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O pecado de torcer pelo país

por Ricardo Gessner (09/09/2019)

Um governo não é o mesmo que um time de futebol, apesar de muitos se comportarem em relação aos partidos políticos como se fossem.

Desde a Segunda Guerra Mundial, devido às suas desastrosas consequências, defender ou afirmar respeito pelo próprio país se tornou um gesto de gosto duvidoso. Declarar amor, então, é uma ofensa. Nacionalismo é um termo que passou a designar ideias de cunho fascista e xenofóbico, anulando formas sóbrias e saudáveis de respeito pelo próprio estado-Nação. O resultado é o desenvolvimento dessa sensibilidade anti-nacionalista, sob vestes multiculturalistas, que pretende representar uma postura tolerante, democrática, culturalmente aberta.

Tal conduta recebeu sua fundamentação teórica em âmbito acadêmico e se popularizou. Atualmente, pode ser vista em qualquer lugar, sendo que nas redes sociais proliferam mensagens, figuras e memes satirizando demonstrações de respeito ou preocupação pelo país, a exemplo da figura a seguir:

A figura emana ares de um manifesto provindo da insatisfação por algum governo. Sua mensagem, basicamente, é a seguinte: “Eu não votei no atual governo, por isso torço para que dê errado. Caso isso aconteça, caso o governo não dê certo, não culpe a mim, mas a si mesmo, que votou nele e, portanto, votou errado. Não transfira responsabilidade desse fracasso, que é sua, para mim ou para quem não quis esse governo”.

A mensagem se efetua pelo embate entre as duas frases: a primeira afirma o que não tem influência no desenvolvimento de um governo; a segunda, o que tem. Contudo, é a segunda que se destaca, não apenas pelo destaque visual, mas também pela impressão retórica ao ser lida: como é menor do que a anterior, seu efeito é de maior intensidade. Dessa forma, o sentido é centralizado na ação de “votar errado”, que, mais do que influenciar, é um fator determinante para o insucesso.

O enunciador parte da premissa que, se um governo não condiz com sua visão, não estão do mesmo lado e, assim, é viável torcer contra, como se fosse meu time rival. Se não torço para o Flamengo, que disputará a final do campeonato contra o meu time, é esperado que torcerei contra o Flamengo. Nesse caso, a vitória ou derrota de um ou outro time, de fato, tem relativa autonomia sobre a torcida, apesar de que seu apoio é relevante. Existe aí uma rivalidade saudável e condizente ao contexto em que se manifesta, mas projetar essa mesma postura, ou algo similar, na vida política é perigoso, se não infantil.

Um governo não é o mesmo que um time de futebol, apesar de muitos se comportarem em relação aos partidos políticos como se fossem. Em uma disputa de final de campeonato, os dois times ocupam lados opostos do campo, assim como a torcida, no estádio; como eu não pertenço à torcida do outro, torcer contra o meu time é um gesto de deslealdade.

A situação muda quando transpomos para o contexto político. Durante o período de campanha eleitoral, posso aderir a certa agenda política, já que ela condiz à minha visão. Dessa forma, torço para que o meu candidato vença as eleições e, assim, esse programa possa ser colocado em prática. Entretanto, independentemente do resultado final, o candidato vencedor será aquele que governará o país pelos próximos quatro anos e, a partir daí, estamos todos no mesmo barco. Se ele pertence a um espectro político diferente, torcer contra ele não é o mesmo que torcer contra um time adversário, pois o seu fracasso irá, de alguma forma, me atingir.

Sendo assim, se eu torço para que o governo dê errado, torço contra mim mesmo, assim como torço contra você, contra ele e ela; assumo uma postura deslocada, além de inadequada e infantil, pois deixo claro que sou incapaz de aceitar e conviver com as diferenças. Assumo, portanto, uma atitude antidemocrática. No fundo, parece birra de criança mimada, que chora porque o time perdeu, mas com a diferença de que não se trata de um time nem de um campeonato, mas da realidade e desenvolvimento do país. Há alguns que extrapolam na caturrice: lembro-me de um colega que postou em sua página de uma rede social a foto de uma mesa vazia, e justificou que se recusara a sentar-se nela, pois o seu número era o mesmo que o de um determinado partido político.

Torcer contra um governo revela a falta de comprometimento com o próprio país, pois, como falei, estamos todos no mesmo barco, sendo que a escolha do capitão foi feita democraticamente pelos marujos. Democracia é isso. Torcer contra simplesmente porque seu candidato não foi eleito é uma postura de quem não está preparado para conviver em uma democracia.

Além disso, a torcida contra um governo revela que houve uma dissociação da “primeira pessoa do plural”, esta, imprescindível para que haja uma democracia plena; nas palavras do filósofo inglês Roger Scruton:

Onde quer que a experiência de nacionalidade seja fraca ou inexistente, a democracia não consegue criar raízes. Porque sem lealdade nacional a oposição se torna ameaça ao governo e as discordâncias políticas não criam pontos comuns[1].

Por isso, quem torce contra a governança do próprio país poderia mudar-se para outro, cujo governo esteja de acordo com seu espectro político, mas que, revelando uma semelhança identitária, provavelmente não seria nem um pouco democrático.

Não se trata de justificar um nacionalismo degenerado em alguma ideologia totalitária, mas de retomar um antigo laço afetivo pelo estado-Nação, que foi perdido em grande parte devido as consequências desastrosas da Segunda Guerra Mundial, principalmente dos exageros do fascismo e nazismo. Enfatizo que não se trata de um nacionalismo ideológico, isto é, de um amor desenfreado pela pátria – afinal, isso não seria amor, mas paixão, fanatismo. Trata-se de recuperar um laço formado pelo que Michael Oakeshott chamou de associação civil. Oposta a uma associação empresarial, a associação civil se caracteriza pela ausência de uma direção a qual a sociedade deve seguir. Isso não deve ser confundido com o descaso ou falta de comprometimento, mas, sim, de uma conduta prudente, em que os problemas são discutidos segundo a própria realidade social do país, sem forçá-lo ao que pede sistemas abstratos e teses de engenharia social.

A associação civil pressupõe um laço de comprometimento entre os indivíduos de um estado-Nação. Isto é, um contrato social em que cada um tem consciência de seus direitos, assim como de seus deveres.

Contratos são paradigmas de obrigações autoescolhidas – obrigações que não são impostas, ordenadas ou frutos de coerção [como acontece nas associações empresariais], mas livremente acordadas. Quando o direito é fundamentado em um contrato social, portanto a obediência à lei é simplesmente o outro lado da livre escolha. Liberdade e obediência são equivalentes[2].

Ao contrário do que um rousseauniano defende, o contrato social não nasce da justificativa de uma imposição; não nasce de alguém que delimitou uma área de terra e disse, pela primeira vez, “isso me pertence”, e elaborou um código contratual para garantir sua posse; um contrato social não é o produto de aplicação racional. Trata-se do resultado de um longo período evolutivo, em que séculos de convivência formaram uma sensibilidade sobre o que seria mais adequado para os pertencentes ao grupo e, assim, protegê-los e garantir seus direitos. Esse entendimento sobre o contrato social pressupõe

(…) uma relação de filiação como membro de uma sociedade. Teóricos do contrato social escrevem como se isso presumisse somente uma escolha racional livre na primeira pessoa do singular [“eu”]. De fato, pressupõe uma primeira pessoa do plural [“nós”] que já tinha aceito o ônus de pertencer à sociedade[3].

Ou seja, trata-se de um enlace entre pessoas conscientes de pertencerem a uma mesma sociedade, conscientes de seus direitos e, por conseguinte, de deveres. Sem isso, não há democracia.

O resultado da associação civil é o que Scruton chama de oikophilia, isto é:

(…) o amor pelo oikos, que significa não somente o lar, mas as pessoas nele contidas, e as comunidades que povoam o entorno que dotam esse lar de contornos permanentes e sorrisos duradouros. O oikos é o lugar que não é só meu, mas nosso[4].

A palavra oikos, em grego, significa “lar”. Um lar é habitado por pessoas que compartilham um laço de familiaridade; unidos, procuram manter uma relação amistosa, assim como conservar um ambiente saudável, em que todos possam contar um com o outro e constituir um porto seguro. Costumes, comportamentos, regras de convivência, celebrações são itens compartilhados. Da mesma forma que a individualidade de cada membro é respeitada, também o é a família em sua totalidade, pois a convivência de um com o outro e o respeito mútuo permite que o oikos se torne um lugar aprazível.

O raciocínio é o mesmo quando pensamos em um estado-Nação. O país é como se fosse um oikos, um grande lar, em que seus habitantes formam uma família. Costumes, regras de convivência, celebrações, tradições, precisam ser respeitadas para que haja harmonia entre seus membros, assim como para que cada um tenha seus direitos assegurados. Modificações nessas estruturas podem ser feitas conforme necessário, desde que se mantenha o mais importante: o enlace familiar. O enlace familiar é o centro de tudo. Não é sem motivo que Roger Scruton tenha começado pela família para discutir o conservadorismo em alguns de seus livros, assim como não é à toa que Marx e Engels tenha atacado a família para considerar mais uma justificativa ao socialismo e o comunismo. Um lar desestruturado leva a uma desestruturação social. Autores como Dalrymple já demonstrou essa relação.

Dessa forma, alguém que torce para que o governo do próprio país dê errado não compartilha desse oikos e, portanto, é incapaz de viver e conviver em uma sociedade democrática, com outros indivíduos conscientes da existência de um nós ao qual pertence. Mais do que isso, não possui a sensibilidade de “pertencer a um lar comum”. A ausência disso resulta na transferência ou substituição do nós pelo eu de um líder, que, supostamente, guiaria o país em direção ao paraíso terrestre; ou melhor, para um admirável mundo novo. Um bom exemplo dessa sensibilidade é o culto em torno da figura do ex-presidente Luiz Ignácio Lula da Silva, em que militantes postam bordões aos borbotões em redes sociais, e que o próprio Lula tenha se declarado como uma “ideia” e, frequentemente, se apresente como um mártir; outro exemplo é a crescente projeção de Olavo de Carvalho, o conhecido “guru-da-direita” que, graças a seu bom comportamento, tem contribuído para formar uma direita sonora e truculenta, surda para seus escritos, mas atenta aos seus atos.

Atribuímos credenciais para os que prometem guiar a sociedade ao longo do caminho que desejaram, e conferimos-lhe a autoridade para recrutar, dar ordens, organizar e punir os que restam entre nós, sem levar em consideração, por outro lado, de que maneira desejamos conduzir nossas vidas.[5]

O resultado prático é alguma forma de tirania. Tirania que transparece nas entrelinhas daquela figura, que, explicitamente considera errado votar em um partido diferente e, implicitamente, é punitiva, pois torce contra o governo e, por conseguinte, torce para que seus compatriotas, sem perceber que faz parte dessa sociedade, fracassem.

Há um pressuposto falacioso, de que somente há duas maneiras de votar: uma certa e outra errada. Ao colocar a questão nesses termos, mais uma vez podemos vislumbrar a incapacidade do sujeito de conviver com quem pensa diferente. Por mais que o senso comum considere a política como um campo movido pelos interesses particulares, seja dos partidos ou dos candidatos, a figura é ainda mais redutora, pois configura todos os matizes partidários e ideológicos ao que se considera certo e errado: “o que compartilho é certo, o que não entra nesse espectro, errado”. Não há espaço para o diferente, nem para a convivência democrática.

Oposição, discordância, livre manifestação e a solução conciliatória como regra, tudo isso pressupõe uma identidade comum. Tem de haver uma primeira pessoa do plural, um “nós”, se os muitos indivíduos existem para ficar juntos, aceitando as opiniões e os desejos dos demais, independentemente das divergências[6].

Como discuti acima, a oikophilia é imprescindível: um senso familiar bem desenvolvido para que as diferenças sejam respeitadas e seus direitos, assegurados. Uma família saudável é composta por membros tolerantes, que respeitam a individualidade de cada uma para que o todo permaneça harmonioso. Mas

Isso depende de costumes localizados e de uma rotina comum de tolerância[7].

E “rotina de tolerância” é algo ausente em nossa cultura, principalmente na classe que mais se diz tolerante: a intelligentsia.

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NOTAS

[1] SCRUTON, Roger. Conservando as Nações. In: Uma filosofia política: argumentos para o conservadorismo. Trad.: Guilherme Ferreira Araújo, São Paulo: É Realizações, 2017, p. 11

[2] SCRUTON, Roger. Começando de casa. In: Como ser um conservador. Trad.: Bruno Garschagen, Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 42

[3] Ibidem, p. 43

[4] Ibidem, p. 45

[5] Ibidem, p. 50

[6] SCRUTON, Roger. A verdade no nacionalismo. In: Como ser um conservador. Trad.: Bruno Garschagen, Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 58

[7] Ibidem, p. 54

Ricardo Gessner

Graduado em Letras pela UFSCar. doutorado em Teoria e História Literária pela Unicamp.