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E depois da revolução árabe?

por Daniel Lopes (02/05/2011)

Devemos estar preparados para denunciar regimes radicais e autoritários

por Daniel Lopes

No final de 2011, quase certamente já teremos governos constitucionalmente eleitos na Tunísia e no Egito. Por si só, isso já teria valido o ano para o mundo árabe, com todas as expectativas e motivações que os futuros desenvolvimentos nesses dois países continuariam gerando entre os outros povos da região. Mas eis que, após décadas de tirania, de Estados comandados como propriedades de família, o pavio árabe estava ainda menor do que imaginávamos, e a verdade é que, ao final de 2011, podemos ter governos constitucionalmente eleitos ou bem encaminhados para isso também no Iêmen e na Líbia, além de reformas que eventualmente possam levar a essa direção em outros países.

Seria homogeneizar o mundo árabe dizer que suas democracias acabarão todas parecidas. Em cada nação, o processo encontra-se em um estágio e possui uma dinâmica mais ou menos diferente das outras, e o estrangulamento da sociedade civil foi historicamente menor no Egito do que na Síria ou na Arábia Saudita. O fato é que, se não é crível que em poucos anos Egito e companhia serão democracias laicas ao estilo ocidental, também não o é a previsão (muito corrente em círculos conservadores estadunidenses) de que acabarão todos como democracias de fachada e Estados policiais ao estilo iraniano.

Para nós da esquerda de fora do mundo árabe, o que é interessante de se fazer no estágio atual dos acontecimentos, além de continuar apoiando as aspirações democráticas onde quer que haja opressão, é desde logo começar a imaginar quais seriam as reações prováveis e as desejáveis com que alguns de nós receberiam o advento de democracias longe de perfeitas ou mesmo de novos governos autoritários no lugar dos antigos. Como pode concluir qualquer um que veja uma relação dos principais atores organizados no mundo árabe, a assunção ao poder de islâmicos radicais por via eleitoral (para em sequência matar a democracia) ou de regimes seculares igualmente trágicos (estilo baathista) é tão provável quanto o estabelecimento de regimes constitucionais-pluralistas.

Há uma grande diferença entre um país repleto de defeitos que está em processo de aprimoramento democrático e um país repleto de defeitos que está em estado de degradação democrática. Um Egito pluripartidário tentando acomodar em um governo de coalizão algumas ideias moderadas de grupos muçulmanos em troca de apoio parlamentar para, digamos, projetos de desenvolvimento educacional laico, modernização econômica e combate à corrupção, seria um caso bem distinto de um Irã com eleições tão regulares quanto fraudulentas e com uma contínua caça a jornalistas e pensadores não-ortodoxos. Em um cenário como esse, embora na próxima atualização dos índices de democracia Irã e Egito possam ambos continuar classificados como “regimes autoritários”, não restará dúvida de que os egípcios estarão em um processo de reforma democrática e os iranianos continuarão em seu processo de deterioração. E como alguém da esquerda democrática deveria se posicionar diante desses dois casos? Idealmente, me parece que deveríamos apontar os defeitos egípcios e torcer pelo sucesso de suas reformas. E me parece que deveríamos, como já devemos, denunciar os defeitos do regime iraniano ao mesmo tempo que denunciamos a própria essência de sua elite teocrática e sua ambição nuclear.

Infelizmente, o passado e o presente não recomendam que os democratas árabes e muçulmanos depositem todas suas fichas no apoio da esquerda ocidental. Todo progressista digno do nome deveria se opor aos reacionários iranianos com o mesmo empenho com que se opôs (ou teria se oposto, se vivo fosse) à ditadura de Reza Pahlavi. Mas como muitos há décadas observam, para certa esquerda, o critério decisivo para se decidir pelo apoio ou não a um país de maioria muçulmana não é a moderação e a batalha por reformas democráticas/seculares de seus líderes, mas o nível de oposição deste ou daquele governo ao Ocidente – especialmente aos Estados Unidos.

Assim como não é verdade que todo crítico permanente de Israel seja antissemita, não é verdade que todo crítico permanente dos EUA seja antiamericano. Mas é um erro superestimar os poderes de evolução da esquerda. Após diversas ex-ditaduras apoiadas pelos EUA (como Chile e Filipinas) se integrarem bem à ordem democrática e liberal, seria esperar demais de novos velhos militantes que abandonassem as esperanças de ver uma ordem “pós-capitalista” ou algo do tipo desabrochar no mundo árabe. As racionalizações para os desmandos do Irã e o turismo político que diversos intelectuais fizeram no Iraque até outro dia mostram que nem sempre democracia e secularismo são os valores que mais têm em conta.

Tudo começa com desinformações. Vladimir Safatle, professor de filosofia na USP e um dos embaixadores da esquerda na Folha de S. Paulo, publicou um sintomático artigo na mais recente Cult. É um daqueles textos que, pretendendo ser radicais, só conseguem ser exóticos. Como a edição da revista é especialmente sobre as revoltas árabes, Safatle escolheu versar sobre democracia, religião e laicidade.

Existe entre nós aqueles que acreditam que o mainstream islâmico apresenta dificuldades especiais para o florescimento da democracia (entendida no sentido amplo de igualdade de direitos e respeito a crenças, opiniões e estilos de vida minoritários). Esse grupo se subdivide entre os que acham que tal coisa ocorre pelo islamismo ser em si incompatível com a democracia, ao contrário do cristianismo ou do judaísmo, e os que acham que islamismo, cristianismo, judaísmo, nenhuma religião é em si apta à democracia, e a dificuldade maior para o sucesso da modernidade no Oriente Médio se dá pelo fato dos muçulmanos moderados e árabes secularistas não terem ainda subjugado e posto em seu devido lugar o fundamentalismo religioso, como fizemos com considerável sucesso com o cristianismo.

Eu me posiciono neste segundo subgrupo. Vladimir Safatle não se encontra em nenhum deles, mas em um grupo distinto, o daqueles que sequer admitem que existam grandes diferenças entre a atual influência da religião no universo muçulmano e no universo cristão. Nem é preciso dizer que esse é o tipo de “apoio” que os homens e mulheres árabes democratas e religiosamente moderados, em contínua luta contra seus fundamentalistas, menos precisam.

Como não tem em alta conta as históricas conquistas ocidentais no enfrentamento do fundamentalismo religioso (“pretenso progresso histórico”), Safatle não vê por que devamos nesse campo dar lições aos árabes, nem por que estes devam olhar para nossos sucessos como inspiração – muitos desconsideram o conselho e olham ainda assim; um deles, o paquistanês Ibn Warraq, chegou ao cúmulo da capitulação ao Ocidente de escrever um Por que não sou muçulmano, inspirado em Bertrand Russell.

O articulista diz que o “discurso veiculado por organizações como a Irmandade Muçulmana” não é muito diferente daquele da maioria católica brasileira que quer ter voz na “configuração das leis do Estado”. Bem, o discurso pode não ser muito diferente, mas a prática é – a Igreja Católica brasileira sequer impõe maiores empecilhos à liberdade de culto para outras religiões. Mas a prática, para intelectuais como Safatle, é puro detalhe. É por isso que na sequência ele comete o absurdo de equiparar a Irmandade Muçulmana à União Democrata-Cristã alemã – o que é tão cômico quanto colocar lado a lado o clero iraniano e o clero anglicano. Ele não diz que as instituições cristãs da Europa um dia foram um grande empecilho aos valores e práticas da modernidade como a Irmandade Muçulmana é hoje, mas que, neste exato estágio da história, o grupo fundamentalista muçulmano e a democracia-cristã europeia se equivalem. Bem que podíamos combinar uma coisa: se você decidir ajudar os árabes e ajudar os ocidentais a entenderem o mundo árabe, reduzir as diferenças entre o partido de Angela Merkel e os misóginos da Irmandade a quase nada não é a melhor forma de começar.

Em outro momento, lemos que o fundamentalismo islâmico “tem, no máximo, 30 anos” de vida. Isso dá aí por 1980. Se Safatle disser uma coisa dessas para um grupo de estudantes secundaristas árabes, é capaz de perder o visto no ato e ser expulso como um agente estrangeiro encarregado de entorpecer as consciências orientais. Mas nós sabemos o que ele está tentando fazer com o leitor brasileiro, não sabemos? Ele quer colocar o fundamentalismo islâmico na conta do imperialismo ocidental, mas aquele dos últimos 30 anos, ou seja, ele quer colocar o fundamentalismo islâmico como fruto de meros interesses estadunidenses, seja porque o país apoiou os mujahidin contra os soviéticos no Afeganistão ou porque o fundamentalismo iraniano teria surgido apenas como consequência da ditadura do xá. Vá lembrar que o wahhabismo teve origem no século 18.

Denunciar as hipocrisias e desmandos das potências ocidentais – prática corrente desde o maternal – não basta. Nos próximos meses e anos, devemos também evitar e denunciar bobagens como essas que vez ou outra ganham veículos sérios, se tivermos mais interesse em ver o mundo árabe progredir do que em fazer sucesso junto a agrupamentos ideológicos domésticos. Pessoas como Safatle encarnam a outra forma de orientalismo, aquela que deturpa a compreensão do “Outro” com base no relativismo rasteiro e na mania de culpar o Ocidente por todos os males do mundo. Quando se diz que o fundamentalismo islâmico tem no máximo 30 anos, se está levando em conta apenas seus efeitos mais espetaculares na consciência ocidental, e desconsiderando o sofrimento que há séculos causa a árabes e muçulmanos por todo o mundo. Esse orientalismo já provou que está disposto a colocar para terceiro plano os atos de grupos fundamentalistas e regimes autoritários, desde que se oponham suficientemente à “tão facilzinha alternativa democrático-liberal”, nas palavras do filósofo marxista Slavoj Zizek, corajoso batalhador pelas causas perdidas.

É precisamente esse tipo de intelectual ocidental que o iraquiano Kanan Makiya denunciou em seu Cruelty and Silence, um livro que há muito passou da hora de ser traduzido no Brasil.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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