PESQUISA

por Daniel Lopes – Camila Pavanelli, mestra e colega nossa de Amálgama, escreve em seu blog que o artigo de Alan M. Dershowitz publicado a 31 de dezembro no Christian Science Monitor é digno de nota. De fato, ele é representativo dos argumentos que ora aparecem para mais uma vez defender Israel de quaisquer críticas, […]

Corpos de cinco irmãs palestinas, de 4 a 17 anos, mortas nos ataques a Gaza [foto: FP/El País]por Daniel Lopes – Camila Pavanelli, mestra e colega nossa de Amálgama, escreve em seu blog que o artigo de Alan M. Dershowitz publicado a 31 de dezembro no Christian Science Monitor é digno de nota. De fato, ele é representativo dos argumentos que ora aparecem para mais uma vez defender Israel de quaisquer críticas, por mais brandas que sejam, a suas últimas ações de terrorismo estatal.

Dershowitz é um histórico justificador das ações de Israel. Professor de Direito em Harvard, publicou recentemente The Case Against Israel’s Enemies: Exposing Jimmy Carter and Others Who Stand in the Way of Peace. O ex-presidente estadunidense, como vocês sabem, escreveu em 2006 a obra Palestine: Peace not apartheid, onde aborda as sofríveis condições a que os palestinos são submetidos sob a ocupação israelense. Carter dificilmente é alguém que os ventríloquos poderiam classificar de “anti-semita”, mas logo deu-se um jeito: Jimmy estaria caducando, só podia ser isso…

Estranho é que dessa vez Dershowitz tenha demorado tanto para aparecer em defesa de Israel – 4 dias! Devia estar consultando suas fontes, para saber da realidade real dos acontecimentos, para além daquela fabricada pela mídia ocidental viciada e “pró-árabe” – coisas como BBC e New York Times, pra não falar dos diários israelenses.

O título do seu artigo é “Israel, Hamas, and moral idiocy”. Nele, elogia a postura da administração Bush de irrestrito apoio a Israel (quer dizer, não irrestrito – os EUA pedem que seu posto avançado no Oriente Médio evite ao máximo as baixas civis…) e diz que a proposta de uma trégua imediata, de autoria das Nações Unidas e da União Européia apenas serve para dar alento aos terroristas (entendam, aos palestinos). Os ataques destes a civis israelenses, ele nos ensina, “têm pouco a ver com o que Israel faz ou deixa de fazer. Têm tudo a ver com uma ideologia que despreza – e abertamente anseia destruir – o Estado judeu.”

Muito conveniente evocar o “Estado judeu” neste instante, mas a dura verdade é que podemos sem muita dificuldade inverter os termos da oração do senhor Dershowitz: os ataques aos palestinos por parte das Forças Armadas israelenses pouco têm a ver com o que os líderes (democraticamente eleitos) daqueles fazem ou deixam de fazer. Desde a fundação de Israel em 1948 há uma contínua diminuição das áreas que a ONU então determinou que fossem reservadas para um estado da Palestina [imagem abaixo, retirada daqui]. Elas são sistematicamente incorporadas por Israel, em clara violação às leis internacionais, e isso pouco tem a ver com os ataques do Hamas ou qualquer outro grupo, e tudo a ver com uma deliberada política de limpeza étnica, desenhada desde o começo pelos “pais fundadores”, e tem tudo a ver, ainda, com a rendição de um Estado que deveria ser secular a fanáticos sionistas que acreditam ser toda aquela região uma “terra prometida” por Deus a seu povo.

 O jornalista Pedro Doria, autor de um excelente blog, umas das páginas políticas mais influentes da internet nacional, escreveu no dia 29 de dezembro um post intitulado “Se é para listar vilões, Israel não está sozinha. Egito, Arábia Saudita e o Hamas estão juntos.”

O Hamas está junto, segundo Pedro, porque, ao lançar foguetes contra Israel durante a “trégua” entre os dois, deu o pretexto que o governo de Ehud Olmert queria para empreender um ataque maciço.

Engraçado. E por que não dizer que foi o boicote israelense a Gaza – proibindo a entrada de alimentos e outros tipos de ajuda (o “apartheid” de Jimmy Carter) e gerando sofrimento incalculável ao povo daquela área – que levou o Hamas a empreender ataques de foguetes contra Israel?

Essa questão, logo se vê, é como dizer quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.

Sim, é claro que os foguetes contra áreas civis israelenses é um crime. (A propósito, há poucos dias o Hamas vitimou até duas jovens palestinas.) É claro que o Egito nega ajuda aos palestinos, e que a Arábia Saudita e o Irã (e a Jordânia, o Iraque…) em diversos momentos usaram o sofrimento palestino apenas como material para panfleto ou moeda de troca política, mas… isso justifica as ações israelenses? É como se Pedro Doria e os que seguem seu raciocínio dissessem lá em 1940: sim, o Nacional-Socialismo alemão maltrata os judeus, mas não estão sozinhos, em diversos outros países cristãos, mais nos islâmicos, eles são mal-acolhidos e cidadãos de segunda classe.

Além do mais, a “trégua” israelense-palestina, como observou Idelber Avelar, “significa que os palestinos continuam vivendo calados, sem reagir, numa realidade de ocupação militar brutal, demolições de casas, cerco naval, terrestre e aéreo de Gaza, checkpoints humilhantes, colonização constante de suas terras na Cisjordânia, espancamentos em mãos de colonos fortemente armados, monopolização dos recursos hídricos, proibição de observadores internacionais etc.”

Mas há uma diferença, nos dizem, entre as matanças perpetradas pelos grupos islâmicos e aquelas por Israel. “O exército israelense”, diz Dershowitz no citado artigo, “tem uma estrita política de tentar evitar vítimas civis.”

E que política! Que o digam as almas dos mais de mil mortos no sul do Líbano em 2006 por conta do bombardeio israelense, quase todos civis. Que o digam os sobreviventes e familiares dos refugiados massacrados em 1982 nos campos de Sabra e Chatila, em operações comandadas pelo então general e futuro primeiro-ministro Ariel Sharon.

Nem à proporcionalidade de vítimas os aiatolás israelenses podem apelar. Como informa Robert Fisk no Independent, em oito anos os foguetes do Hamas mataram 20 israelenses, enquanto em um só dia a força aérea israelense matou 300 palestinos (entre civis e “terroristas”). Até a noite do dia 30 de dezembro, diz Fisk, a proporção era de 296 palestinos mortos para cada 1 israelense. Notável.

E ao parágrafo com que Pedro Doria abriu seu post:

Não existe um único conflito armado no mundo no qual há mais diplomatas envolvidos e recursos internacionais voltados do que aquele entre Israel e seus vizinhos palestinos. Tais recursos provavelmente seriam melhor empregados alhures. Afinal, há muitos cantos do mundo onde há conflitos mais sérios e para os quais quase nenhum recurso é dedicado.

Contrapomos este outro de Robert Fisk:

Nos acostumamos de tal forma à carnificina do Oriente Médio que nem nos importamos mais – desde que não ofendamos os israelenses. Não está claro quanto dos mortos em Gaza são civis, mas a resposta da administração Bush, pra não falar da pusilânime reação de Gordon Brown, reafirma para os árabes o que eles já sabem há décadas: por mais que eles lutem contra seus antagonistas, o ocidente sempre estará do lado de Israel. Como sempre, o banho de sangue foi culpa dos árabes – que, como sabemos, apenam entendem a linguagem da força.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

Avatar
Colabore com um Pix para:
editor.amalgama@gmail.com