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“Estamos diante de um raro caso de involução de um pensamento não evoluído”

por Daniel Lopes (09/01/2016)

Entrevista com Celso Arnaldo Araujo, autor de "Dilmês: O Idioma da Mulher Sapiens".

O autor

O autor

Quando Dilma Rousseff ainda estava na Casa Civil de Lula, o jornalista Celso Arnaldo Araujo começou a se interessar pelo dilmês – o idioma bastante peculiar em que aquela criatura se expressava.

Araujo se tornaria pioneiro nesse subcampo pouco auspicioso da linguística, analisando infinitos pronunciamentos da líder do Brasil. Seu livro recentemente lançado, Dilmês: O idioma da mulher sapiens (Record), é um incrível passeio pelo universo mental da presidente. Com toda probabilidade, Dilmês é a obra mais importante sobre o legado de Dilma que já foi ou ainda será lançada. Sem dúvida, a mais engraçada – a não ser que André Singer lance algo.

Procurei o autor para saber mais sobre o idioma e sua criadora. Os colegas Andrei Ribas e Ana Ribeiro Olson colaboraram.

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Amálgama: Você é pioneiro do estudo do dilmês. Quando o idioma primeiro lhe chamou a atenção, e quando percebeu que o tema era farto o bastante para caber em um livro?
Celso Arnaldo Araujo: Foi em 2009, quando ouvi pela TV, sem querer sintonizada no canal estatal NBR, fragmentos de uma palestra da então ministra-chefe da Casa Civil sobre o pré-sal. Há mais de 30 anos habituado a conversar com pessoas dos mais variados estratos sintáticos, me chamou a atenção, instantaneamente, a incapacidade dessa senhora em concluir um único raciocínio e a quantidade de vícios de linguagem acumulados numa mesma sentença. Isso não teria a menor importância ou gravidade não fosse a ministra, já àquela altura, a aposta de Lula para sucedê-lo na Presidência. Depois de ouvir Dilma em outras duas ou três circunstâncias, cheguei à conclusão que se tratava de um fenômeno – aparentemente, a pessoa mais desarticulada que eu já tinha ouvido, com a agravante de que tinha tudo para ser presidente da República, e a primeira mulher a ocupar o posto em nossa História. Cioso de minha descoberta – que no livro chamo de epifania, ou uma revelação das altas (no caso baixas) manifestações do espírito -, passei a segui-la, como um stalker verbal. E, para não guardar comigo o resultado dessas incursões ao universo baldio do cérebro de Dilma Rousseff, comecei a enviar notas sobre o “dilmês” – expressão que surgiu naturalmente, fruto da formação semântica lógica de inúmeras palavras que designam idiomas – a meu amigo Augusto Nunes, titular de uma das mais frequentadas colunas políticas do país, no site da Veja. Assim nasceu uma nova cadeira não acadêmica: a dilmologia. Durante pelo menos quatro anos, o ano da campanha e os três primeiros anos de seu primeiro mandato, fui titular exclusivo dessa disciplina, que só contava com um punhado de ouvintes (os leitores contumazes da coluna do Augusto), nenhum deles na grande mídia. Nesse período, nenhum colega meu, de nenhum órgão de imprensa, grande ou pequeno, detectou algo de errado no pensamento primitivo de Dilma Rousseff. Como costumo dizer: já no decorrer de sua primeira campanha a coleção de frases desconexas e deformadas de Dilma que acumulei nos meus arquivos seria suficiente para, inicialmente, inviabilizar a primeira eleição. Eleita, para derrubá-la do poder, por incapacidade atroz e despreparo agônico. Encerrado seu primeiro mandato, para devolvê-la à casa – não a Civil, mas à sua. Palestrante é que não seria, depois de deixar a Presidência… O material que passei a acumular era tão copioso, tão abundante, que a ideia do livro foi natural. Mas só se materializou com a ameaça de impeachment. Então, corri contra o tempo – e em um mês, tinha mais de 200 páginas sobre o Dilmês, com sobras que me permitiriam fazer mais uns três volumes, pelo menos – fora o que Dilma perpetrou este ano.

Quais os vícios de linguagem mais comuns da presidente, e o que isso revela sobre o funcionamento de sua mente?
Bons e maus oradores há em qualquer atividade humana, e esse contraste é mais acentuado na política. Mas, no caso de Dilma, não estamos falando de problemas de oratória – e meu livro não é, em absoluto, sobre isso. O Dilmês – e o chamo assim porque, a exemplo das línguas humanas, tem método e regras próprias – é a expressão de um raciocínio rudimentar sobre virtualmente qualquer área do pensamento humano. Falando dela mesma, Dilma é um horror – como exemplifico fartamente no livro. Ela é incapaz de reproduzir fielmente inclusive ditados e aforismos consagrados, ou expressões populares intocáveis. Esta semana mesmo, no café da manhã com a imprensa, disse que tinha sido virada “dos avessos”. Quem mais falaria isso, em vez de “do avesso”? Quanto aos vícios de linguagem, consulte um tratado de gramática e vá ao capítulo correspondente. Selecione todos os vícios – barbarismos, apedeutismos, redundâncias, anacolutos, gongorismos: estão todos reunidos no Dilmês, às vezes numa única sentença. Um dos mais comuns é a redundância de sujeito: “Essa bola ela é uma bola que…”

Muita gente pode achar que as peculiaridades da fala de Dilma expressam simplesmente ansiedade e falta de treino, não um problema mais profundo de raciocínio. O que você diz?
Se fosse isso, ela já teria melhorado. Falando em público há seis anos, já deveria ter se articulado um pouco. Ao contrário, Dilma piorou muito. Não é à toa que, em 2015 – e foi aí que o Dilmês saiu do meu gueto e enfim passou ao domínio público -, ela cometeu algumas das mais acachapantes dilmices conhecidas, como a meta zero que é dobrada quando alcançada, a saudação à mandioca, a mulher sapiens e a Caixa de Pândora. Reveja um discurso de Dilma na campanha de 2010 e assista a um deste ano. Estamos diante de um raro caso de involução de um pensamento não evoluído.

Políticos brasileiros em geral não falam muito bem (estou colocando o discurso empolado na categoria de discurso pobre). Mas o que diferencia e eleva Dilma Rousseff entre a espécie?
Não falam bem, na média, mas até o Sibá Machado – uma excrescência do universo parlamentar brasileiro – poderia dar uma surra na Dilma num debate, por exemplo. Aliás, José Serra, em 2010, e Aécio, em 2014, estão entre os responsáveis pelo desastre que vivemos hoje. Não conseguiram – ou nem tentaram – expor a fraude chamada Dilma Rousseff. Razoavelmente treinada, minha filha de 11 anos trucidaria a Dilma num debate – para Dilma, um terreno pantanoso, cruel, fatal. Como pôde Dilma ter sobrevivido à rodada de debates sem que sua fragilidade mental tivesse sido exposta?

Você destacaria a obra falada ou escrita de algum outro político brasileiro?
Eu diria que o brasileiro, incluindo políticos portanto, que melhor dominou sua língua foi, de longe, Jânio Quadros. Como repórter da revista Manchete, tive a oportunidade de entrevistá-lo várias vezes – eu, pouco mais que um menino, ele um político já em ocaso de carreira. Meus diálogos com Jânio dariam outro livro – baseado na excelência, não na pobreza do pensamento. Em compensação, Jânio era ciclotímico – e cheguei a ser expulso por ele da porta de sua casa, sem mais nem menos. Bem, Dilma – dizem todos os que convivem com ela – é insuportável. Aliás, esse traço de sua personalidade foi a pedra de toque não apenas de sua sobrevivência no serviço público, malgrado sua incompetência, como de sua eleição para a Presidência. Todos nós já tivemos chefes incompetentes que se impuseram pela grosseria no trato pessoal. É um disfarce que funciona bem. Dilma presidente é, seguramente, o mais lamentável erro de pessoa já cometido nas altas esferas do poder. E o próprio PT tem consciência disso. Dilma não saberia dizer o nome dos 26 estados brasileiros e suas capitais. Não sabe de cabeça quanto é 7 vezes 8. Não sabe nada de nada. E isso é bem sabido.

João Santana teve sucesso no trabalho com Dilma para os debates televisivos em 2014?
Bem, se ela foi reeleita, sim. Mas mais por culpa da oposição do que por mérito do seu coach. Dilma é intreinável, é impermeável a qualquer progresso pessoal.

Você acha que Dilma tem consciência de que maltrata a língua?
Entre os múltiplos defeitos de Dilma está a falta de autocrítica e de autopercepção. Todos nós, quando falamos em público, percebemos a um átimo de segundo da frase dita se cometemos uma gafe, se fomos imprecisos, redundantes ou se agredimos a gramática. Dilma, evidentemente, não. E seus áulicos, que certamente conhecem as profundezas da fragilidade de raciocínio da chefe, fingem não perceber. Tanto que os discursos de Dilma são transcritos ipsis literis no Portal do Planalto, sem qualquer mudança ou constrangimento. Mas em situações específicas, quando se perde completamente e fica sem fala, Dilma tem um artifício: disfarça um mal maior. Chegou a fingir um mal súbito numa entrevista que deu ao SBT após o debate na emissora na campanha de 2014. E, em outra ocasião em que ficou sem fala, simulou um engasgo, passado o qual produziu uma de suas pérolas: “Desculpe, gente, engasguei comigo mesma”, como se fosse possível engasgar com outra pessoa.

É possível fazer uma viagem ao centro do cérebro dilmista e voltar são e salvo? Qual foi seu método? É uma jornada que recomenda a outras pessoas?
Não me contaminei – espero. E, para falar a verdade, virou um vício. Só agora, depois do livro, me livrei da dependência. Mas, mesmo como especialista, confesso uma dificuldade: não consigo decorar algumas pérolas maiores do Dilmês. A sintaxe cerebral dela – como no caso da fábula do cachorro oculto atrás de cada criança, top 1 do Dilmês – impede a reprodução fiel, mesmo com intenso treinamento, pelos cérebros ditos normais. Mas um dia chego lá. A Dilma é que não chega.

O livro

O livro

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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