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Espancou a namorada e foi cantar na televisão

por Daniel Lopes

-- PP: De certa forma, ele representa um fenômeno nacional --

 

Paulynho Paixão é um artista medíocre. Ele canta. Canta música brega, apesar de seu aspecto jovial. Não são muitos os novos cantores de música brega, um estilo mais associado com artistas já de idade enfeitados com anéis, pulseiras e colares de ouro de algum quilate. Que eu saiba, Paixão só lançou até agora um disco. É esse disco que toca interminavelmente em um bar perto da minha casa, quando beiro a loucura nos finais de semana em que quero ler alguma coisa. Não sei o que é pior no disco: as letras, a voz do cantor ou as notas enjoativas do teclado. Coisa ruim assim devia dar cadeia.

Mas, ao que parece, não é apenas quanto ao estilo musical que Paixão é retrógrado, e a música não costuma ser sua única vítima. Na madrugada da última terça-feira, uma ligação anônima levou a Polícia Militar até um carro estacionado na Vila Mandacaru, dentro do qual uma mulher gritava por socorro. Chegando lá, os policiais encontraram Paulynho Paixão no banco da frente e uma jovem no banco de trás, ensanguentada e apenas de camisola. A jovem foi levada ao Hospital de Urgências de Teresina, com vários hematomas e em estado de choque, pedindo para ter o corpo todo coberto. Há algumas fotos na internet, mas evitaremos a pornografia da violência. Paixão disse aos policiais que havia ocorrido apenas uma briguinha de casal. Não convencidos, os PMs o conduziram à Central de Flagrantes.

Primeiro detalhe chocante: a namorada do cantor era uma menor de 15 anos. Segundo detalhe chocante: o cantor já está solto. Terceiro detalhe chocante: o cantor está sendo tratado a pão de ló pela imprensa.

Se Paulynho Paixão fosse mais do que uma nulidade artística e tivesse se apresentado em Nova York e batido em uma prostituta, provavelmente não cantaria mais nem debaixo do chuveiro. Estando no Brasil, ele volta a cantar em horário nobre. Cantou na tevê Cidade Verde, afiliada SBT. Deu um entrevista com sua “versão dos fatos” na tevê Clube, afiliada Globo. Não basta para nossos jornalistas que o acusado conte com todas as leniências e lerdezas da justiça? Ainda têm nossos âncoras que abrir espaço para o crápula dar sua versão?

Sua versão é muito simples. Após um freio brusco, a jovem teria batido o rosto no painel do carro. Como assim? Então, depois do acidente, ao invés de levá-la ao hospital, ele a levou apenas para o banco de trás? E os hematomas em diversos locais? E a briguinha de casal? E a denúncia da família de que a menor já havia sofrido agressões menos sérias antes? Bem, Paulynho preferiu cantar na Cidade Verde uma nova música dedicada a sua musa hospitalizada. Vou chamar isso de deboche, enquanto não encontro uma palavra melhor.

Dizer que, em casos como esse, a imprensa dá espaço para o “acusado” apenas porque está em busca de audiência é metade da verdade. Sim, os apresentadores e repórteres patetas parecem se ver com o simples dever de animar audiências. Mas imagine que um pai tivesse espancado a filha de 15 anos a ponto da menina ir para o atendimento de urgência. Alguém acredita que canais de tevê abririam espaço para ele dar sua versão do ocorrido, usando como desculpa o fato do caso não ter sido ainda “transitado e julgado”? Claro que não. A repulsa do público seria grande demais. Mas se a agredida é apenas uma namorada, parece se tornar razoável convidar o agressor para um papo e para tocar violão, e o público aceita. Tudo vira diversão entre amigos, transmitida no horário do almoço.

Quando foi que chegamos ao fundo do poço?

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atualização: meu texto já tinha ido ao ar quando soube que a menina declarou hoje na tevê, ao vivo, que foi tudo um acidente e aceitou casar com o artista. estranho a Cidade Verde fazê-la passar por isso. permanecem os fatos: 1) quando a PM chegou para prender o artista, ele disse que havia tido com a namorada uma briga de casal; 2) em seu depoimento à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, no dia 25, a menor disse que foi agredida dentro do carro; 3) a menor e sua família haviam dito que estavam sofrendo pressão para não prestar queixa contra o artista; 4) a menor voltou ainda ontem à noite ao hospital, com dores de cabeça e vomitando sangue, o que transformaria a freada brusca em uma das mais sérias já registradas; 5) a experiente delegada Wilma Alves, da Delegacia da Mulher, ao ver as fotos dos hematomas, disse não ter dúvida de que eram resultado de agressão;  6) e, claro, a hospitalidade da imprensa ao artista. é sempre bom valorizar a prata da casa ]

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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