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Que venha o próximo livro de Cristovão Tezza

por Daniel Lopes (02/02/2012)

Os contos de "Beatriz" não possuem a mesma qualidade do livro anterior de Tezza

"Beatriz", de Cristovão Tezza

Dos sete contos desse volume, cinco focam em Beatriz, dois focam em Paulo Donetti. No livro anterior de Tezza, o romance Um erro emocional (2010), nós flagramos estes dois personagens em uma noite no apartamento de Beatriz, em Curitiba. Ele é um escritor que mora em São Paulo. Ela é uma revisora de textos. Antes de Tezza escrever Um erro emocional, ele escrevera seis dos contos agora reunidos em Beatriz, nos quais esta personagem aparecia com o nome de Alice. O sétimo conto, maior, “O homem tatuado”, veio depois do Erro. Ele e “Amor e conveniência” são os únicos inéditos. Os outros já haviam sido publicados em veículos como as revistas Bravo! e Arte e Letra. Nenhum dos sete contos deixará (ou deixou) boas lembranças no leitor de Tezza.

Claro, há momentos engraçadinhos nos contos. E ao longo deles, quem, como eu, gostou Um erro emocional, encontrará e organizará outras peças do interessante quebra-cabeça que é Beatriz. Em “Aula de reforço”, onde a personagem de “28 anos incompletos” vai ao apartamento de uma senhora que precisa contratar seus serviços em prol do sobrinho, lemos de passagem que a tímida moça terá que, na volta, passar na farmácia, pois está deprimida. Sabíamos, de Um erro emocional, da timidez, mas não tínhamos a referência fármaca. (E nem imagino que algum leitor do Tezza tenha iniciado o romance de 2010 com aquela Alice dos contos em mente.) Ainda no mesmo conto, lemos casualmente do “aborto que [Beatriz] fez, sete meses depois de casada”.

Seu casamento foi com Augusto, um colega de faculdade, mas “não durou muito”, lemos em outro conto. Após esse “desastre conjugal”, conta uma estória anterior, ela hoje mora sozinha. No último conto, “O homem tatuado”, reencontramos a Beatriz fã de literatura de Um erro emocional. O tatuado em questão é o funcionário de um sebo curitibano – filho do dono, mais precisamente –, em que Beatriz entra atrás, entre outros volumes, das memórias de Joaquim Nabuco. Esse conto se desenrola dois anos após o fim de noite com Paulo Donetti do livro anterior.

Então, não é verdade que não existe nada de aproveitável nesses contos. Mas, ao contrário do que escreve Tezza em sua introdução, sem Um erro emocional em mente, eles não valem muita coisa – como eu suspeito ter sido a opinião de vários leitores ao toparem pela primeira vez com esses contos à medida que eles saíam em revistas e coletâneas. A exceção, penso, é “Um dia ruim”, com seu quê de terror conduzido por um texto firme. (Esse foi o único que eu havia lido antes, numa Arte e Letra de 2008.) E, talvez, o primeiro, “Beatriz e o escritor”. Neste, Paulo Donetti, que é o narrador, está em Curitiba para participar de mesa-redonda com um romancista local. Foi à capital paranaense a convite do amigo e também escritor Cássio. Como a mesa estava um porre, Paulo simula mal-estar, foge e vai encontrar Cássio num restaurante, onde ele, recém separado, está em companhia de uma nova mulher, que vem a ser a bela Beatriz. Paulo se encanta com a moça. Foi a primeira vez que Beatriz apareceu na obra de Tezza, e até agora não o largou.

Fora isso, os contos não possuem muito valor intrínseco. O que de interessante discute-se neles? Pouca coisa. Notavelmente, os labirintos de um “escritor itinerante”, aborrecido com leitores que não mantêm a distância devida. Também deve-se observar a batalha de Tezza contra o lugar comum, que redunda não apenas na pouca presença dos clichês em seu texto como também na consciência e divertimento de seus personagens ao se depararem com um.

Por outro lado, os textos de Beatriz são ruins de outra forma. Pelo próprio registro de Tezza, “Beatriz e o escritor” marca uma guinada em sua escrita para “aquela sintaxe tateante que vinha tentando aprimorar desde O fotógrafo [2004]”. Bem, tateamento por tateamento, eu fico com Um erro emocional e dispenso Beatriz. Se esses contos tivessem sido reescritos, o livro teria saído melhor. O jorro de diálogos, pensamentos e ações em grandes parágrafos funciona no Erro emocional, mas deixa a desejar mesmo nos menores parágrafos de Beatriz. Num momento, pensamentos estão em itálico e falas, sem qualquer marcação; no momento seguinte, são as falas que estão em itálico, com apenas a descrição de ações sem marcação; e, quando você menos percebe, voltam os pensamentos para itálico – para, na frase seguinte, o perderem de novo. Veja como exemplo a página 81. Isso chama-se desorganização, não organização, de texto.

Em outra frente, quando você topa com o termo “iniludivelmente” na página 66 (“iniludivelmente feliz”), apenas oito páginas após ter lido, no mesmo conto, “iniludivelmente autoritário”, é iniludivelmente instintivo riscar um dos dois com a caneta.

De modo que eu sugeriria que você segure seu dinheiro para o próximo romance do Tezza.

::: Beatriz ::: Cristovão Tezza :::
::: Record, 2011, 144 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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