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O absurdo de Ismail Kadaré é muito frequentemente marcado por humor

"O jantar errado", de Ismail Kadaré

“O jantar errado”, de Ismail Kadaré

Este curto romance de Ismail Kadaré, traduzido direto do albanês para o português por Bernardo Joffily, transcorre em 1943 e então em 1953. Em 1943, mês de setembro, tropas nazistas entram na Albânia, que antes havia sido ocupada pelos fascistas italianos. Toda a ação se passa na cidade de Girokastra, localidade medieval, com um tremendo orgulho de si – um pouco mais de orgulho do que o que seria razoável.

Gurameto Grande e Gurameto Pequeno são dois médicos de Girokastra. Quando o comandante das tropas nazistas, Fritz von Schwabe, chega à praça central da cidade, ele toma logo a decisão de se encontrar com Gurameto Grande, com quem estudara na Alemanha. O encontro dos dois, e o jantar que se segue, na casa de Gurameto, é muito estranho. Os moradores de Girokastra, entocados em suas casas, conjecturam sobre o jantar. Seria Gurameto um traidor sujo da pátria, recepcionando alegremente os invasores? Gurameto e Schwabe trocam cochichos ao pé do ouvido durante o jantar e, como resultado, reféns feitos na cidade e mantidos na praça central, aguardando fuzilamento, começam a ser liberados. Seria Gurameto um herói nacional, que negocia habilmente com o inimigo para salvar a pele de seus compatriotas? Grande parte do que será revelado em O jantar errado gira em torno das nebulosas ocorrências e da identidade dos misteriosos personagens desse jantar.

Os meses correm e, com as reviravoltas da guerra, os alemães batem em retirada. Chegam os soviéticos. A Girokastra de Kadaré (aliás, ele é nativo de lá) é um microcosmo das terras de sangue da Europa do século 20, com sua troca de regime totalitário no comando, heróis que viram vilões e vice-versa, população rendida, métodos de repressão indistintos etc.

Já nos anos 50, Gurameto Grande cai na rede da polícia política comunista. O ano de 1953, o leitor está lembrado, viu a morte de Stálin, mas pouco antes viu a busca por médicos judeus que estariam matando premeditadamente líderes de todo o bloco comunista. É nesse contexto que Gurameto é encarcerado, interrogado por agentes albaneses, alemães orientais e russos, e brutalmente torturado – em uma reinaugurada gruta de tortura medieval localizada nos arredores de Girokastra. Gurameto pode ou não sobreviver até que a morte de Stalin aborte a perseguição antissemita que prometia um novo genocídio.

Um trecho de resenha do Independent reproduzido na capa da edição brasileira de O jantar errado diz que Ismail Kadaré é muitas vezes comparado a Gógol e Kafka. Este romance, pelo menos, realmente evoca um pouco do russo. Há um sabor de fábula aqui, que seria trágico se empregado por um escritor ruim qualquer ambientando sua estória na Albânia nazista e comunista. Há certo absurdo também, mas o absurdo de Kadaré é muito frequentemente marcado por humor.

Talvez apenas pelo crivo do humor se pode visitar, en passant, a piramidal incompetência e o incrível desperdício de tempo e suor que comumente ocorria na Albânia. Como a abertura de canais em Girokastra:

As pessoas despertavam antes do sol, empunhavam uma bandeira e partiam em coluna para cavar. Mais tarde, quando se descobriu que alguns canais em vez de aumentar reduziam o fornecimento de água, enquanto outros no lugar de evitar agravavam as inundações, e sobretudo quando isso começou a produzir punições, veio à luz confusamente a ideia de que os canais tinham, além dos objetivos conhecidos, um outro, secreto, que seria inclusive o principal.

Mas nos últimos capítulos a fábula fica simplesmente sombria, e a coisa toda se aproxima de um conto de terror. O recurso do humor, antes empregado, não coadunaria com as cenas de interrogatório e tortura de Gurameto Grande, nem com a violenta paranoia do agente Shaquo Mezini, que vê provocações nos quase não-gestos do alquebrado Gurameto, e interpreta olhares talvez de suplício como deleites diante da anunciada doença de Stalin – que ele sonha reverter, se apenas Gurameto confessar ser um dos cabeças do complô médico-judaico e ele, Mezini, fizer a notícia chegar a tempo em Moscou.

O jantar errado trabalha desde temas como colaboração/resistência até temas mais universais como culpa/inocência, consciência individual, verdade/mentira e, mais interessante, a fragilidade da verdade – no caso, diante da força bruta de agentes da subjetividade travestida de objetividade. No geral, o livro é uma ótima introdução à literatura de Kadaré, e uma pedida obrigatória a quem já o admira de romances passados.

::: O jantar errado :::
::: Ismail Kadaré (trad. Bernardo Joffily) :::
::: Companhia das Letras, 2013, 168 páginas :::
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Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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