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Ma Jian e o humor vermelho

por Daniel Lopes (18/01/2012)

Em seu novo romance saído no Brasil, o escritor chinês está de olho nas pompas e absurdos do regime comunista

"A cozinha da revolução", de Ma Jian

Nascido em 1953 na cidade de Qingdao, Ma Jian trabalhou com pintura e fotojornalismo para o Estado chinês, antes de se iniciar na carreira literária. Após ter alguns trabalhos menores censurados, Jian foi para Hong Kong, onde escreveu um volume de contos traduzido em 2006 para o inglês como Stick out your tongue. O livro lidava com o Tibete de maneira nada romântica, e foi proibido de circular na China sob a alegação de que “difama a imagem de nossos compatriotas tibetanos”. Como uma instituição que já presidiu a destruição de milhares de templos no Tibete e a chacina de centenas de milhares de habitantes da região, o PCC sem dúvida tem experiência em sentir o pulso de tibetanos.

Em 1997, quando o Reino Unido devolveu Hong Kong à China, Ma Jian mudou-se para a Alemanha, depois definitivamente assentando-se na Inglaterra, onde mora com sua esposa e dois filhos. Em 2001, publicou seus relatos de viagens pela China profunda em Poeira vermelha. Em 2004, foi a vez do romance A cozinha da revolução, e em 2008, Pequim em coma, sua obra-prima, tida por muitos como o romance do massacre da Praça da Paz Celestial – e quantos há mesmo?

Pequim em coma saiu no Brasil em 2009. No final do ano passado, saiu A cozinha da revolução. Ambos pela Record. As obras foram escritas em chinês, mas aqui estamos diante de um caso em que as traduções brasileiras, a partir do inglês, podem ser ditas traduções praticamente diretas. Isso porque quem passa os textos para o inglês é Flora Drew, a companheira londrina de Jian. Podemos imaginar que sobra algum espaço nas conversas entre os dois para esclarecer dúvidas de tradução, e o próprio escritor é bastante familiarizado com o inglês.

Para o leitor que não conhece Ma Jian, é necessário saber de início que ele é um mestre do chamado humor vermelho. Embora alguns autores chineses contemporâneos sejam bastante comedidos, é notável como, mesmo nestes, o sarcasmo aparece no texto como que por conta própria. Talvez isso seja inevitável em enredos que se desenvolvem em um ambiente em que o poder auto-eleito faz questão de se intrometer além da conta na vida dos sujeitos. É regra de ouro da literatura: não importa o período ou o local, qualquer crença, corrente ideológica, regime, instituição, comunidade ou indivíduo que se cerque de pompa e trate a si mesmo com mais imodéstia do que seria recomendado pelo saldo de suas realizações e impacto na vida daqueles em volta, automaticamente está convidando pessoas de talento a colocá-lo no palco do escárnio, onde, aí sim, ele age sempre com naturalidade e sucesso.

Se quiser, você pode classificar A cozinha da revolução (título “original”: The noodle maker) como um representante do realismo fantástico – e contrapor seu autor a, por exemplo, Yu Hua, traduzido no Brasil pela Companhia das Letras e que será em breve objeto de uma resenha aqui no Amálgama). Em determinada página, um rapaz conversa com o espectro de uma velha que o surpreende no meio da noite. Noutra, entra em cena um cachorro de três pernas que não apenas fala, como lê livros de filosofia. Mas, se você manter em mente que tudo isso é apenas a imaginação de um dos dois personagens principais, com a velha e o cachorro aparecendo na vida de pessoas que ele conhece, e que, além disso, todas essas pessoas (personagem imaginão incluído) são mais ou menos paranoicos, tudo passa a fazer sentido, e estamos de novo diante do velho e bom realismo.

O personagem imaginão é identificado na abertura de A cozinha da revolução simplesmente como Escritor Profissional. Logo saberemos tratar-se do Camarada Sheng. Empregado do governo, ele foi comissionado a escrever um conto a partir do mote “Aprendendo com o Camarada Lei Feng” – mais um dos heróis do imaginário comunista, cuja dedicação à causa nos anos 1960 supostamente se tornou exemplo a ser seguido por todos os chineses. Sheng recebe nas primeiras páginas a visita do amigo Doador de Sangue, apelidado Vlazerim em tributo ao personagem de um antigo filme de propaganda albanês. Os dois se conheceram nas décadas de Revolução Cultural. Ambos frequentaram campos de reeducação para a juventude, e eram mais ou menos nivelados em seus estilos de vida e em suas ambições. Hoje, porém, Vlazerim é muito mais bem sucedido do que o amigo. Enquanto Sheng ganha miséria com seus textos edificantes, Vlazerim entrou para o ramo da doação de sangue. Não apenas ele produz e doa bastante – no passado cobrando um bom dinheiro para dar sangue a empresas com alguns funcionários fracos demais para produzirem a cota de sangue exigida pelo governo –, como abriu uma “empresa” de facilitação da papelada para doadores potenciais.

Há alguns anos, ele e certos amigos criaram uma Agência de Recrutamento de Doadores de Sangue num banheiro público no centro da cidade. Eles posicionaram sua mesa no pátio junto a uma poça de urina e colocaram uma tábua entre a mesa e a tábua para bloquear os respingos. (…) Quando os novos recrutas terminam as formalidades, eles se dirigem ao hospital do outro lado da rua para doar sangue; depois, voltam ao banheiro público, entregam à agência metade do dinheiro ganho e levam o resto para casa. O doador de sangue [amigo do Escritor Profissional] reparte o lucro com seus colegas, mas sempre fica com a maior parte para si.

A relação de Vlazerim com Sheng é inamistosa. Um aponta os defeitos do outro com mais frequência do que ocorre entre bons amigos. A relação, permeada pela arrogância do Doador e a inveja do Escritor, claramente já não é a mesma dos bons tempos de Revolução Cultural. “Se eu pudesse escrever”, atira Vlazerim, “tenho certeza de que seria melhor escritor que você”. Sheng aceita o amigo da onça em seu apartamento, no entanto, porque, junto com suas frases cortantes, o Doador sempre traz uma boa comida e eventualmente uma boa bebida. E o aspecto do Escritor, com “seus rosto amarelado e prostrado”, é claramente o de quem precisa ingerir mais vitaminas.

Se tiver sucesso em seu conto sobre um Lei Feng contemporâneo, o Camarada Sheng, de acordo com promessa do secretário do Partido na associação de escritores local, conseguirá incluir seu nome no “Grande dicionário de escritores chineses”. Isso é importante. A façanha provavelmente lhe renderia uma promoção e um soldo maior. Acontece que ele sequer consegue iniciar a escrita. Os contos que desenvolve mentalmente, enquanto come e conversa com Vlazerim, não são nada edificantes. Alguns são claramente realistas, mas nenhum é da escola do realismo socialista. Esses contos formam a maior parte de A cozinha da revolução. Entre um e outro, e no meio de um ou outro, acompanhamos as interações geradoras de faísca entre Sheng e Vlazerim.

É a estória, por exemplo, de um escritor de rua que compõe cartas a pedido de terceiros – e lembra a nós a Fernanda Montenegro de Central do Brasil. Ou da atriz de teatro certa vez disputada pelo Doador e pelo Escritor, mas que apenas usava ambos para causar ciúmes no homem que realmente amava, até o dia em que decidiu chamar a atenção deste e mostrar seu amor se deixando matar por um tigre em um espetáculo de audiência concorrida, com o amado na plateia. Ou ainda do pai que tem duas filhas. A mais velha, doente mental nascida pouco antes da adoção da política de um filho por casal, forçou o pai a entrar com um recurso junto às autoridades pedindo autorização para gerar outro bebê na esposa. Autorização concedida, nasce em breve outra menina, quando o desejo do pai é ter um menino para levar o nome da família adiante. Para realizar este desejo, ele passa a conduzir a filha “retardada” para locais distantes de casa, a fim de perdê-la e poder restituir um segundo filho ao lar (da terceira vez, com sorte, seria um filho), sem medo de ser punido pelo governo. Isso é cruel. Mas dê uma olhada no que ocorre:

Certa manhã, o pai deixou a filha sozinha num campo aberto nos limites da cidade. Ele se escondeu atrás de um arbusto à distância e observou por todo um dia. Quando o sol se punha a oeste, ele perdeu a esperança de ver alguém surgindo para resgatá-la e, assim, fraco de fome, correu para a menina, pegou-a nos braços e levou-a para casa.
(…)
Contudo, a cada vez que tentava se livrar da menina, ele sentia que seu apego por ela ficava cada vez mais profundo.
(…)
Com o passar do tempo, a menina se tornou a amiga mais próxima do pai.
(…)
Quando chegava a seu destino, ele colocava a criança na beira da estrada e depois agachava-se atrás de uma árvore a mais ou menos 10 metros de distância. Os transeuntes notavam que as rugas de seu rosto pareciam sumir quando ele estava agachado ali. Mas, assim que alguém se aproximava e colocava as mãos em sua “propriedade perdida”, ele dava um salto, corria para perto e apanhava a filha nos braços. Nesta cidade, ele se tornou o único protetor da menina retardada.

Isso é para mostrar que muitas vezes os conhecidos/personagens de Sheng são boa gente, ainda que em sua forma demasiada humana. O chinês comum sai bem na página, mas não o governo chinês. Se Sheng fosse colocar essas estórias no papel, é assim que seria. E assim ele provavelmente iria parar, não em um grande dicionário, mas em uma pequena cela.

-- O autor --

De forma que Sheng apenas imagina. E através desses devaneios Ma Jian destila seu humor vermelho. A cozinha da revolução é muito bom nesse quesito. Aliás, o livro é muito bom em tudo. No final das contas, só embirrei com uma mísera frase – “…semelhante à pena que um gato sente antes de atacar sua presa”.

Primeiro, há o ridículo das proibições do período maoista, e dos efeitos de sua suspensão, com as mais prosaicas atitudes gerando quedas de queixo. No livro de Ma Jian, entre os efeitos da Política de Portas Abertas de Deng Xiaoping, temos: paredes pintadas de rosa; perda da proeminência de heróis e heroínas revolucionárias em papeis de teatro; liberação do uso de sutiã com enchimento e pintura dos cabelos; suspensão da pena de prisão pelo uso de palavras e expressões burguesas como “amor”, “lábios macios”, “o sol em torno do qual giro”e “melancolia”; etc.

Eu devo ter perdido um bocado de referência antes de enfim começar a rabiscar as margens com tremidos “kkk”. Completando os slogans revolucionários em exibição na lateral do carro de uma pequena empresa de cremação, lemos: “ELEVAR A PRODUÇÃO! REDUZIR A POPULAÇÃO!”. O jovem proprietário dessa empresa promete aos parentes dos defuntos reduzir seus corpos a pó ao som das músicas prediletas dos enquanto-vivos. Algumas fitas cassetes, como aquelas com música erótica francesa ou música country estadunidense, saem mais caras; a “Quinta Sinfonia” de Beethoven sai por 5 yuans, o “Noturno” de Chopin custa 7 yuans, enquanto a “A Internacional” fica por 1,5 yuan. “Ele é imortal agora”, comenta o jovem com sua mãe a respeito de um ex-dirigente do Partido recém saído do forno. “Não importa se vai para o céu ou o inferno, ele não voltará para cá, principalmente porque conseguiu passar a vida sem cometer qualquer erro grave.”

Em outro relato, um homem dá a palma da mão para um velho sábio ler e adivinhar o futuro. O velho diz que, quando o homem tiver 50 anos, um cavalheiro virá do sudoeste para lhe trazer sorte. O homem puxa na memória e descobre que realmente tem um conhecido no sudoeste, um tio ex-general do Kuomintang que atualmente é membro de uma guerrilha que tenta derrubar o governo de Myanmar…

A jovem atriz com tendência suicida, Su Yun, antiga engabeladora do Escritor e do Doador, tenta convencer um gerente de teatro da utilidade de sua autoimolação, e o gerente põe as condições: “Contanto que você deixe um testamento e que seu ato promova a mensagem de que a civilização socialista está em marcha para o avanço, então…”. A moça concorda. Mas como o ato tão burguês-decadentista de ser devorada por um tigre em nome de um amor não correspondido poderá passar mensagem tão pretensiosa? Sem problema. Na hora do show,

Su Yun respirou fundo e começou o espetáculo que escolhera após a conversa com o gerente do clube. Depois do início da canção “O Exército Popular de Libertação e o povo avançam juntos como peixe a água”, ela começou uma mímica de que estava lavando as roupas dos amados soldados do EPL. Metade de sua mente estava concentrada na mímica, a outra metade no tigre. Ela sabia que, depois que pendurasse a roupa para secar, teria que dançar de volta ao alojamento do Exército, e o tigre – aquele “inimigo da classe”, com a expressão de um homem e o coração de uma fera – saltaria dos arbustos e enterraria suas presas em seu corpo. Depois que ela estivesse morta, o tigre seria capturado e preso. Mas, em seu caminho para o quartel-general da polícia local, um heroico soldado do EPL correria para vingar sua morte, enterrando uma baioneta nas costas do tigre. Marcando o local onde Su Yun seria devorada, os soldados ergueriam uma placa à heroína e depois cantariam “A Internacional”.

Su Yun é revoltada com os homens (“se eu não esconder minha verdadeira natureza, como poderei satisfazer o desejo masculino por comedimento e refinamento feminino?”), e não por menos, haja visto os trapos com quem topou no curso dos anos. “Aquela puta” é como a ela de refere atualmente o Doador, que depois ainda filosofa, mostrando ao Escritor seu isqueiro importado: “Se você conhece uma mulher que fuma, só precisa acender o cigarro dela com isso e ela é sua”.

Aqui lidamos com o outro dos temas recorrentes em A cozinha da revolução, a saber, o estúpido tratamento dispensado a mulheres por membros de um meio intensamente machista. Lembrando de conversa que teve com um inusitado amigo, um pintor observa casualmente, como quem narra uma mosca que passou em frente de seu rosto antes que dirigisse a palavra ao amigo, que “alguns dias antes de testemunharmos o estupro coletivo que aconteceu na rua abaixo…”. Há também a secretária que desde os 14 anos tem os seios grandes e os carrega como um estigma, tendo que ouvir a superstição de que os seis crescem além da conta quando a proprietária deixa os rapazes os espremerem. “Ela se casou com um camponês alguns anos depois, mas, quando soube de sua reputação, ele se tornou violento e passou a espancá-la com frequência, quase até a morte.” A secretária toma remédios para desprender os pensamentos dos seios e conseguir dormir. E aqui vai um conselho de mãe: “Você deve afastar os homens até onde for possível, pois, assim que tiverem apalpado e provado cada parte de sua carne, você se tornará imprestável para eles, nada melhor que um bife numa tábua de cortar.”

Das estórias que se constroem na mente do Camarada Sheng, a que melhor combina as absurdas exigências e pompas oficiais com a conturbada relação de gênero é a de uma romancista com quem Sheng transou certa vez. Hoje ela é casada com o Velho Hep, editor da revista literária estatal de uma cidadezinha ao norte de Hong Kong. No começo do casamento o editor se sentia superior à esposa, mas logo o sucesso literário dela o eclipsa. O destrambelhamento começou com a Política de Portas Abertas, quando a mulher começou a aparecer em casa de cabelo remodelado e esmalte nas unhas, a sair sozinha para reuniões, a receber aspirantes a escritor de sucesso para dar dicas, a passar na redação da revista para impor políticas editoriais ao marido. O relacionamento toma ares de pastelão:

Sempre que o Velho Hep fazia algo para irritá-la, a mulher dobrava o braço dele atrás das costas, brandia a mão no ar como uma atriz de kung fu e o chutava nas canelas.
(…)
À medida que seu status em casa afundava, ele percebeu que só na cozinha podia se sentir livre e agir como queria.

Hep, que ganhou esse apelido na época em que contraiu hepatite, não poderia se conformar com tanto sofrimento, e tinha que também também para o ataque. Mas, sendo uma mediocridade ambulante e um duplo covarde, ele não vai descontar na esposa, e sim nas “poetisas melancólicas” que tentam emplacar colaborações em sua revista. Passa a transar com as mulheres que publicará. Antes de sua queda em desgraça, consegue traçar vinte e uma. Ele se dará mal, não pelas mãos de alguma literata, mas pelas mãos de uma tecelã, que previamente tratara com sadismo.

Quanto à sua esposa, acabará ela própria perdendo espaço para uma nova geração de meninas intelectuais. Antes, “quando o Velho Hep conseguiu finalmente escrever a palavra ‘amor’ num pedaço de papel, ela já estava usando expressões como ‘sexualmente excitado’”. Depois, quando ela trazia Hemingway à tona, “as jovens se afastavam para o canto da sala para debater Heidegger e Robbe-Grillet.”

::: A cozinha da revolução ::: Ma Jian (trad. Heloísa Mourão) :::
::: Record, 2011, 272 páginas :::
::: compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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