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Mais uma terceira via

por Caio Vioto (08/10/2014)

Imaginando como seria um governo Aécio com Marina e o PSB como os principais aliados

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A ideia de “terceira via”, muitas vezes com outros nomes, talvez seja a maior constante política do século XX e início do século XXI. Não dá para fazer a “política real” em uma democracia representativa sem diálogos, sem alianças, sem concessões e adotando posições radicais em qualquer esfera.

No entanto, sabemos que o “meio-termo” em política não existe ou pelo menos não é exato. Os “moderados”, “centristas”, “social-democratas” são muito diferentes entre si e sempre pendem para algum dos lados, de acordo com circunstâncias e, por vezes, conforme suas ideologias mais arraigadas e que não aparecem tanto em seus discursos e programas de governo.

A ideia de uma “nova política” remonta ao iluminismo, especialmente em sua vertente francesa, à crença de que é possível “construir” uma sociedade a partir da seleção de elementos desejáveis, bastando a boa-intenção e a racionalidade dos que estão no poder. Tal pensamento, que influenciou de forma assimétrica o Ocidente, levou ao socialismo, ao fascismo e a um crescimento do Estado na maioria dos países, com destaque para os EUA (basta comparar como o país era em fins do século XIX e como é agora), e fez com o que o “Estado de bem-estar social” se consolidasse, tornando-se praticamente inquestionável e insuperável.

No Brasil, a assimilação destas ideias teve características muito particulares. Numa sociedade patrimonialista, o Estado condiciona o sistema político e partidário, as decisões são muito centralistas, “de cima para baixo”, e uma complexa e ineficiente burocracia é a maior marca da relação entre indivíduo e Estado. A despeito de modernizações formais, sempre há uma marca “tradicional” na condução do governo e dos assuntos públicos. O Estado é visto, por ele mesmo e pela sociedade súdita, como onisciente e onipotente, e ninguém duvida de sua onipresença. Em tal configuração social, política e cultural, o conflito político não é desejável, a “poliarquia” não pode funcionar plenamente.

Diante disso, quando um governo começa a se deteriorar, por diversas circunstâncias e fatores, surge a esperança de um “salvador da pátria”, de alguém que traga o “novo”, que seja “contra tudo que está aí”. Foi assim na transição do Império para a República, desta para a Era Vargas, em parte foi o que permitiu que a ditadura militar se consolidasse e também foi o mote da redemocratização e, na última década, foi o que propiciou a chegada e manutenção do PT no poder.

Com o desgaste, natural até certo ponto, do governo petista, surgiu no primeiro turno o discurso da “mudança”, da “nova política”, no qual até o PT tentou pegar carona, configurando uma verdadeira aberração política e lógica. Na primeira eleição após as confusas e sem efeito “jornadas de junho”, pensava-se que o “clamor popular” era por “mudança” e Marina Silva, com a tragédia envolvendo Eduardo Campos, parecia a personificação do “contra tudo que está aí”. Não foi nem ao segundo turno. Prevaleceu uma tendência estrutural do eleitorado brasileiro de votar no PT ou no PSDB dependendo da região, com algumas “surpresas” que são mais que esperadas e que acontecem toda eleição, como o fato de Aécio ter perdido em MG.

Para o segundo turno, espera-se que Marina e o PSB, ou um dos dois, apoie Aécio. A outra opção plausível é a “neutralidade”. O que podemos fazer, diante disso, é refletir como seria um eventual governo Aécio com Marina e o PSB como os principais aliados.

O PSDB montou uma chapa praticamente puro-sangue para disputar as eleições presidenciais, com o vice sendo do próprio partido. Seu aliado mais expressivo é o DEM, que se esfacela a cada eleição. Portanto, como o PSB conta com uma bancada significativa na Câmara e foi quem mais cresceu em cadeiras no Senado, seu apoio no segundo turno representaria uma participação mais do que intensa no governo tucano.

Ao que parece, PSB e Marina não se oporiam às reformas econômicas pretendidas por Aécio, já que defenderam em sua campanha a autonomia do Banco Central. Isso é um ponto positivo. Mesmo sendo um partido de esquerda, parece não ter os ranços desenvolvimentistas e planejadores do PT. Isso é bom para o bolso de todos nós. Outra questão que não teria grandes oposições é o “choque de gestão”, como o feito por Aécio quando governador de MG, mais ou menos aos moldes do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (MARE), comandado pelo então ministro Bresser-Pereira, durante o governo FHC.

No entanto, o PSB é membro do Foro de São Paulo, organização das esquerdas latino-americanas, o que significa que tal instituição continuaria com influências no governo — não dando as cartas, como no governo PT, mas com uma influência que não pode ser desprezada. Isso significa que, na prática, os “movimentos sociais” e as “pautas progressistas” continuariam “avançando” num eventual governo Aécio com o apoio do PSB. Talvez a questão da redução da maioridade penal, que parece ter simpatia dos tucanos, seja adiada e não passe por uma discussão mais séria e aprofundada.

O maior problema do PSDB será a oposição petista. Isso significa que cada passo do partido deverá ser milimetricamente calculado e cada medida mais “impopular” deverá ser exaustivamente explicada. Neste sentido, a figura mais “progressista” de Marina e a força política do PSB na Câmara, no Senado e em alguns governos estaduais poderiam ajudar Aécio a “vender” melhor suas ações.

A política, nova ou velha, é discurso. Coisas diametralmente opostas podem ser consideradas iguais e coisas muito semelhantes podem se tornar a diferença entre o céu e o inferno. A presença do PSB e de Marina poderiam auxiliar Aécio a ter um discurso mais próximo do “povo”, menos “elitista” e desarmar um pouco a oposição petista. Seria mais uma terceira via, como o Brasil gosta. A esperança é que não se torne mais uma transamazônica política, que vai do nada a lugar nenhum.

Caio Vioto

Mestre e Doutorando em História pela UNESP.