PESQUISA

Há três tipos de mentirosos: mentirosos, mentirosos deslavados e Dilma Rousseff

por Daniel Lopes (08/03/2015)

A presidente sugere que o petismo é um inimigo da corrupção. Que piada

dilmatv2932

Quando, semanas atrás, veio à tona que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, havia se reunido “ao menos” três vezes com advogados de empreiteiras pegas na Lava Jato e lhes dito que, ehr, não colocava muita fé em que a operação chegaria às últimas, ou mesmo penúltimas e antepenúltimas consequências – quando isso veio à tona, a primeira coisa que me perguntei foi se a presidente da república ainda teria a cara-de-pau de, no pronunciamento pós-carnaval que acabou virando pronunciamento de 8 de março, sugerir que o petismo tem interesse no combate à corrupção.

Ela teve. É claro que ela teve. Por que não teria? Foi rápido, mas está lá: desde o início da construção do “novo Brasil” (como sabemos, em 2003), está em curso na nação um “fortalecimento moral e ético” que resulta não apenas em “justiça social”, mas também em duro combate contra corruptos. “É isso, por exemplo”, assegurou a presidente, “que vem acontecendo na apuração ampla, livre e rigorosa nos episódios lamentáveis contra a Petrobras” — como se devêssemos acreditar que os engenheiros do “novo Brasil” não foram os mesmos que praticaram os episódios lamentáveis (eufemismo do século) contra a estatal e que tentaram sabotar a investigação livre e ampla dos fatos.

De fato, se você já vai mesmo entrar para a história como chefe de um dos piores governos da história brasileira, por que pelo menos não manter o crédito com o resto da população que acredita em sua palavra? Principalmente, a classe média que se acha ilustrada por defender o legado petista doa a quem doer, mas que na verdade é mitômana e acredita nas teias argumentativas mais improváveis, desde que salvem a cara de Luiz Inácio, Dilma e do PT como um todo. A classe média progressista, enfim, que volta e meia adora fazer uma troça com a credulidade dos cristãos neopentecostais.

Como essa gente viveria se a presidente entregasse os pontos e ficasse inegável até para o Brasil247 que grandes lideranças petistas são atores no maior caso de corrupção de que se tem notícia no hemisfério ocidental? De modo que, ali no meio de um blablablá que, entre outros delírios, insiste em pôr a culpa das nossas dificuldades econômicas na “crise internacional”, pinte-se o governo como um aliado no combate ao assalto de recursos públicos.

Para relembrar: o ministro da Justiça, em um primeiro momento, negou que as reuniões tivessem existido. Logo, mudou a versão, e disse que as reuniões aconteceram, mas que não tratou com os advogados de réus da Lava Jato sobre os rumos da Lava Jato. Os petistas adventistas, claro, compraram a versão. Era a maneira de continuarem a acreditar que o governo tem interesse no combate à corrupção, e não no combate a operações anticorrupção.

Depois, em entrevista à Folha, o ministro disse que “só tive uma audiência para tratar de questões relativas à operação Lava Jato” – tudo, óbvio, dentro da mais republicana legalidade; se alguns encontros não estavam na agenda oficial, foi apenas “por falha do sistema de registro”. Os adventistas se adaptaram à nova versão.

Por fim, o circo veio abaixo quando Veja revelou o que o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, está pronto para deixar gravado na Justiça em um eventual acordo de delação premiada — entre outras coisas, que doou para a campanha de Dilma em 2014 alguns milhões de reais oriundos de propina. Ficou claro que os advogados não foram atrás de Cardozo; Cardozo é que foi atrás dos advogados. Até agora, o ministro e os adventistas negam a versão.

E que maravilha o pronunciamento de Dilma ter sido no Dia da Mulher. Tendo se vendido durante a campanha de 2014 como um Coração Valente símbolo da emancipação da Mulher Brasileira™, com a queda na popularidade logo após a posse colocou o rabo entre as penas e recebeu socorro de Luiz Inácio e João Santana. Mais um calote eleitoral para a conta.

É claro que Luiz Inácio se mostrou mais do que disposto a intervir. Ele tem mais interesse que Dilma e Cardozo em que a Lava Jato mele. O obsceno esquema a que o regime petista tentou submeter órgãos como o Tribunal de Contas da União e a Controladoria-Geral da União só não vingou graças à forte reação de setores da sociedade civil e de funcionários públicos exemplares.

É claro que João Santana prestou socorro. Ele não é um mero topa-tudo-por-dinheiro, como muitos acreditam. Leiam a recente biografia do marqueteiro escrita por Luiz Maklouf Carvalho. Santana se classifica como um socialista – “um dos últimos socialistas românticos e um dos primeiros socialistas cibernéticos”. Para ele, Luiz Inácio e Dilma Rousseff são gênios da raça – isso vindo de um sujeito que almejou entrar no rol dos grandes escritores com um romance simplesmente imperdível.

João Santana firmemente acredita que a campanha de Dilma não abusou, ou mesmo usou, de mentira e golpes baixos contra Marina e Aécio. Comida sumindo dos pratos dos pobres, ele diz, é o que realmente aconteceria se a oposição ganhasse e levasse a cabo suas políticas neoliberais. Suas peças de propaganda apenas dramatizaram o fato.

Pena que as entrevistas foram concedidas a Maklouf Carvalho antes de Dilma adotar cortes em programas sociais e outras medidas que acusava que os adversários tomariam. João Santana diria que Dilma está tirando comida dos pratos dos pobres? Claro que não. Deve haver um outro jeito de interpretar medidas antipopulares quando elas são efetuadas por gênios da raça. Ninguém é socialista romântico à toa. De modo que o marqueteiro correu ao socorro de Dilma. Ele também é, no fundo, um pentecostal.

O pronunciamento da presidente terá algum efeito significativo na recuperação de sua popularidade? Acredito que não. Nas classes médias, quem é ingênuo o bastante para aceitar que o governo combate a corrupção e não é um desastre econômico, já está no papo. Não vejo novos contingentes de gente que lê pelo menos uma notícia de jornal por mês se juntando na avaliação positiva do governo.

Restam os pobres e geralmente desinformados, as maiores vítimas da última campanha presidencial petista. Assim como no ano passado, a esperança do PT e de João Santana é que eles consigam ser feitos de idiotas – agora, para que o governo Dilma volte a ser popular e talvez consiga se arrastar até 2018. Acontece que as principais vítimas da economia desastrosa e do descontrole da inflação serão os pobres, em números cada vez maiores.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

Avatar
Colabore com um Pix para:
editor.amalgama@gmail.com