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Uma madrugada fria e sombria

por Cassionei Petry (26/10/2017)

Santiago soube dosar com maestria as digressões de seu novo romance.

“Neve Negra”, de Santiago Nazarian (Companhia das Letras, 2017, 248 páginas)

“Deus! Que madrugada longa e pesada”, diz o protagonista, Bruno Schwarz, um pintor renomado, algumas horas depois de ter voltado de uma viagem, numa noite fria e com neve, na expectativa de que as coisas voltassem à normalidade dentro de sua casa. No entanto, Neve negra, mais recente romance de Santiago Nazarian, é repleto de quebras de expectativas, tanto para o personagem como para o leitor, portanto mal sabe ele que a madrugada está recém-começando. Nas minhas anotações nas margens das páginas, escrevi muitas vezes um “pqp!”, pois somos enredados como Bruno numa sucessão de acontecimentos, tendo em vista que a narrativa, em primeira pessoa, nos põe na pele dele, ou melhor, dentro de sua mente conturbada.

A primeira expectativa do leitor é quebrada nas duas primeiras páginas, quando o narrador afirma estar deitado ao lado de uma mulher que poderia ter sido sua filha. Apesar de estarmos ainda no início, não vou revelar o que realmente acontece, assim como vou tentar omitir quase tudo. As surpresas são necessárias e elas aparecem aos montes. A questão da paternidade, diga-se, é uma temática fundamental. Bruno é pai de Álvaro, apelidado de Alvinho, ou simplesmente Vinho. Os nomes têm significados importantes. Se o nome do menino nos remete à cor branca, o da mãe não é diferente: Bianca. Mais adiante vamos tomar conhecimento da primeira filha do casal, Clara, que não chegou a nascer. Bruno, por sua vez, pode significar “marrom” ou “moreno”, mas também “escuro”, algo meio ambíguo. Já a cachorra da família é chamada de Preta ou Pretinha. Fica mais clara, sem trocadilho aqui, a questão dos contrastes entre o lado negro e o lado branco, entre a escuridão e a clareza, o lado do bem e o lado do mal, dando sentido ao título do romance. E Vinho, lembra o quê? Sangue? Vale lembrar que aparecem furtivamente uma tia Rosa e Scarlett, a secretária do artista.

Este crítico faz as alusões necessárias e prossegue a leitura. Só não pensa estar diante de um romance de terror qualquer porque conhece a obra de Santiago Nazarian e sua preocupação com a linguagem. Esta expectativa é a única que não será quebrada. Dizem que os críticos torcem o nariz para livros de terror. Digo que os críticos fazem isso para os livros mal escritos. O que, definitivamente, não é o caso aqui.

Acompanhamos, então, o protagonista chegando a sua casa numa localidade pertencente à fictícia Trevo do Sul, a cidade mais fria de Santa Catarina e até do Brasil. A cachorra, deitada no quintal, a neve caindo sobre ela, apenas rosna e não o recebe efusivamente como esperava. Atravessa a porta, entra com cuidando para não fazer barulho e acordar o filho e a esposa. Percorre alguns cômodos, prepara um uísque, que irá beber durante boa parte da noite, vai ao banheiro e, quando sai, percebe pegadas com marcas de sangue no chão. Seriam dele? Tenta limpá-las, mas depois imagina sua esposa morta e um policial perguntado por que ele limpou tudo se não foi o culpado.

Mais adiante, descobre que Preta está sangrando, possivelmente um hemorragia, quem sabe a mordida de outro animal, mas lamenta não poder levá-la a um veterinário àquela hora da noite, devido à distância da cidade. Escuta o grito do filho que acordou de um pesadelo, vai atendê-lo, lhe dá refrigerante, lê para ele um livrinho infantil, que nos é mostrado com capa e ilustrações, como se realmente existisse, inclusive com o selo da Companhia das Letrinhas, ou seja, um livro dentro de um outro livro. Consegue fazê-lo dormir, vai ver a cachorra, que agora está morta, vai ao quarto seu e da esposa, a janela está aberta, um vento frio, ela ainda dormindo, ele fecha a janela e olha para fora: “uma figura vestida de negro me observa. Parado sobre a neve, sob a nevasca, um capuz cobrindo a cabeça…”

Nesse ponto já estamos quase na metade do livro, porém os eventos pelos quais vai passar o narrador estão apenas no início. No meio disso tudo, ele lembra do passado, dos seus pais, das circunstâncias do seu casamento, dos motivos de ter sido pai tão tarde, faz reflexões sobre arte e sobre sua existência. Santiago soube dosar com maestria essas digressões na narrativa, que aos poucos vão dando lugar a capítulos curtos, tornado tudo mais ágil até chegar ao clímax, que me fez anotar mais um grande “FDP!” à margem. Parece exagero? Leia e verá se me empolguei por nada, caro leitor.

O romance praticamente termina no clímax, apesar de algumas páginas a mais que jogam um pouco, só um pouco, de luz à história. Ainda assim, o crítico se pergunta: o terror por que passa o protagonista é real ou psicológico? Ele se torna vítima de uma lenda regional ou são sonhos provocados pela vigília? “Sou o Jack Torrance do Planalto Central”, ele diz em determinada altura da narrativa, uma pista para o leitor que vai mergulhar nesse suspense, com boas pitadas de referências literárias.

O livro infantil que o pai lê para o filho é “O coelhinho lindo”. Num singelo poema narrativo, o animalzinho do título tem pelo vermelho, é admirado pelos demais, porém, na verdade, é uma raposa, que depois de devorar os coelhinhos disse nunca ter escondido sua verdadeira face. Santiago é assim, um sujeito aparentemente bonzinho que se transforma num escritor maquiavélico, mas que nunca disse ser o contrário disso. Como leitor, prefiro as raposas do que os coelhinhos.

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Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.