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Yu Hua, o Graciliano deles (por aí)

por Daniel Lopes (07/02/2012)

Apesar da tragédia social, continua havendo humor nas páginas do autor chinês

"Crônica de um vendedor de sangue", de Yu Hua

Ler este romance é estar sempre consciente da máxima tolstoiana sobre famílias felizes e famílias infelizes. E mais. É imaginar que, se o encontro literário entre famílias felizes é quase sempre causa de ataques de sono, o encontro entre famílias infelizes é o exato oposto. Não menos porque, isso mesmo, cada encontro entre duas famílias infelizes é trágico à sua maneira.

A ambientação ajuda bastante: estamos na China maoista. Os efeitos de algumas das mais insanas políticas econômicas e culturais da história da espécie vão em breve entrar nos lares de Crônica de um vendedor de sangue. Mas, como se isso não fosse desgraça suficiente, os personagens de Yu Hua ainda vão se impor misérias. Nós temos três personagens centrais. O operário e patriarca Xu Sanguan é o doador do título. Xu Yulan é sua esposa, que, quando não está tendo um ataque de nervos, está à beira de ter um. Juntos, eles tiveram três filhos homens – por ordem de nascença: Yile, Erle, Sanle.

Mas… não. Não é tão simples assim. Antes de casar com Sanguan, Yulan literalmente levou uns amassos de He Xiaoyong, com quem ia se casar, não tivesse Sanguan se engraçado dela e abordado o futuro sogro com uma proposta melhor que a de Xiaoyong. Sanguan era um sujeito de mais posses. Sobrou para Xiaoyong uma mulher franzina, com a qual teve duas filhas. Entretanto, ao nascer o primogênito de Sanguan, este acha o moleque nada parecido consigo mesmo. A cena em que ele alinha os três meninos para examinar-lhes as feições e comparar com a sua própria refletida num espelho é inesquecível. Não sem um bocado de má vontade para com a mulher, Sanguan conclui que Yile é filho de Xiaoyong com Yulan. O que Xiaoyong não aceita. O menino será então empurrado de uma casa para outra, até que de alguma forma se acomoda na casa de Sanguan, mas nem sempre tratado em pé de igualdade com os outros dois irmãos, ou meio irmãos, se a teoria de Sanguan estiver correta.

Então temos aí os três personagens principais: Sanguan, Yulan e o desprezado Yile. E temos as duas famílias cheias de intriga e que chegam a interagir na base dos tabefes. Sanguan diz aos meninos como quer que imprimam sofrimento ao patriarca rival: “Vocês sabem quem são as filhas de He Xiaoyong, não sabem? Sabem. Sabem o nome delas? Não? Não importa, desde que as reconheçam. Lembrem-se: quando vocês forem grandes, quero que violentem as filhas de He Xiaoyong por mim.” Isso não ocorre, mas talvez apenas porque a narrativa não se estende o suficiente.

Xu Sanguan negocia seu sangue pela primeira vez no embalo da venda de dois amigos a quem fazia companhia. Não havia necessidade extrema para tanto. Nem em uma vez seguinte, para falar a verdade – com o dinheiro arrecadado na oportunidade, ele compra alguns quilos de alimento para uma amiga de trabalho (casada), a qual por sua vez amassará. Em breve ele terá que vender sangue ao diretor do hospital local, um membro do PCC, por um motivo menos divertido que presentear uma amante em potencial: ter o suficiente para que a família não morra de fome. Como isso ocorrerá em pleno período da Grande Fome, é muito difícil o leitor apostar que ele terá sucesso na batalha, por mais sangue que venda.

- O autor -

A Fome irrompe nas páginas do realista Yu Hua como irromperia uma nevasca ou um terremoto. Começa o capítulo 18: “Xu Sanguan disse a Xu Yulan: ‘Estamos em 1958. (…) Daqui em diante, parece, ninguém mais vai ser dono de sua própria terra. Todas as terras pertencem ao Estado. Quem quiser plantar vai ter de alugar a terra deles, e quando chegar a colheita também será obrigado a dar parte do cereal ao Estado.’” O capítulo 19 é dedicado à festa de aniversário de Sanguan, que diz aos filhos: “O que eu pergunto é: o que vocês querem comer de verdade? Como é meu aniversário, vou preparar com a minha boca uma refeição para cada um, e vocês vão comer com os ouvidos. Não vão poder comer com a boca porque não existe nada para comer, mas apurem os ouvidos, porque a qualquer momento vou começar a cozinha. Cada um pode pedir qualquer coisa.” No capítulo 20, Sanguan está exaurido demais até para jogos de imaginação: “Dizem que quem passa fome deve completar a alimentação com sono. Eu vou dormir.” O livro tem 29 capítulos. No capítulo 25, irrompe a Revolução Cultural.

Enquanto houver comida para render-lhes energia para brigar e enquanto nenhuma tragédia familiar lhes roubar a atenção, Sanguan, Xiaoyong e as respectivas esposas continuarão lavando suas roupas sujas fora de casa. No meio da rua, para toda a cidadezinha tomar conhecimento – “se Xu Yulan passa três dias sem se sentar na soleira da porta e armar um escândalo”, diz o narrador, “ela começa a se sentir desconfortável, como se estivesse com prisão de ventre há uma semana.”

Apesar da tragédia social que se aproxima, e mesmo quando ela já está em cena, continua havendo humor em Yu Hua. Uma lembrança forte é Graciliano Ramos. O menino Yile pode ser apenas miséria ambulante, em sua condição de possível bastardo e futuro membro de um campo de reeducação, mas os adultos à sua volta, principalmente Sanguan, possuem tanta rabugice que chega a ser engraçado. O Paulo Honório de S. Bernardo, também envolto em tragédias, também hilário em seu comportamento, se me apresentou em vários momentos para fazer companhia a Xu Sanguan. E se isso não bastar para que você leia Yu Hua, paciência.

::: Crônica de um vendedor de sangue ::: Yu Hua (trad. Donaldson M. Garschagen) :::
::: Companhia das Letras, 2011, 272 páginas :::
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Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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