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Um homem bom está por toda parte

por Pedro Almendra (15/05/2018)

Em "Três anúncios para um crime", a redenção de Mildred Hayes vem precisamente através de um leve riso.

“Give me a soul that knows not
boredom, grumblings,

sighs and laments, nor excess of stress,
because of that obstructing thing called “I.”

Grant me, O Lord, a sense of good humor.
Allow me the grace to be able to take a joke
to discover in life a bit of joy,
and to be able to share it with others.”

“Prayer For Good Humor”,
Saint Thomas More

 

Três anúncios para um crime, já em princípio, se revela quando exibe o livro A good man is hard to find de Flannery O’Connor, nas primeiras cenas. É presságio. O espírito mesmo do filme parece retirado dos contos da escritora americana: o bom e velho sul norte-americano com seus defeitos e suas belezas enfatizados em simultâneo; do racismo caricato à fé mais genuína; e, claro, o tema cristão, cujo fundamento, como bem comprovou Lucas Petry Bender em outro ensaio para este site, é o perdão. Tudo isso traz em si a assinatura de Flannery O’Connor (grande influência, aliás, dos Irmãos Coen, a quem o filme deve muito).

Entretanto, aquilo que mais me intrigou, que é em si uma característica de O’Connor, foi não apenas o fundamento da obra, mas o meio pelo qual ele fora transmitido: o modo com que o diretor aborda a fronteira entre a tragédia e a comédia.

A princípio, trata-se de uma típica tragédia. Pesada, por vezes. A filha da protagonista é não somente estuprada e queimada viva, mas estuprada enquanto queimada viva. O chefe de polícia, portador de câncer, se suicida. O segundo protagonista, policial caricato, racista, homofóbico, tudo de ruim, além de espancar brutalmente um homossexual, é quase queimado vivo. E por aí vai: fatos trágicos que beiram o deplorável sucedem um ao outro em uma trama que, porém, não transmite qualquer peso mórbido.

Da agonia vem o pranto; do pranto, a angústia e súbito, porém, a gargalhada. Por outro lado seria de um reducionismo preguiçoso acusar “humor negro” e parar por aqui. Não – é precisamente o riso que revela o sentido da obra.

Devo ressaltar o porquê de dar tanta importância a essa liberdade que permitiu tanto Martin Mcdonagh como Flannery O’ Connor oscilarem com tanta destreza por entre os gêneros. Hoje em dia tendemos a tomar por garantida essa liberdade. Mas a verdade é que não o é, de forma alguma. Seria impensável esse tipo de oscilação, por exemplo, na Grécia antiga – no mundo clássico*. A comédia e a tragédia tinham um papel um tanto definido entre os gregos. Os homens eram divididos entre os que possuem areté e os que não possuem. O herói trágico é o homem de alma ungida, e o humor é reservado ao resto que não gasta a atenção dos deuses.

Somente em nomes como Shakespeare, Dostoiévski, Cervantes e, claro, Dante, poderemos observar um modo similar de oscilação. E aí está revelada uma diferença por vezes esquecida entre o mundo clássico e o mundo cristão.

Quando no mundo clássico a diferença entre os homens dignos da atenção dos Deuses e os homens medíocres era clara, no mundo cristão isso muda substancialmente. O homem ridículo, baixo, perseguido é, súbito, divinizado, pois Deus vem na forma de um. Por outro lado, César se revela corruptível; a própria justiça se revela falível. No cristianismo, o homem é a um só tempo universalmente salvo pela redenção, e universalmente marcado pelo pecado original.

Além disso, no mundo clássico, os gêneros eram, de certa forma, sacralizados; seu ordenamento vem dos Deuses, e não cabe, pois, ao homem alterar a ordem já posta. Eis que esse ordenamento se revela
falível – portanto maleável –: o que tinha por glória era corrupção e o que tinha por corrupção era glória. Surge, pois, um potencial de liberdade artística nunca antes visto.

Com a nova liberdade entregue ao mundo, hoje abundante e inclusive secularizada, é de intrigar o fato de que, especialmente entre os grandes autores cristãos (como em todos os supracitados), seja observável uma clara preferência pela comédia. O gênero, antes menor, é agora divino, como ironiza Boccaccio ao incrementar o título da comédia de Dante.

Comentando esse paradoxo, W.H. Auden chegou à conclusão de que “a comédia não é apenas viável no mundo cristão, como é também capaz de atingir proporções mais amplas e profundas do que atingiu no clássico”. Ora, em um mundo determinado como o clássico, onde os homens de alma nobre e os de alma baixa já estão marcados, rir do homem baixo só pode servir ora para lembrar o detentor da areté do quão bom é ser quem é – como nos bullyings de escola –, ora para aliviar o homem baixo do fardo de ser quem é. Não indo muito longe do entretenimento em ambos os casos.

Bem, com a universalidade da salvação, tudo muda. Insisto: o homem caído pode tranquilamente levantar-se em poucos minutos. E, no mais das vezes, esse levantar-se, é tão somente o esforço de rir de si mesmo.

É o esforço de reconhecer seus erros como são: piadas. Daí que por vezes o esforço romanesco é justamente este exercício: o de rir de quem se é para deixar de sê-lo. Situar o erro no lugar dele, no inferno, o que é, no fim das contas, cômico. É precisamente isso que faz Dostoiévski em Memórias do
subsolo
, por exemplo.

Ora, no filme, a redenção de Mildred Hayes vem precisamente através de um leve riso – o seu único – em uma trama tão pesada. Ela ri de uma piada a respeito de seu próprio rancor, que era, pois, ridículo e injustificável. O policial deplorável e caricato – Jason Dixon – se redime e descobre o perdão; agora estende a mão à sua algoz.

A fidelidade que a trama tem com sua resolução pode dar a impressão de que Martin Mcdonagh deixou o final em aberto por pouco mais que um capricho. Há verdade nessa impressão. De fato, pelo que se tem da trama, não há razão para pensar que eles viriam a assassinar o estuprador aleatório. Por outro lado, a escolha do diretor é precisa. Deixou o final em aberto, pois, assim como na vida, tanto o caído pode levantar-se a qualquer momento, como o redimido pode cair de novo. Não há certeza. Por vezes, quem perdoa, súbito, estará pedindo perdão.

Um homem bom é difícil de encontrar. Porém, um homem bom está por toda parte. À espreita. Dentro de nós esse homem bom já é de difícil encontro. E quem não o encontrou pode vir a fazê-lo ao nascer do sol; perdê-lo no começo da tarde. A esperança de que todos podem encontrá-lo; a consciência trágica de que ele se perdeu de nós. Ambas as vias levam ao perdão.

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P.S.: Para uma explicação mais detalhada acerca do impacto do cristianismo na hierarquia clássica dos gêneros, ver os ensaios Sacrae scripturae sermo humilis e Sermo Humilis de Erich Auerbach.

Pedro Almendra

Estudante. Vive em Teresina. Blog: pedroalmendra.wordpress.com