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Ensaio sobre a cegueira de Graciliano Ramos

por Daniel Lopes (20/01/2011)

Em 1952, o escritor alagoano perdeu uma ótima oportunidade de ficar em casa

-- Graciliano na União dos Escritores Soviéticos, Moscou, maio/1952 (foto disponível em graciliano.com.br) --

por Daniel Lopes

1.

Viagem, obra publicada um ano após a morte de Graciliano Ramos em 1953, é o pior livro do escritor alagoano. De longe. Relato da viagem que fez à Checoslováquia e à União Soviética em 1952, tinha tudo para encerrar com chave de ouro o ciclo de grandes obras do autor, incluídos os volumes de contos, romance, juvenil e memórias. Mas não encerrou. Na verdade, pôs uma nódoa no conjunto de sua obra. Se o livro é leitura indispensável, não é por ser grande coisa em si, mas pelo que tem de representativo; pela amostra que é do estrago que as ideologias podem fazem mesmo nas mentes mais brilhantes.

Porque Graciliano foi um escritor brilhante. Na minha opinião, forma com Lima Barreto o que de mais impactante a literatura brasileira já produziu. Já escrevi sobre sua genialidade, não preciso me repetir.

No entanto, eis que havia uma ideologia no meio do caminho. Comunismo, religião secular. Não que Graciliano tenha sido dos piores – ou seja, dos comunistas mais leais ao credo. Seus clássicos, é verdade, contém forças de opressão sócio-econômicas, mas é por não ter sido um homem de receitas e por nunca ter rebaixado os personagens a indivíduos unidimensionais, trancafiados nesta ou naquela outra “categoria”, é por isso que os livros nos ficaram como clássicos. De outra forma, como S. Bernardo poderia ter saído o grande romance que saiu, com tragédias individuais quase independentes umas das outras, e com tanto humor? Se Graciliano fosse adepto do realismo banal, como teriam saído Infância, Angústia, os contos de Insônia? Meu palpite é que não teriam saído. Teriam saído outros livros, mais “edificantes”, nós teríamos mais um autor para exportação e o século 20 teria sido privado de um de seus grandes ficcionistas.

Mas se Graciliano havia sofrido o bastante nas prisões de uma ditadura brasileira para não embarcar com muito entusiasmo na campanha por uma outra ditadura, dita politicamente correta, a vigem que fez junto com a esposa Heloísa ao bloco comunista em 1952 o deixou impressionado o suficiente para destruir o que certamente teria sido seu melhor livro de não-ficção.

Curiosamente, em 1949 a relação de Graciliano com os comunistas brasileiros havia entrado em uma crise maior, com os camaradas reclamando da prosa pouco construtiva de Graciliano e Graciliano com cada vez menos saco para o sectarismo e o policiamento dos camaradas. O convite, três anos depois, para ir ao outro lado da cortina de ferro, foi feito pelo Comitê Central, numa suposta tentativa de fazer as pazes.

Não que Graciliano não afete neutralidade ao longo do relato, mas isso apenas piora as coisas. Ir à União Soviética nos anos de Stalin e se pretender neutro é como ir à Alemanha de Hitler a fim de voltar com um relato jornalístico isento de partidarismo. Estou comparando o stalinismo ao hitlerismo? Estou comparando nazismo a comunismo? Claro que estou. A matança de povos subjugados foi a mesma, se não em número, em intenção. O tratamento de Stalin ao povo russo, é verdade, foi diferente do tratamento de Hitler ao povo alemão – Hitler selecionou categorias de povos para serem exterminadas, enquanto que Stalin exterminava sem se dar esse trabalho; com isso, Stalin varreu do mapa a sociedade civil de seu país (inclusive corpos de técnicos qualificados), o que explica sua deterioração cada vez maior, em contraposição ao “milagre” da recuperação alemã no imediato pós-guerra, que surpreendeu tanta gente. Dado o pouco equilíbrio mental de Stalin e seu doentio antissemitismo, se o ditador tivesse durado mais alguns anos é quase certo que os judeus teriam sofrido um novo Holocausto – a “limpeza” de algumas áreas, via transferência populacional, já vinha sendo empreendida.

Que façanhas a União Soviética já havia conseguido até 1952, quando abriu as portas para o grupo de brasileiros que incluía Graciliano Ramos? Lenin havia utilizado fome em massa como arma terrorista e administrado execuções extra-judiciais em quantidade enorme o suficiente para deixar os czares com vergonha. Mas nem mesmo esquerdistas do calibre de Graciliano, naqueles anos, colocariam em Lenin os adjetivos que ele merece, então pulemos essa parte.

Havia façanhas mais recentes. Houve, nos anos 30, a coletivização forçada nos campos, que entre mortos pela fome e mortos por fuzilamento custou umas 10 milhões de vidas. E, ainda nos anos 30, houve a psicose dos expurgos – de camponeses a oficiais do exército e aos mais abjetos e capachos membros da elite do Partido Comunista, no mínimo 680 mil foram fuzilados (diversos historiadores defendem que o número real passou fácil de 1 milhão). No pico do processo, durante os anos de 1937 e 1938, houve uma média de mil presos políticos assassinados por dia. Para efeito de comparação, a Rússia czarista (que os soviéticos retrospectivamente transformaram em uma espécie de parque de diversões) assassinou 4 mil presos políticos de 1825 a 1910.

2.

“O apartamento que me destinaram no Savoy”, escreve Graciliano a propósito do hotel onde ficou hospedado em Moscou, “de três peças amplas, era luxuoso demais. O banheiro me tranquilizou, pois na Europa é comum arrumarem a gente em quartos sem banho.”

Durante o almoço: “(…) a abundância da comida quase me afligia. O pessoal do serviço recusava essa frugalidade, buscava deixar-nos um prato, e se não nos convencia, afastava-se, voltava à carga uma, duas, três vezes, até nos resignarmos à oferta. Queriam forçar-me a excessivo alimento, encher-me, utilizando conselhos e sorrisos, o estômago, fraco.”

O historiador britânico Robert Conquest lembra que havia na União Soviética (no bloco comunista de uma forma geral) uma política de impressionar ilustres visitantes ocidentais literalmente pela boca – pela pança, teria escrito Graciliano. O que um amigo seu, comunista veterano, chamou de “política do banquete”.

Graciliano comeu muito e bem em Praga e em Moscou. Não viu motivo para, pelo menos em escrito, contrapor tal opulência à miséria geral. (Mas, miséria? Onde? Seu roteiro era milimetricamente traçado.) Não foi o único. O exemplo clássico é o de Bernard Shaw, que, no auge da fome engendrada pela coletivização, voltou de uma visita ao país informando os ingleses de que os russos estavam super bem alimentados.

De fato, um sistema em estado de permanente falência, mantido de pé apenas pelo poder do garrote, tem muito pouco com o que impressionar visitantes além de uma política de banquete. Num universo de fracassos colossais seguidos de expiações via assassinato de “sabotadores”, essa política foi uma das poucas que tiveram impressionante sucesso.

3.

Em 14 de junho de 1952, Moscou “estava cheia de retratos de Stalin”. O que Graciliano tinha a dizer sobre o culto a Stalin? Isso:

Realmente não compreendemos, homens do Ocidente, o apoio incondicional ao dirigente político; seria ridículo tributarmos veneração a um presidente da república na América do Sul. Não temos em geral nenhum respeito a esses indivíduos. Pelo contrário: a massa experimenta prazer em atacá-los, os jornais da oposição encarniçam-se em apontar-lhes as mazelas, reais ou imaginárias. (…) Bem. Trazemos no espírito a lembrança dessa figura triste, não a podemos afastar de chofre – e, chegando aqui [URSS], somos levados a compará-la ao estadista que passou a vida a trabalhar para o povo, nunca o enganou. Não poderia enganá-lo. (…) não se trata de nenhum culto, suponho: esse tremendo condutor de povos não está imóvel, de nenhum modo se resigna à condição de estátua. (…) a massa tem confiança absoluta nele – e manifesta a confiança impondo-lhe a obrigação de admitir as ruidosas aclamações e os retratos.

Talvez seja bom ler essa passagem novamente, pesando cada palavra.

É isso mesmo que você leu. Após um longo período em que 40 presos políticos eram fuzilados a cada hora, Graciliano achava que o povo russo se dobrava a Stalin de livre vontade. Ele deveria saber o suficiente para pelo menos suspeitar que estava escrevendo besteira.

4.

Ainda no mês de junho, Graciliano pergunta a uma moça russa: “Por que é que você não casa?”. “Impossível, camarada”, ela lhe responde. “Poucos homens hoje poderiam casar comigo. Os que existem são muito novos ou muito velhos para mim.”

Verdade. A escassez de adultos jovens era fruto da Segunda Guerra, na qual a União Soviética perdeu muito mais soldados que qualquer outro país. Aliás, tá aí uma façanha realmente positiva da União Soviética: seu papel decisivo para a derrota da Alemanha. Não que Stalin não tenha contado até a última hora com a boa vontade de Hitler, se recusando a levar a sério os avisos de seus guardas de fronteira sobre a movimentação de batalhões nazistas preparando uma invasão.

Desnecessário dizer que os herois foram os soldados, não os líderes. E eles entraram para valer e para vencer nessa luta encarniçada porque a cúpula soviética ressuscitara antigos símbolos como Raça, Religião, Pátria-Mãe. Por isso, os soldados rasos do Exército Vermelho foram à luta. Não eram muitos os que estavam dispostos a pôr a vida em risco em nome do “socialismo”. 5,7 milhões desses soldados foram feitos reféns pelos alemães no curso da guerra. 4 milhões morreram em prisões. Do 1,7 milhão que voltou para casa ao final dos combates, cerca de 80 porcento foi executado ou enviado para campos de trabalho forçado. Stalin não gostava de molengas que se deixavam pegar por exércitos inimigos e comprometiam as táticas e as políticas do Partido.

5.

O máximo de desconfiança que temos em Viagem são passagens ligeiras, que não saem da periferia para os temas centrais.

Exemplo. 20 de julho de 1952, passeio na Geórgia. “Todas essas visitas se assemelham. Frases convencionais, delicadeza fria, o receio de sermos impertinentes exigindo coisas difíceis, prejudiciais ao conjunto. Põem-nos à vontade, os nossos desejos têm aparência de ordem, mas não sabemos se estão sendo sinceros.”

Exemplo. 30 de julho de 1952, ainda na Geórgia, visita ao edifício Palácio dos Pioneiros Beria. “Demoramos na biblioteca, examinamos as estantes numerosas; arrumam-se nelas setenta e três mil volumes em georgiano, russo, francês, inglês, alemão. Vastas salas de leitura. Mas os livros de ordinário se emprestam, são lidos lá fora; os estudantes têm o prazo de dez dias para restituí-los. Essa literatura excessiva dá-nos afinal a ideia de que foi impressa e encadernada para embromar o visitantes.”

Graciliano não mostrou sequer um milímetro desse ceticismo quando, dias atrás, presenciara concentrações e desfiles na Praça Vermelha, em Moscou. Difícil não pensar que o aprofundamento dessas desconfianças não tenha sido feito por auto-censura, por um ato de auto-vigilância, de alinhamento talvez reflexo, de auto-enquadramento, vestígios do período em que namorara mais seriamente a ideologia que vitimou a mente de vários brasileiros de sua geração.

Vejam só que interessante. Em Linhas tortas, volume de crônicas publicado em 1962, há uma resenha em grande parte positiva que Graciliano fez, em fevereiro de 1935, do romance Suor, de seu amigo Jorge Amado. Atentem para o que ele escreve:

Tudo natural quando os pobres se manifestam em palavrões de gíria, quase sempre numa linguagem obscena em excesso, nada literária, está visto, mas que tem curso na Ladeira do Pelourinho e até em lugares de boa reputação. O autor falha, porém, nos pontos em que a revolta da sua gente deixa de ser instintiva e adota as fórmulas inculcadas pelos agitadores. As figuras de Álvaro Lima, do anarquista espanhol, do comunista judeu, não têm relevo, apesar de serem as mais trabalhadas. Quando elas aparecem, o livro torna-se quase campanudo, por causa das explicações, das definições, que dão aos três personagens um ar pedagógico e contrafeito. O preto Henrique, as moças do terceiro andar, o mendigo, os fregueses da bodega do Fernández, as meretrizes, exprimem-se ingenuamente. Chega um desses homens, traduz a fala em linguagem política, de cartaz – e sentimos um pouco mais ou menos o que experimentamos quando vemos letras explicativas por baixo de desenhos traçados a carvão nas paredes.

Que pena, então, que o espírito desse Graciliano tenha ficado, duas décadas depois, em algum lugar da ponte aérea Cannes-Praga. Tivesse lhe acompanhado, Viagem teria saído outra coisa. Como Graciliano pôde deixar de ver que grande parte das manifestações ufanistas que presenciou na Checoslováquia e na União Soviética nada mais eram que soletração de fórmulas inculcadas por agitadores profissionais, bem pagos e bem armados? Tivesse o espírito anti-pomposidade lhe acompanhado até Moscou, Viagem nunca teria aparecido com um prefácio de Jorge Amado.

6.

Não devemos desculpar a cegueira de Graciliano com o argumento do tempo. Um vivente de 1952 não sabia da União Soviética o que viemos a saber apenas após 1956, 1989. Óbvio. Mas em 1952 já se sabia o bastante sobre as ações soviéticas para acusar seus defensores de, no mínimo, cegueira – havia, claro, a cegueira reflexa, a cegueira fruto de lavagem cerebral, a cegueira paga, a cegueira fruto de esquizofrenia e a cegueira-relâmpago, apenas momentânea, que acredito ter sido a de Graciliano (ainda que não tenha sido esse seu único momento de cegueira em relação ao comunismo, apenas o mais grave) e que não foi a de Sartre, por exemplo.

Em livro clássico, o biógrafo Dênis de Moraes tenta escusar seu biografado:

Estávamos longe ainda de 1956, quando o relatório Kruschev denunciaria os crimes e as deformações da era stalinista. O fascínio que todo comunista tinha pela União Soviética era reforçado pelo culto à personalidade de Stalin e pela curiosidade sobre aquele mundo em transformação.

Não sei se Dênis de Moraes diria que as simpatias nazistas de um intelectual só se tornaram verdadeiramente condenáveis após a comprovação do que Hitler fez com os judeus em câmaras de gás. Suspeito que não. O genocídio judaico não era, se não uma previsão, uma decorrência lógica do delírio nazista conforme pregado no início dos anos 30? E não era a eliminação de qualquer indivíduo minimamente suspeito pelo Partido de ser inimigo do proletariado uma decorrência lógica do delírio comunista soviético? (Se antes de 1956 algum comunista tivesse dúvida quanto a isso, um curso rápido sobre as ações de Lenin poderia lhe iluminar a mente.)

O filho Ricardo Ramos tenta escusar o pai:

As distorções praticadas na era stalinista vieram a lume muito depois da morte do velho. Agora, ele era um stalinista sem endeusar o Stalin. Basta comparar o retrato que fez dele em “Viagem” com a apologia feita por outros escritores comunistas. Jamais chamou Stalin de pai, mestre ou guia.

Mas como vimos na seção 3, não se pode seriamente dizer que Graciliano não chegou a endeusar Stalin.

Em 1952, três dos maiores documentos denunciando o totalitarismo comunista já haviam sido publicados e cobertos pela imprensa ocidental, denúncias que qualquer intelectual versado em mais de uma língua tinha a obrigação de saber. São eles os livros O zero e o infinito (1940) de Arthur Koestler, Do fundo da noite (1941) de Jan Valtin e Eu escolhi a liberdade (1946) de Victor Kravchenko.

Ou o Retour de l’U.R.S.S. de André Gide, de 1936, seguido um ano depois de Retouches à mon “Retour de l’U.R.S.S”. A simples existência desta segunda obra, uma resposta de Gide às críticas amplamente divulgadas ao Retour, dão uma amostra do que em 1950 havia à disposição de brasileiros versados em francês, como Graciliano – que chegou a traduzir Camus, ainda que devido a dificuldades financeiras e “melhorando” o texto do franco-argelino muito de vez em quando. Me concentrarei no Retour e no Retouches, por serem os mais antigos entre os acima citados.

Como lembra Christopher Hitchens, o livro de Gide foi “uma das primeiras obras de um autor que havia planejado elogiar o regime de Moscou e retornou enojado”. De fato. O francês havia viajado à URSS à convite da União dos Escritores Soviéticos. Estando em Moscou no dia da morte de Máximo Górki, em 18 de junho de 1936, Gide faz um discurso emocionado na Praça Vermelha. A capa da minha edição do Retour contém exatamente uma foto tirada nessa ocasião. Logo atrás de um discursante Gide, alguns outros convidados e ele em pessoa – Stalin. Não obstante a ode ao escritor oficial do regime, Gide voltaria para a França com a fé no comunismo abalada para sempre.

Por quê? Porque ele enxergou o que Graciliano não pôde ou se recusou a enxergar. (Havia o peso, em 1952, do fato de a União Soviética ter sido decisiva para a derrota do nazismo, o que evitou muitas críticas a seu sistema, que de outra forma apareceriam com mais frequência; mas em 1952 também, como vimos, haviam-se acumulado os crimes do país contra outros povos e contra seu próprio povo – inclusive contra os soldados libertados das prisões alemãs!)

Aquilo que importa nas discussões travadas na União Soviética, observa Gide, “é saber se tal obra, tal gesto ou tal teoria se conforma a essa linha sagrada”, decidida pelos meios oficiais, repletos de gente com “complexo de superioridade”. Até mesmo para saber como se comportar diante da Guerra Civil espanhola, se devia “esperar as diretivas do Pravda, que ainda não havia se pronunciado. Não se ousaria arriscar antes de saber o que se deveria pensar.”

A bem da verdade, o livro começa até com certo tom elogioso a conquistas específicas da nação comunista. Começa e acaba – no “recheio” do livro é que está o grosso das críticas; o começo parece mais uma forma de chamar a atenção do público simpático à URSS (o público-alvo do livro), e o final, mais uma forma (auto-enganosa?) de mostrar que nem tudo está perdido. Acaba assim:

A ajuda que a URSS acaba de levar à Espanha nos mostra de quantos reparos felizes ela permanece capaz.

A URSS não deixa de nos instruir e nos surpreender.

Basta ver o subsequente comportamento da URSS na Espanha para compreender o quanto as previsões de Gide ainda restavam influenciadas por ilusões. Mas erros de previsão são menos condenáveis que escancarada ignorância do presente, e dois dos aspectos mais reprováveis da União Soviética – a sufocante atmosfera intelectual e as pobres condições de vida – não passaram despercebidos a Gide.

Sobre o pauperismo disseminado: “Não há mais classes na URSS, isso é certo. Mas há pobres.”

Compare essa sarcástica denúncia em uma linha de uma nação praticamente reduzida a uma classe (de miseráveis) a essa passagem de Graciliano em Viagem: “[Stalin] é, desde a juventude, um defensor da classe trabalhadora. Esta expressão, razoável há trinta e cinco anos, tornou-se desarrazoada, pois aqui já não existem classes.”

Graciliano não está sendo irônico. 1952 menos 35 é igual a 1917. Graciliano estava dizendo que a Revolução de Outubro havia acabado com as classes econômicas, e em nenhum lugar ele indica que a única classe sobrevivente tenha sido a de miseráveis (o grande romancista realmente parece acreditar que a União Soviética seja um terra de bonança). Porque a classe de miseráveis não foi mesmo a única sobrevivente. Afinal, havia uma outra, bem pequena, mas a única com poder de decisão. Gide:

(…) já se vê formar novamente camadas sociais, se não já classes, um tipo de aristocracia; não falo aqui da aristocracia do mérito e do valor pessoal, mas daquela do pensamento correto, do conformismo, e que, na geração seguinte, se tornará aquela do dinheiro.

Agora, essa sim foi uma previsão.

7.

É diante da “cegueira, ou má fé” de alguns críticos do Retour e incondicionais defensores da União Soviética que André Gide se vê obrigado, por raiva à ignorância e à desonestidade intelectual, a mostrar os dentes.

Daí o Retouches, em 1937. Coincidentemente, neste mesmo ano Orwell começava a pensar Animal farm, sua fábula anti-stalinista denunciando, entre outras coisas, a sufocante atmosfera intelectual, o estado policial e a degradação da fazenda.

Diante da acusação de Paul Nizan, de que via a União Soviética como uma entidade imutável, Gide responde: “Não sei onde ele vê isso. A URSS muda de mês em mês, foi o que eu disse. E é exatamente isso que me assusta. De mês em mês, o estado da URSS piora. Ela se afasta cada vez mais daquilo que esperamos que seja – que deveria ser.”

O que indigna Gide não é o que a URSS não conseguiu realizar, mas as mentiras daqueles que classificavam a vida entre suas fronteiras de “invejável”: “(…) reprovo aqueles comunistas entre nós (e não falo dos camaradas ludibriados, mas daqueles que sabem, ou pelo menos deveriam saber) que mentiram aos trabalhadores, inconsciente ou conscientemente – e neste caso em nome da política.”

Os apologistas do “milagre” soviético Gide nem tanto refuta quanto destrói, ao responder com números retirados do próprio Pravda e da Izvestia.

Em uma passagem interessante, o autor atesta o revival religioso na Rússia:

Portanto, esse infeliz ser aprisionado em que se transformou o trabalhador soviético, esfomeado, dilacerado, triturado, sem ousar protestar ou nem mesmo reclamar em voz alta, é alguma surpresa que ele reinvente um Deus e procure uma saída na reza? A que humano ele poderia pedir socorro?…

Quando lemos que nos últimos serviços de Natal as igrejas estavam lotadas, não há por que ficarmos surpresos. Aos espoliados, o “ópio”.

Como já observamos, foi em nome dos valores “arcaicos” como Nação e Religião que os russos foram com tudo para a luta de vida ou morte contra os alemães. A liderança comunista fazia vista grossa e até incentivava esses cultos. E o que isso nos lembra se não o corvo Moisés de Animal farm? Na estória, ele representa os pastores de alma que haviam sido exilados ou banidos do espaço público pelos soviéticos, apenas para serem bem-vindos depois. Aqui está o que Orwell enfim escreveu, alguns anos após Gide:

No meio do verão, o corvo Moisés repentinamente voltou para a fazenda, após uma ausência de vários anos. Ele não havia mudado nada, ainda não trabalhava, e falava com o mesmo ímpeto de sempre acerca da Montanha de Doces. (…) Muitos dos animais acreditaram nele. Atualmente, raciocinavam, suas vidas eram famintas e laboriosas; não era correto e justo que um mundo melhor deveria existir em algum lugar? O que era difícil de determinar era a atitude dos porcos em relação a Moisés. Todos eles declararam desdenhosamente que suas estórias sobre a Montanha de Doces eram mentirosas, mas ainda assim o deixaram permanecer na fazenda, sem trabalhar e com direito a certa quantidade de cerveja por dia.

Os porcos, evidentemente, representam a aristocracia soviética.

8.

Voltando a Graciliano Ramos.

Há alguns trechos divertidos em Viagem. À chegada em Praga:

– Pertence a alguma associação de classe?, perguntou-me [um oficial] pela boca do sujeito magro [o intérprete].

– Coisa nenhuma, declarei atarantado.

Minha mulher lembrou que eu era presidente da Associação Brasileira de Escritores – e este exíguo título produziu bom efeito. Tinha-me esquecido inteiramente dele, e não me passava a ideia de que servisse para alguma coisa.

Os brasileiros juntos com outros estrangeiros numa recepção em Moscou:

(…) duzentos e vinte chineses terrivelmente bem-educados. Nem falam, para não incomodar os vizinhos. Mexem-se como sombras e zumbem como insetos. Nós, brasileiros, não temos educação. Gritamos, buscamos debates, nacionalmente. É uma felicidade não nos entenderem nas outras mesas.

É esse espírito desabusado que sentimos falta quando Graciliano fala das coisas russas ou checas. Nessas ocasiões, ele é menos o escritor que costumava ser do que um diplomata obrigado pela consciência a relatar eventos de forma “imparcial”. Em todo o livro, só consegui colher uma amostra do famoso pavio curto de Graciliano. Foi em Tbilissi:

Embirrei com este nome: Combinado Têxtil de Tbilissi. Por que não se dizia, em linguagem cristã, que aquilo era uma fábrica de meias?

9.

As duas piores páginas jamais escritas por Graciliano são as duas últimas deste que é seu pior livro. Ao pousar e sair do “aeródromo” de Moscou, vindo de Tbilissi, o escritor vê o que durante toda sua estadia no universo comunista os hóspedes fizeram de tudo para que não visse: “casinholas de madeira, lastimosas, lôbregas, a cair de velhice. Não exibem realmente a miséria das nossas favelas, mas, tristes, feias, abrigam enorme desconforto.”

Por um momento suspendemos a respiração, enquanto avançamos mais algumas linhas. Como Graça irá se resolver com essa questão? Com um momento final, tardio, de serenidade? Arrependimento? Peso na consciência? Um vislumbre do iceberg cuja ponta agora via? Com um vago desconforto demonstrado a quem lhe acompanhava no carro? Um pedido de explicações? Um suspiro de tristeza, ao menos?

Nada disso:

Conveniente destruí-los, pensei, evitar-nos a visão molesta. O prejuízo não seria grande: os habitantes das minguadas velharias, pouco numerosos, achariam sem esforço asilo noutros lugares, e os estrangeiros de maus instintos, resolvidos a torcer o nariz ao socialismo, perderiam num instante aparências de razões badaladas com rigor lá fora: os indivíduos aqui não têm onde morar: na cidade enorme, sete milhões de criaturas se alojam a custo, várias famílias arrumando-se num quarto miúdo.

Uma agente que lhe acompanhava, Sra. Nikolskaya, lhe informa: “Estão aí as belezas do individualismo.”

Então era isso. Aqueles eram membros da “velha classe”. Graciliano não apenas absorve a informação acriticamente, como sente-se obrigado a demonstrar seu alívio com todas as letras: “a frase concisa abria-me com largueza uma porta. Os homens que ali se acumulavam podiam, se quisessem, viver em condições menos precárias.”

Os miseráveis brasileiros, Graciliano sempre viu (e os trabalhou em ficção de forma elegante) como vítimas de um sistema que precisava ser melhorado, se não subvertido. O pouco de tinta que dedicou aos miseráveis russos, por outro lado, foi para defender o sistema e dizer que os miseráveis é que precisavam se reformar – ou serem reformados. Está aí: um grande ser humano enquadrado na estrutura mental comunista, pondo a ideologia antes de qualquer outra consideração e resvalando para a ideomania, a doença de seu século.

O livro se conclui assim: “Estavam ali patentes, cada vez mais fracos, a encolher-se na umidade e na friagem, resíduos do capitalismo.” Mesmo? Trinta e cinco anos após a instauração do paraíso bolchevique e a abolição das classes?

É preciso dar razão ao professor Luciano Oliveira, que a respeito destas palavras finais de Viagem diz em seu ótimo O bruxo e o rabugento:

Já muito doente, foi a última coisa que escreveu. Melhor fora que não tivesse sido. Melhor guardarmos dele o que disse pouco antes de morrer a uma emocionada Heloísa, sua esposa, que o ajudava a ajeitar-se na cama de hospital onde já se preparava para ingressar no grande mistério: “Ló, eu estou sentindo uma saudade enorme de você.”

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Referências:

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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