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por Daniel Lopes – “É à África que desejo voltar sempre, à memória da minha infância. À fonte dos meus sentimentos e das minhas determinações”, escreve J.M.G. Le Clézio nas últimas páginas de O africano (Cosac Naify, 2007). No livro, ele não faz outra coisa. Volta à África ao mesmo tempo em que se esforça para […]

por Daniel Lopes – “É à África que desejo voltar sempre, à memória da minha infância. À fonte dos meus sentimentos e das minhas determinações”, escreve J.M.G. Le Clézio nas últimas páginas de O africano (Cosac Naify, 2007). No livro, ele não faz outra coisa. Volta à África ao mesmo tempo em que se esforça para recuperar a imagem do pai. O pai está na África e a África está no pai; aos olhos do menino e do adulto Le Clézio, são indissociáveis – um não é um sem o outro. Daí a verdadeira chave interpretativa que é o título dessas memórias escritas em dois meses, dezembro de 2003 e janeiro de 2004.

Como acontece com os grandes artistas, o que resulta do trabalho aparentemente despretensioso de Le Clézio é algo extremamente substancioso.

Dos habitantes das partes de Camarões e Nigéria então sob domínio inglês, para onde vai ao fugir com a mãe e o irmão da França nos anos 1940, e onde encontrará o pai pela primeira vez, ele não lembra os rostos. Lembra dos corpos. Ou melhor, os rostos, quando são revividos, “é mais como máscaras de couro, endurecidas, costuradas por cicatrizes, por marcas de rituais”, portanto mais como um pedaço do corpo pura e simplesmente, guardando quase nada de fisionomia.

Memória do corpo, do próprio corpo:

A primeira lembrança que tenho desse continente é do meu corpo coberto de uma erupção de pequenas bolhas causadas pelo extremo calor, uma afecção benigna da qual padecem os brancos quando entram na zona equatorial (…)

O pai de Le Clézio não era rigorosamente africano. Médico funcionário do moribundo império britânico, optara por sair da Europa por ojeriza ao pedantismo da burguesia local. Antes de servir na África inglesa, já havia trabalhado na Guiana. Em ambas as localidades, era um dos poucos profissionais de saúde, e, principalmente quando em África, tinha de percorrer distâncias absurdas para cuidar do bem-estar dos nativos, ou antes tentar aliviar-lhes o sofrimento.

O escritor nascido na França, Nobel de literatura no ano passado, pinta seu pai em cores fortes, mesmo quando para certos quadros dispõe apenas de dados imprecisos, entregues pela memória incertos, ofuscados pelo tempo. Ora o retrato sai realista, sem margem para dúvidas, ora abstrato, quase uma confissão de fracasso por parte de Le Clézio. Mas sempre numa linguagem franca, que deleitaria Kafka.

Passando os olhos por um e outro quadro, emerge para o leitor a figura de um homem que passou grande parte de sua vida fora da Europa natal – só no oeste africano, foram vinte e dois anos. Embora funcionário imperial, não escondia seu desgosto pelo sistema administrativo das colônias, a arrogância com que seus conterrâneos marchavam, as filas de presos caminhando acorrentados em sua própria terra. Posteriormente, a forma como as potências ocidentais lavaram as mãos para o continente africano, deixando, ao sair, convenientes líderes tiranos armados até os dentes, prontos para massacrar o próprio povo.

Essa característica do pai sem dúvida foi herdada por Le Clézio, e era compartilhada por sua esposa – quando ela comunicou a seus parentes parisienses que ia fugir para o Camarões, onde estava o marido, lhe exclamaram, “O quê! Para os selvagens?”, ao que ela respondeu, “Eles não são mais selvagens que os moradores de Paris.”

Nas conversas que posteriormente teria com o pai, Le Clézio soube de sua angústia e seu pessimismo ao saber das dificuldades da esposa e dos dois filhos no sul francês ocupado pelo exército nazista. Por outro lado, o patriarca parecia estar sempre com “uma espécie de armadura rígida”, o que no final fez com que largasse temporariamente seu posto na colônia e, subindo a África, fosse resgatar a família então já em fuga da Europa. Correu o risco de ser pego pelos alemães e seus aliados na África, mas conseguiu voltar para seu posto com os filhos e a esposa. Um ato heróico.

Nesse encontro, o primeiro que teve com o “africano”, o menino Le Clézio notou um homem “desconhecido, estranho, possivelmente perigoso” – que depois mostrou ser isso tudo, mas também bondoso, disposto, inteligente, aberto ao diálogo, exímio médico que lutava contra infinitas doenças contando apenas com parcos materiais.

Enquanto isso, já na nova casa, Le Clézio também lutava. Contra os insetos. Percorrendo as imensas matas que cercavam a residência, principalmente quando os pais estavam ausentes, destruía seus ninhos, em uma mistura de êxtase e maldade. Mas também sofria com eles, como quando a casa ficava sitiada por gafanhotos e mariposas em noites de chuva. Ou como quando, em seus primeiros dias na África, sentou descuidadamente sobre um formigueiro de formigas gigantes. Aliás, a descrição dessa cena é longa e tétrica:

Guardo a lembrança pungente do meu primeiro encontro com as formigas, num dos dias que se seguiram à minha chegada. Estou no jardim, não longe da casa. Não prestei atenção na cratera que marcava a entrada do formigueiro. De repente, sem que me desse conta, estava cercado de insetos. (…) Não é tanto das formigas que me lembro, mas da dor que senti. Permaneço imóvel, incapaz de fugir, incapaz de pensar, sobre o chão que de repente se movia, formando um tapete de carapaças, de patas e de antenas que giram ao redor de mim e estreitam seu redemoinho (…). Ao mesmo tempo, sinto a queimação das primeiras mordidas, sobre os meus tornozelos, ao longo das minhas pernas. A horrível impressão, a idéia fixa de estar sendo comido vivo. Aquilo dura alguns segundos, alguns minutos, um tempo tão longo quanto um pesadelo. (…) Minha mãe tira minhas meias, viradas delicadamente, como se levanta uma pele morta, como se tivessem me atingido com espinhos, eu vejo minhas pernas cobertas de pontos escuros e gotinhas de sangue, são as cabeças das formigas presas na pele, seus corpos foram arrancados no momento em que minha mãe tirava as meias. Suas mandíbulas estão enterradas profundamente, tiveram que ser extraídas uma por uma com uma agulha mergulhada em álcool.

Como, junto com os pais, comportava-se com desenvoltura no contato com os nativos, Le Clézio sentia-se um invasor, não em relação aos africanos, mas em relação aos bichos: “Como as formigas, os escorpiões eram os verdadeiros habitantes desse lugar. Nós não podíamos ser mais que locatários indesejáveis e inevitáveis, destinados a ir embora. Os colonos, em suma.”

O autorJ.M.G. Le Clézio sabe dos problemas de jogar todas as fichas nos frutos da memória, por si mesma sempre imperfeita. Lá pelo início do livro, após descrever como ele e o irmão se deleitavam em destruir ninhos de insetos inofensivos e úteis ao ecossistema da região (por isso benquisto pelos povos locais), o escritor pondera que “talvez, ao transcrevê-lo, eu faça parecer muito literário, muito simbólico o furor que animava nossos braços enquanto destruíamos os ninhos de cupins.” Ora, o mesmo se pode dizer de inúmeras outras passagens evocadas em O africano. Mas, se um certo sociólogo, que disse ser função de seus companheiros de profissão exagerar na descrição para fazer perceber a realidade (ou foi algo do tipo), estava equivocado, esse é mesmo o fundamento da literatura, mesmo aquela que se faz em relatos autobiográficos. Sim, ainda que em não raras vezes a realidade seja mais estranha que a ficção – é sempre, sempre um desafio descrevê-la, exagerá-la. E Le Clézio, com a pena na mão, o faz com habilidade.

Muito mais difícil quando o real redunda em brutalidade. Se as batalhas contra os insetos cansaram aos poucos Le Clézio, seu pai também foi cansando de suas batalhas contra as doenças africanas, e, paralelo a isso, se desiludindo cada vez mais com a administração colonial. Na vila de Ogoja, descobre que seus colegas médicos nada mais são que um braço como outro qualquer do império britânico – “E como poderia ser diferente?”, questiona Le Clézio. “O exercício da medicina também é um poder sobre as pessoas, e o controle médico é também um controle político.” Começa a abalar a estrutura emocional do pai todos aqueles anos cuidando de doentes à míngua, que muitas vezes chagavam aos precários postos de saúde já com a certeza da morte iminente – “É aí que ele constata a impossibilidade de ir até o fim de sua empreitada.”

Desilusão.

No final dos anos 1960, aposentado, de volta a uma Europa onde Le Clézio lhe via como alguém “exilado de sua vida e de sua paixão, um sobrevivente”, o pai, como todo o mundo, é defrontado com as notícias da guerra civil que matou centenas de milhares de pessoas num país entregue à própria sorte, na Nigéria em que tanto amou servir, no lugar que foi refúgio para a esposa e onde viu os filhos crescerem:

(…) Pela primeira vez, o país onde eu havia passado a parte mais memorável da minha infância era mostrado ao resto do mundo, mas porque morria. Meu pai também viu essas imagens, como ele poderia aceitá-las? Aos setenta e dois anos, não se pode mais que olhar e calar. Sem dúvida derramar algumas lágrimas.

 
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P.S.: Todos os trechos aqui citados foram livremente traduzidos a parir da versão original da obra publicada em 2008 pela Gallimard/Folio (L’africain). A tradução da edição brasileira é de autoria de Leonardo Fróes.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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