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A mais triste derrota da Segunda Guerra

por Daniel Lopes (06/05/2011)

Clássico de Marc Bloch explora a auto-derrota moral por trás da derrota militar francesa de 1940

por Daniel Lopes

-- "A estranha derrota", de Marc Bloch --

Aqui vai em um parágrafo a biografia do historiador e militar francês Marc Bloch, para quem ainda não o conhece. Nascido em 1886 em Lyon, era descendente, por parte de pai, de uma família judia. Ele mesmo seria judeu não-praticante, declarando-se orgulhosamente judeu apenas diante de antissemitas. Sempre fiel aos princípios da República francesa, formou-se em história na Sorbonne e em seguida estudou em Berlim. Serviu a seu país na Primeira Guerra Mundial, com o término da qual foi lecionar em Estrasburgo. Teve seis filhos com Simonne Vidal. Pela idade e pela quantidade de filhos, não era obrigado a servir na Segunda Guerra, mas voluntariou-se para tanto. Seu país vencido pelos nazistas em 1940, exilou-se na Inglaterra, mas logo voltou para a França. Em 1943 passou a lutar no movimento clandestino contra os nazistas . Em março de 1944 foi pego pela Gestapo e torturado. Em junho, foi fuzilado junto com outros rebeldes. Antes de descer do caminhão que os levava, tentou acalmar um jovem prisioneiro que chorava: “Vão nos fuzilar, mas não tenha medo, não vão nos fazer sofrer.” Antes de tombar, gritou: “Vive la France!”.

A estranha derrota foi escrito em sua casa de campo, de julho a setembro de 1940, quando de seu retorno da Inglaterra. Algumas notas do autor datam de 1942. a intenção era publicá-lo assim que a França fosse libertada. O manuscrito passou por várias casas de amigo, fugindo dos policiais alemães. A primeira edição apareceu dois anos após a morte de Bloch, a segunda em 1957, a terceira em 1961, sempre sem chamar muita atenção. Apenas a partir da edição de 1990, da editora Gallimard, a obra passou a figurar como uma das mais importantes da historiografia da Segunda Guerra, um relato sobre a capitulação da França em 1940 diante do invasor alemão, escrito ainda no calor dos acontecimentos.

Naquele fatídico ano, Marc Bloch estava na fronteira com a Alemanha, servindo em um estado-maior de infantaria, quando a invasão eclodiu em 10 de maio, às 4 horas e 45 minutos da manhã. Bate em retirada com alguns de seus homens por várias cidades e vilarejos, escapando por pouco de ser pego em Rennes, onde ainda conseguiu ficar hospedado por vários dias em um hotel, tendo se registrado com nome e ofício verdadeiros – o ofício de professor universitário.

Por que a França foi derrotada em 1940? A questão intrigou por muitos anos os pensadores e estudiosos dos mais diversos campos. O fato de a Alemanha ser superior militarmente não bastava para explicar por que houve tão pouca resistência por parte dos franceses e, consequentemente, a invasão tenha sido tão rápida e bem sucedida. O motivo pelo relato de Bloch ter passado e ser bastante valorizado é que 1)seu autor estava bem colocado para entender os motivos técnicos da derrota, mas, além disso, 2)conseguiu explorar com habilidade os motivos morais por trás da derrota militar. Cada uma dessas faces da derrota, por sua vez, é multifacetada.

A tragédia militar mais imediata, observa Bloch, reside no péssimo trabalho dos serviços de inteligência franceses, que, além de não saberem que o número de tanques inimigos era muito maior do que supunham, também não conseguiram decifrar as verdadeiras intenções do outro lado. Em seguida, já com o ataque em andamento, houve uma assombrosa descoordenação com os aliados britânicos, que rapidamente abandonaram partes do continente.

Pouco antes do ataque alemão, os generais franceses debateram quais das duas táticas seguintes deveriam adotar: se plantar bem em solo francês e se preparar com todas as forças e recursos para rechaçar um ataque, ou adiantar suas posições para solo belga a fim de travar por lá o combate com os alemães. Acabaram escolhendo a segunda tática, o que, para Bloch, foi fatal – deixando a linha de seu exército em formato de uma foice, os postos mais avançados foram facilmente cercados e derrotados pelas forças hitleristas, e o solo francês em seguida penetrado sem oferecer resistência digna do nome.

Outro fator além das más táticas contribuiu para a débâcle: a excessiva burocracia francesa, que engessou o país. Eram documentos e comunicados importantes que se perdiam nos mais diversos órgãos, nunca ou apenas com muito atraso encontrando seus destinatários, era o excessivo número de comandantes – “Será que nunca entenderemos [que] quando o número de chefes superpostos é grande demais, a responsabilidade se dilui a ponto de não ser vivamente sentida por nenhum?” –, era o atraso no recrutamento e treinamento de novos praças, e era, quando enfim veio o ataque alemão, o conjunto de regulamentos que não deixava para soldados inteligentes e ciosos de seu dever a menor margem para improvisar para resistir melhor ao inimigo – “[os alemães] acreditavam na ação e no imprevisto. Nós tínhamos jurado fé à imobilidade e aos caminhos já batidos”.

A falta de resistência vinda dos ares foi particularmente dolorosa; ao lembrar que vários aviões franceses simplesmente ficaram pegando poeira em seus hangares, Bloch revela em uma de suas valiosas notas de rodapé que encontrou um aviador civil devidamente convocado mas jamais autorizado a subir em um avião para combater os nazistas.

Jovens e audaciosas, as forças de Hitler tinham um ritmo superior ao dos franceses, com diversos vícios de formação e mentalidade burocrática. Desabafa Bloch:

No local que a sorte lhes destinou [aos solados franceses], seu ritmo cotidiano prolongava a cadência dos tempos de paz e a atmosfera mental tinha um odor poeirento de gabinete ou de distrito. Todos estavam convencidos, sobretudo, de que não estariam no front. Mas o inimigo rompeu o contrato.

No decorrer da guerra, como hoje sabemos, a dinâmica do jogo mudaria (especialmente após a entrada da URSS e dos EUA ao lado de França e Inglaterra), mas Bloch não era vidente, não tinha como prever a invasão alemã da União Soviética nem sua declaração de guerra aos Estados Unidos, e enquanto escrevia em 1940 tinha todos os motivos para ser o pessimista de voz amarga que em momentos do livro revela ser. Ademais, a intenção de Bloch ao notar a letargia do exército francês é, na parte final de seu depoimento, intitulada “Exame de consciência de um francês”, fazer a ligação desse sonambulismo com os vícios da sociedade francesa como um todo. Um exército não é um corpo isolado do restante da sociedade, e embora Bloch não chegue a ponto de dizer que cada país tem o exército que merece, podemos com segurança dizer que uma de suas conclusões implícitas é de que talvez apenas por um milagre aquele exército francês poderia ter se comportado diferente daquela sociedade francesa.

Desta última, Marc Bloch virtualmente não pouca nenhum dos principais atores, a começar pela classe com que ele próprio se identifica, a dos supostos representantes das “tendências autenticamente liberais, desinteressadas e humanamente progressistas”, que “cometeram um de seus erros mais graves esquivando-se de qualquer esforço para se fazerem compreender melhor por um grupo profissional onde subsistiam valores morais tão altos” – uma referência à classe dos jovens militares, facilmente seduzidas pelas ideias da imprensa de extrema-esquerda. A burguesia, distanciando-se das aspirações populares, “se afastava, sem perceber, da própria França”.

-- O autor --

Atravessado por todo o país encontrava-se aquele sentimento de adoração pela França profunda, pela vida campesina, de aversão à máquina e à sociedade industrial. Enquanto a Alemanha “triunfou através da máquina [e] pretende reservar para si esse monopólio”, a França se via tomada por uma literatura que denunciava o “americanismo” e os frutos consumados do progresso material. Ora, avalia Bloch não sem alguma fúria,

é preciso ter a coragem de assumir que o que acabou de ser vencido em nós foi justamente a nossa cara cidadezinha do interior. Seus dias de ritmo tão moroso a lentidão de seus ônibus, suas administrações sonolentas, as perdas de tempo que uma negligência indolente só faz multiplicar, a ociosidade de seus cafés de caserna, suas politicagens de visão curta, seu artesanato de baixo lucro, suas bibliotecas de prateleiras viúvas de livros, seu gosto pelo conhecido e sua desconfiança contra qualquer surpresa que possa perturbar os hábitos confortáveis – eis o que sucumbiu diante do ritmo infernal que o famoso “dinamismo” de uma Alemanha de colmeias vibrantes dirigiu contra nós.

Lendo esse capítulo “Exame de consciência de um francês”, me peguei pensando de vez em quando naquele livro apocalíptico de Jean-François Revel, Comment les démocraties finissent, de 1983.

Revel observa que, no caso de um enfrentamento que eventualmente envolva uma guerra total, a vantagem tática dos totalitarismos contra as democracias é dupla: 1)os regimes totalitários não têm que prestar contas à sua população e podem comandar uma campanha de agressão externa ao mesmo tempo que suprimem a dissidência interna, e 2)por sua própria natureza, as democracias têm que acomodar em seu espaço público os próprios propagandistas do inimigo, como os apologistas do fascismo na Inglaterra dos anos 30 ou os intelectuais e partidos comunistas dos EUA e Europa Ocidental durante a Guerra Fria. É por isso, escreveu Revel, que o mundo todo sabe dos crimes estadunidenses no Vietnã, para onde foram repórteres do mundo todo, principalmente dos EUA, enquanto que, por exemplo, o genocídio chinês no Tibete sequer ganhou os rodapés de livros de história (embora a repressão e os assassinatos continuem, com a imprensa mantida devidamente afastada). E é por isso, previu ele, que não será surpresa se o bloco soviético finalmente triunfar e a democracia entrar para os registros apenas um breve parênteses na história da humanidade. Apenas, Revel subestimou a capacidade da resistência interna ao totalitarismo e superestimou o potencial da economia comunista se manter de pé.

Mas permanece o fato de que o preço do sucesso das democracias sempre foi e continua sendo a eterna vigilância e a disponibilidade para um pronto enfrentamento de movimentos totalitários. Os fanáticos, nacional-socialistas ou de qualquer outra estirpe, acreditam estar de posse da Verdade e da Razão Histórica, e são sempre bastante decididos e comprometidos com sua causa, o que a democracia, eternamente uma obra em progresso e acomodadora de interesses diversos, nem sempre é.

Enquanto Hitler executava seu projeto de opressão e carnificina doméstica e externa, com um Fim em mente e sem tolerar qualquer oposição, a França, para coroar sua tragédia, se viu tomada de greves em setores fundamentais. Apenas nas democracias os sindicatos são independentes do Estado. Os trabalhadores queriam trabalhar menos e ganhar mais. “Em tempos normais, nada mais natural”, diz Bloch. Mas durante um ataque externo?

Existe alguma coisa mais “pequeno-burguesa” que a atitude, durante esses últimos anos e na própria guerra, da maioria dos sindicatos e, sobretudo, do sindicato dos funcionários públicos? Estive algumas vezes em algumas assembleias do meu ofício. Aqueles intelectuais não tratavam sequer das pequenas questões, que dirá das grandes.

Dizer que as cúpulas dos sindicatos pensavam pequeno é uma forma de ver a questão. Outra, é reconhecer que pensavam grande, mas com outras prioridades no horizonte.

Os sindicatos franceses, e não apenas de lá, eram comandados por quadros do Partido Comunista ou por russófilos ou simpatizantes de Moscou. A invasão da França pela Alemanha se deu em maio de 1940. Em agosto de 1939, URSS e Alemanha haviam assinado seu pacto de não-agressão. De repente, em todo o mundo, as mentes teleguiadas a partir da Rússia passaram a ver os nazistas como a ameaça menor. O inimigo prioritário passou a ser o imperialismo britânico ou as próprias “democracias burguesas”, tudo menos o Eixo. Esse modo de pensar, evidentemente, durou apenas até a Operação Barbarossa, em meados de 1941, mas, até lá, não era preciso muita genialidade para compreender a motivação por trás de certos “pacifistas” britânicos contrários à guerra anti-nazi e, na França, por que os sindicatos não viam a defesa da República como algo essencial.

Porque não há dúvida de que as greves foram um movimento da cúpula. Falando de trabalhadores como os ferroviários, Bloch reconhece que são, “em sua imensa maioria”, gente de bom caráter, mas não está certo se “seus representantes” tinham noção da grandeza de suas responsabilidades para com a defesa frente à investida alemã.

Diziam que o capitalismo francês era duro com seus servidores e, com certeza, não estavam errados. Mas esqueciam que a vitória dos regimes autoritários acarretaria inevitavelmente a sujeição quase total de nossos operários. (…) Gostavam de jogar com as palavras e talvez por terem perdido o hábito de encarar o próprio pensamento tenham se enredado nos fios dos próprios equívocos. (…) Eles murmuravam – pude ouvi-los – que os hitleristas não eram, em suma, tão malvados quanto queriam pintá-los: sem dúvida, pouparíamos mais sofrimento escancarando as portas para eles do que nos opondo, pela violência, à invasão. O que não pensam hoje esses bons apóstolos, na zona ocupada, tiranizada, esfomeada.

Na verdade, os apóstolos se virariam ainda alguns meses mais na prática da supressão de pensamentos desconfortáveis. Com a entrada dos soviéticos na guerra, voltariam a se declarar patriotas, pelo menos até 1945.

Marc Bloch era inteligente demais para não saber do papel do pacto Molotov-Ribbentrop no adormecimento da consciência nacional de setores franceses. No entanto, embora, como vimos, ele aborde algumas das mais nocivas consequências finais disso, nunca levanta o tema em si com todas as letras. Por quê? Talvez ele tivesse alguma fé que Stalin pudesse entrar na luta ao lado de Inglaterra e França, ajudando na libertação desta, e não queria alienar em seu texto os companheiros de luta? Mas isso era muito improvável, porque ninguém imaginava a invasão alemã de 41.

Quando nos deparamos com uma pessoa da integridade e capacidade de Bloch, naturalmente aumentamos o nível de exigência. E a verdade é que, no que toca o papel do comunismo soviético na derrota francesa, sua análise fica aquém do esperado. Sabemos que o autor abominava o nazismo e que não era anti-comunista. Mais que isso, revela em seu relato nutrir certo apreço pelo pensamento de Marx. Mas será que nutria alguma esperança na URSS? No outro lado do Canal da Mancha, ainda nos anos 30, Orwell batalhou incansavelmente contra os pacifistas e anti-imperialistas genuínos e contra os pacifistas e anti-imperialistas comunistas, para pôr os pingos nos “is” e desmontar a tese de que o imperialismo britânico representava uma ameaça maior à paz mundial do que a ofensiva nazi-fascista. Na França, Bloch jamais chegou a esse nível de diagnóstico em relação à contribuição das ideologias totalitárias para a derrota francesa de 1940. Não podemos esquecer da quinta coluna fascista e antissemita que recebeu de braços abertos os nazistas. Não podemos subestimar o ódio comum à democracia e às liberdades formais que deixavam extrema-esquerda e extrema-direita menos distantes do que desejariam estar uma da outra – Jacques Doriot (1898-1945), pensador radical e membro do PC francês, aderiu em 1936 ao fascismo e acabaria colaborador do exército de Hitler.

Em alguns momentos, para falar a verdade, não pude deixar de me perguntar se Bloch, com sua análise quase completa, não foi na verdade, já antes de 1940, mais uma das vítimas intelectuais que, conforme ensinou Revel, pavimentam o caminho para a derrocada da democracia.

::: A estranha derrota ::: Marc Bloch (trad. Eliana Aguiar) ::: Zahar, 2011, 172 páginas :::
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— LEIA TAMBÉM —
::: Comment les démocraties finissent ::: Jean-François Revel ::: Grasset, 1983, 332 páginas :::

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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