exatamente, a única possibilidade de reacomodação do nosso sistema político à sociedade brasileira, produzindo um novo ciclo de mudanças que expresse, de alguma forma, parcela daquilo que ficou de fora no anterior, assim como aconteceu antes, na história do país.

As traições que se acumulam no Centrão, progressivamente, junto com o apoio que ele vem alcançando em amplos setores da população, incluindo lideranças políticas tradicionais, são forte indício disso. Lembrem-se que essa foi a regra durante todo o século XX, incluindo a assunção do protagonismo de figuras até então inesperadas, de maneira mais ou menos democrática, a depender das circunstâncias. E não finjam ignorar o que significa, em termos de possibilidade de apoio político para as reformas prometidas (e necessárias), uma vitória em primeiro turno. Ela é a maior expressão de consenso que a sociedade brasileira necessita, nesse exato momento, para sair dessa crise, visto que as possibilidades que nos restaram nos encaminham, todas elas, para o desastre.

Façam isso nem que seja para compor a oposição no primeiro dia de governo. Como grande parte dos que hoje ainda não tiveram a coragem de mudar seu voto, também não estou disposto a ceder em alguns pontos ao capitão, caso este se coloque contra os compromissos estabelecidos até aqui. Em outros aspectos, permaneço desde já em indisputável oposição, sem a menor condição de declarar apoio para algumas das iniciativas prometidas durante a campanha. Estou de acordo com muitos críticos sobre a ausência de fortes indícios de gênio político na sua personalidade e tampouco vejo nele o conservador com o tipo de lastro que compõem o perfil da minha preferência em termos de política. Em inúmeras situações, provou-se impulsivo, com falta de tato e mesmo capaz de “caneladas”, para usar de uma expressão recente sua, que devem ter ofendido muita gente.

Contudo, não posso aceitar a rendição a essa atmosfera moral na qual a simples enunciação de sentimentos virtuosos e de aceitação incondicional da diferença se confunde com a virtude em si mesma, que nos força a aceitar a falta de escrúpulos dos piores canalhas, desde que eles se expressem nas normas vigentes de etiqueta, com cuidado para não ferir as susceptibilidades de ninguém. Posso suportar o homem grosseiro e sem tato, mas odeio o ladrão com todo o meu coração, porque ele nos rouba o tempo. É tempo, gasto sob a forma de trabalho do qual não se pode usufruir os frutos, que escoa de nossas vidas toda vez que se arranjam esquemas milionários de corrupção. São as horas, os meses, os dias e os anos que se somaram longe da família, dos livros, do amor, do conhecimento, dos cuidados para com a saúde e da realização de vocações.

A irresponsabilidade e rapacidade das elites políticas até aqui submeteram milhares de brasileiros à escravidão durante grande parte de sua vida, sem a possibilidade de usufruir do pão que ganharam com o suor de seus rostos. E todos vocês sabem que o problema não se restringe a isso, porque os ladrões das últimas décadas nos roubaram ou demonstraram franca disposição de nos roubar também a possibilidade da competição justa, de isonomia no acesso a cargos e serviços, da livre expressão da nossa opinião na forma que bem entendermos e até de educar nossos filhos segundo nossas convicções mais profundas.

Bolsonaro tem se mostrado minimamente capaz de lidar com intransigência em relação aos conchavos e grandes esquemas que nos levaram à ruína, além de não vir aliado a um aparato de uma estrutura partidária com vocação totalitária, o que, por si só, já deveria colocar no seu devido lugar qualquer ressalva quanto ao eventual comportamento de alguns seguidores mais aguerridos e menos educados. Em alguns momentos, o homem parece mesmo se inflar com essa incapacidade de se adequar ao ambiente, ao ponto de despertar descrédito em observadores mais céticos. Porém, às vezes é exatamente de algo assim que precisamos. Na falta de um navio, no meio da tormenta, uma boia que não afunde sob os impactos do mar revolto é exatamente aquilo que necessitamos para nos salvar de um afogamento.

Assim como tantos brasileiros, a minha existência tem se passado até aqui como a sombra de uma imagem pálida do que poderia ter sido. Sou o rebento de uma família progressivamente empobrecida nas últimas quatro gerações, cujo acaso, a irresponsabilidade e o processo histórico levaram ao estado de mediocridade e entorpecimento que parece ser o de quase todo esse país há tantas décadas. As lembranças desse passado vêm se decompondo na fumaça de incêndios maiores e menores, aqui e ali.

Um registro, uma memória familiar, porém, ainda guardo num recanto precioso do coração, para me lembrar das responsabilidades que um dia tivemos e das respostas que temos de dar nas situações extremas. Ela se refere ao dia em que meu bisavô, o então sargento José de Alencar de Carvalho Pires, decidiu enfrentar a invasão do bando de facínoras liderados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ao município de Belmonte (PE). Contando com um efetivo de oito homens para resistir ao assalto de dezenas de cangaceiros, o capitão José pegou das armas de que dispunha na delegacia da cidade e distribui-a para um grupo de bravos locais, para dar combate ao bando. No meio da refrega, foi atingido na mão por um tiro, que levou à explosão do seu revólver, seguido de um desmaio posterior, por excesso de perda de sangue. Os cangaceiros, ainda que tivessem alcançado parcela dos objetivos que os haviam levado até ali, tiveram na batalha um de seus mais ranhetos episódios de resistência popular. Feito ainda mais notável se repetiu em Mossoró (RN), cinco anos depois, quando o então prefeito Rodolfo Fernandes retirou mulheres, velhos e crianças da cidade, para que a população, armada até os dentes, pudesse expulsar na bala os facínoras liderados por Lampião. Esses casos quase irrelevantes para a historiografia acadêmica, que compõem parcela da épica nordestina, ensinaram-me que até homens sem recursos e com poucas capacidades podem liderar um povo contra a desordem e a barbárie quando aqueles que se propõem ao bom combate não fogem de suas responsabilidades.

A resposta que temos de dar no dia 07 de Outubro é da mesma natureza que a que aquelas pessoas deram, naquelas pequeninas cidades sertanejas. Quando não há mais tempo para nada, o que importa é cerrar fileiras contra os agressores, sobreviver e cobrar os compromissos estabelecidos até aqui com a Ordem, a Justiça e a Liberdade. Se vocês não veem nada, se os crimes cometidos pelas forças que nos ameaçam nesse exato momento lhes são desconhecidos, deixem o primeiro turno passar em branco e ajudem a precipitar o país na desordem e na violência. Porém, se conseguem ver da mesma forma que eu vejo, se sentem a ameaça como eu sinto e se são capazes de sopesar custos e riscos na mesma proporção, eu peço que votem em Jair Messias Bolsonaro no dia 07 de outubro.

Então, vamos dar às aves de rapina e aos abutres sedentos de sangue uma eleição que eles nunca, jamais esquecerão. Os que pecaram contra o país no passado recente receberão a sua resposta, assim como os que se dispuseram a lutar antes de nós. E, se o capitão trair aqueles que lhe emprestaram um voto de confiança, mostrando-se um vilão ainda mais mendaz do que os que expulsamos, usaremos as armas que ele mesmo prometeu nos autorizar a ter para mostrar quem é que manda nesta porra!

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NOTA

[1] O Efeito São Paulo tem pai e mãe. Portanto, só reconheço uma pessoa que pode disputar a precedência na descoberta, ainda que de maneira não tão elaborada, que é o Paulo Lins, um sujeito misterioso que conheci pelo Facebook, sempre pronto a comentários absolutamente brilhantes nas postagens que faço na rede social. Foi ele que, num dia desses, soltou a comparação entre os apóstolos, um servindo de contraponto ao outro etc. Rendo-lhe, portanto as devidas homenagens. E deixo o aviso sobre processos judiciais a qualquer um dos calhordas da beautiful people que por vezes leem minhas coisas por aí, para depois falar como se deles fossem: acusações de plágio muitas vezes rendem fama e dinheiro. Tomem cuidado. Nunca é bom acossar um homem sem recursos.

Eduardo Matos de Alencar

Escritor e sociólogo, doutorando na UFPE. Editor do site Proveitos Desonestos.