PESQUISA

Ser ou não ser politicamente incorreto, eis a não-questão

por Daniel Lopes (25/05/2011)

Não podemos passar sem o polit. incorreto, mas ele não é o mais importante

por Daniel Lopes

Parece que enfim perdeu-se a paciência com as declarações infelizes de personalidades brasileiras descoladas. Desencadeou-se na mídia a denúncia do politicamente incorreto. Este não passaria de uma moda, logo a ser superada. Teria virado a nova ortodoxia, geralmente levada a cabo por rapazotes sem talento criados a base de ovomaltine, sendo por consequência um comportamento eminentemente elitista.

O caso mais em exposição é o de Danilo Gentili, que, a partir da oposição de moradores de Higienópolis à construção de uma estação de metrô perto de suas casas, disse que tal se deu porque “a última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”. Compreensivelmente, Marcelo Coelho foi à loucura na Folha e Marcelo Rubens Paiva em seu blog no Estadão, denunciando o fenômeno do politicamente incorreto de uma forma geral. O colunista da Folha está certo quando diz que “’politicamente incorreto’, na verdade, é um rótulo enganoso. Quem diz essas coisas não é, para falar com todas as letras, ‘politicamente incorreto’”, embora esteja menos certo na sequência – “quem diz essas coisas é politicamente fascista.” Danilo Gentili com certeza não é fascista, não mais do que FHC foi, na acusação de Fausto Wolff, genocida. Rubens Paiva também não precisava ter evocado o “neofascismo”. É preciso ter cuidado na utilização desses conceitos.

De fato, se observada com frieza, veremos que a colocação de Gentili não foi movida pelo genuíno impulso politicamente incorreto. Este choca, lembre bem, pelo imprevisto. Quando, no calor de um acontecimento, todo mundo está te esperando concordar ou discordar a partir de pressupostos do senso comum, de frases pré-arranjadas, você aparece com algo fora do comum. A “piada” de Gentili certamente foi inesperada, mas os termos e o raciocínio… Metrô, ricos, vagões, judeus, Auschwitz… Sacaram?

Exatamente pelo fato da colocação do aspirante a humorista ter sido banal, não entendo o excesso de atenção que o caso vem tendo. Vai ver porque foi um estopim. De qualquer forma, mostra mais da nossa falta de compreensão e tradição com o politicamente incorreto do que qualquer outra coisa. O politicamente incorreto não é um fenômeno novo. Existe pelo menos desde Jonathan Swift. No Brasil, pelos menos da “Constituição Cidadã” até recentemente o politicamente correto foi tão reinante na academia, na imprensa e nos discursos chancelados por estas, que ir contra a corrente era quase um ato de patriotismo.

Mas para ir contra a corrente é preciso ter talento. Muito da miséria intelectual dos anos recentes se deveu ao fato de imbecis acharem que para ser politicamente incorreto não era preciso grande esforço. Ora, se nem todo politicamente correto é um Nelson Mandela, nem todo politicamente incorreto é um Bill Maher ou um Millor. Como por um bom período não houve muita concorrência na área, e como ler em uma segunda língua nunca foi um dos passatempos preferidos da classe média brasileira (aliás, nem em uma primeira), o grande ídolo da turma descolada acabou sendo Diogo Mainardi. Às vezes, Mainardi tinha momentos de pouca inspiração, às vezes demonstrava talento. Mas a nova leva de politicamente incorretos que se juntou a Mainardi lembrava quase sempre o lado pouco inspirado do mestre. Daí, a grande chatice do “movimento” no Brasil: há cotas? sou contra, há repressão? sou a favor, há nordestino falando errado na televisão? vou debochar, há deputado machão na tribuna da Câmara? vou defender.

Até onde enxergo, o politicamente incorreto não é a nova ortodoxia. Isso é positivo, já que muitas vezes o politicamente incorreto simplesmente é… errado. O que dizer do pessoal que se acha moderno e achou o máximo a repressão policial à “marcha da maconha” em São Paulo? Talvez devessem pedir a opinião de algum jurista europeu ou norte-americano a respeito do evento. Bolsa Família e assistência social é coisa de país zé-povinho-banguela sem futuro? Paul Krugman tem algo a ensinar sobre como os EUA deixaram de ser um frágil país de miseráveis para se tornar um forte país de classe média. Mas, Paul Quem? Pelo menos esse o Mainardi podia recomendar pras moçoilas.

Se o politicamente incorreto não é a nova ortodoxia e isso é bom, também é verdade que não podemos passar sem ele. Indivíduos como Danilo Gentili apenas devem ser denunciados a seus patrões como péssimos empregados ou a conselhos regionais de humoristas como denegridores do bom nome da profissão. Não é correto pregar nele o rótulo “politicamente incorreto” e mandar brasa. Essa crítica no atacado acaba sendo uma defesa do politicamente correto. E o dogmatismo politicamente correto ainda é mais perigoso do que o incorreto, porque é mais frequente e talvez sempre seja. É politicamente correto dizer que os africanos não têm grande responsabilidade pela miséria de seu continente ou isentar os árabes de responsabilidade por sua pobreza material e fundamentalismo religioso, mas é também ridículo. Ser politicamente incorreto aí é simplesmente ter os fatos em boa conta. Foi politicamente correto em 2007 achar que os teresinenses que tomaram uma praça para quebrar aparelhos Philips (em imagens reproduzidas com aprovação em pelo menos um grande site progressista) eram menos ridículos do que Paulo Zottolo, mas é no mínimo uma opinião respeitável achar que na verdade ambos estavam igualmente com demasiado tempo de sobra.

Não podemos passar sem o politicamente incorreto principalmente na academia. Como um incansável iniciador de cursos superiores na primeira metade dos meus vinte-anos, sei que é algo muito próximo de crime criticar o cânone relativista ou compartilhar da opinião de que passar infinitas horas-aula com as críticas de Foucault e Marcuse à sociedade moderna é desperdiçar momentos preciosos de uma vida infelizmente curta. O ideal ainda é aplicar a cada situação específica o poder de análise, a calma, para enfim expressar um juízo em linguagem de gente adulta ou com humor inteligente. Às vezes esse juízo será politicamente “correto”, às vezes será “incorreto”, e é natural que muitas vezes haja mais de uma corrente de opinião respeitável sobre temas os mais espinhosos. Os pontos determinantes continuarão sendo os de sempre, inteligência e honestidade intelectual. Os críticos do politicamente incorreto pretenso ou de má qualidade devem dar o exemplo ao não seguir Rubens Paiva no anúncio de conversão súbita ao politicamente correto e ao guardar termos como “fascismo” e “neofascismo” para ocasiões mais propícias.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

Avatar
Colabore com um Pix para:
editor.amalgama@gmail.com