PESQUISA

Em defesa do camarada Hitchens

por Daniel Lopes (17/06/2011)

Como outros da geração 68, ele saiu da esquerda ortodoxa e se revigorou para lutas antigas

por Daniel Lopes

-- "Hitch-22", de Christopher Hitchens --

All those who have had similar or comparable
experiences will recognize the problem at once: it is
not possible for long to be just a little bit heretical.
C.H.

Parte do interesse (e prazer ou miséria) em ler as memórias de um jornalista e ensaísta de vida toda, um jornalista e ensaísta de quem gostamos muito, deve-se à consciência de que aquele empreendimento quase certamente será o mais próximo que o autor jamais chegará de escrever uma ficção. Nas reportagens, artigos rápidos, resenhas e ensaios do autor, nos familiarizamos e afeiçoamos com seu estilo, mas nas memórias, enfim, o estilo vai ao encontro dos temas mais íntimos.

Então agendei a leitura de Hitch-22 logo que soube do lançamento em 2010, consegui um exemplar dia desses e li em um final de semana. É um livro maravilhoso. Está saindo agora no Brasil em edição da Nova Fronteira. Devo dizer que adoraria folhear a versão brasileira e dar uma opinião, amadora que fosse, sobre a tradução, mas infelizmente a editora não está entre aquelas que enviam lançamentos para o Amálgama, de modo que – apesar desse (sem dúvida) evento literário servir de pretexto ideal para a publicação desta resenha, e apesar de estarmos indicando a versão brasileira no início e no final do post – as citações do Hitchens que aparecem abaixo são de minha inteira responsabilidade.

Em meio a parênteses, dispersões e digressões, temos a trajetória íntima/política do anglo-americano (embora ele ache o termo ligeiramente absurdo) Christopher Hitchens. Tendo nascido como nasceu, crescido onde cresceu, estudado onde estudou e trabalhado onde e como trabalhou, seria impossível separar as duas esferas ou colocar a esfera política para segundo plano.

Abrindo o livro aleatoriamente e lendo algumas sentenças, você vê na hora os traços particulares de seu autor. Isso não é tão óbvio quanto pode parecer. Não é óbvio que possamos reconhecer na lata o autor de uma memória baseado em alguns trechos desta e no conhecimento que temos de sua obra anterior, como não é óbvio que possamos reconhecer que poeta é autor de tal ficção baseado no conhecimento que temos de sua obra em versos. Mas tudo bem. Aqui temos uma descrição do general Videla enquanto ditador, momentos antes de conceder uma entrevista ao autor: “Magrelo e medíocre em aparência, com um bigode raquítico, ele parece para todo mundo como um cretino personificando uma escova de dentes.” Páginas depois, uma opinião sobre tele-evangélicos como Falwell e Pat Robertson: “Balões de gás cheios de ganância e cinismo.” Tufos de página após, um veredito sobre os fanáticos israelenses cheios de si: “Desconsidere a procuração divina para a ocupação da Terra Santa e como você fica? Apenas outro ladrão de terra como os turcos ou os britânicos, exceto que nesse caso você quis a terra sem o povo.” E sempre aquela preocupação em fugir do lugar comum, que às vezes beira a obsessão.

Os capítulos são organizados mais ou menos por ordem cronológica, mais ou menos tematicamente. Bem feito. Assim, o capítulo sobre a Mesopotâmia vai desde suas primeiras viagens ao Iraque baathista, no início dos anos 70, até seu apoio à deposição de Saddam em 2002/3. O capítulo anterior, “Salman”, vai de meados dos anos 80, quando conhece o autor dos Versos Satânicos, até a fatwa que a teocrata-mor iraniano soltou contra Rushdie em 1989. Os capítulos sobre sua mãe (“Yvonne”) e seu pai (“O Comandante” britânico que lutou contra os nazistas) são naturalmente os primeiros.

As duas passagens em que Hitchens mais se emociona e emociona o leitor são as que narram a trajetória que veio a culminar com o suicídio de Yvonne em 1973 e, lá pelo final, sua reação diante dos atentados de 11 de Setembro de 2001. Isso revela muito de Hitchens. Yvonne era de família judaica, mas levou esse segredo para o túmulo, temendo, primeiro, não ser aceita pela conservadora família protestante do futuro marido e, depois, não atrapalhar a ascensão dos dois filhos na escala social britânica ou pôr complicações em suas cabeças. Ela se matou na Grécia, após um pacto de suicídio com o amante. Hitchens já havia conhecido o amante em Londres, por assim dizer o aprovando, o que deixou a mãe tranquila – era uma família à frente de seu tempo. Tudo parecia estar indo bem, até que os dois resolveram pôr cabo nas próprias vidas em um hotel de Atenas.

Outra revelação maior de Hitchens é sem dúvida sobre sua experiência homossexual, na infância e na juventude. Tudo casual. Estando em colégio de meninos em idade de descobrir a sexualidade, se viu provando do que todos provavam. Na juventude, se divertiu com dois futuros ministros do conservador governo de Margaret Thatcher. Além de ficar sabendo que gosto tem a experiência homossexual, esses fatos deixaram maiores impressões em seu caráter? Sim, eles ajudaram a mostrar que seu verdadeiro talento era para a heterossexualidade. E isso, também:

(…) tendo sido o objeto de atenção homossexual e ciúme predatório – isso continuou acontecendo até quando eu estava quase fora da universidade –, acredito que o conjunto da experiência me deixou com alguma simpatia pelas mulheres. Quero dizer com isso que eu sei o que é ser o recipiente de abordagens indesejadas e mesmo coercivas, ou ser abordado subrepticiamente sob o disfarce da amizade.

Sendo um livro de Hitchens, eu esperava que Hitch-22 tivesse mais de religião. Não digo da trajetória precoce do autor rumo ao ateísmo, já devidamente registrada em Deus não é grande, mas do próprio sucesso dessa sua obra antireligião e do que aconteceu em seguida, inclusive com sua assunção para o lado Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris. Há entre as fotos encartadas de Hitch-22 uma desses quatro senhores, com a legenda debochadamente indicando tratar-se do “encontro inaugural da facção ‘Os Quatro Cavaleiros’ no meu apartamento em Washington”. Seria interessante ler mais dessa parte de sua vida, que certamente teria rendido relatos divertidos. Ao invés disso, o nível de seu apreço por religiosos e pela ideia de religião aparece apenas en passant, como quando fala dos padres que abençoavam os trabalhadores da Escola de Mecânica da Armada, centro de tortura na Argentina, ou do capelão anglicano do cemitério ateniense no qual quis descansar o corpo da mãe com as devidas cerimônias, atendendo a desejos da falecida:

O reverendo de expressão bovina não queria realmente realizar seu serviço. Ele resmungou um pouco sobre a dificuldade de suicidas serem enterrados em solo consagrado, e talvez tivesse algo a dizer sobre minha mãe ter sido surpreendida em adultério… De qualquer forma, empurrei algum dinheiro em sua direção e ele se tornou amuadamente submisso, como o clero geralmente fica. Ele teve sorte, no entanto, de eu não poder sentir por ele e por sua religião doentia mais repugnância e desprezo do que já sentia. Se eu fosse um protestante convicto, de qualquer persuasão, ele teria rapidamente descoberto o efeito de uma bota quando plantada em seu traseiro murcho.

Puro Hitchens. Como também hitchensiana foi a experiência de peregrinação política, nos verdes anos de esquerdismo extremado.

Ou talvez jamais extremado. Para Paul Hollander, uma característica fundamental do verdadeiro peregrino político do século 20 – aquele que se encantou com Cuba, China, União Soviética e/ou outras moradas da utopia – era o estranhamento de sua própria sociedade. Intelectuais estadunidenses ou da Europa ocidental primeiro se indignavam com os males de sua sociedade (reais ou imaginários), para em seguida idealizar em outros sistemas o ideal, ou pelo menos o preferível.

Com esse qualificativo em mente, só podemos concluir que Hitchens jamais foi um verdadeiro peregrino. Embora tenha ido para Cuba em 1968, Hitchens, embora ciente das falhas e crimes da Grã-Bretanha e do Ocidente em casa e no exterior, já havia provado o bastante das liberdades formais da democracia liberal para saber que o sistema não era de todo reprovável, como queriam alguns de seus colegas da esquerda, e que se algum outro sistema quisesse se apresentar seriamente como uma alternativa, teria que dar duro. Mesmo para um trotskista, nosso autor era demasiado heterodoxo.

Assim é que, em Cuba, com a maior boa disposição do mundo, assistindo discursos infindáveis e colocando a mão na massa em um campo coletivo, percebe no fundo as deficiências do regime. Dando uma volta de bicicleta pelo campo de trabalho voluntário, resolve sair para dar uma olhada nos arredores, mas é impedido de fazê-lo por alguns rapazes que se mostraram ser soldados. “Quando lhe dizem que você não pode deixar um lugar”, opina Hitchens, “as atrações desse lugar podem ser muitas, mas seu encanto instantaneamente se esvaziará”. Não está ele, descrevendo sua experiência, escrevendo em nome de todos os cubanos que ao longo das décadas se tornaram prisioneiros em seu próprio país, ainda que fora das grades? Uma opinião final sobre a ilha: “O socialismo cubano parecia demais com um internato, de uma forma, e de outra parecia demais com uma igreja.”

Em breve o jovem Hitchens vai descobrir que, independente de esquemas ideológicos, sua simpatia está com aqueles privados de suas liberdades. No contexto dos anos de Guerra Fria, isso às vezes significava que você estaria “objetivamente” jogando em prol da “reação”. Mas 1968 serviu a Hitchens, como a muitos outros, como um movimento libertador em mais de um sentido. Deu-lhe, por exemplo, um impulso para conhecer o mundo e ver de perto diversas lutas políticas. Desta forma, bem quando a esquerda ocidental estava ficando ociosa em suas vertigens intelectuais, cada vez mais ininteligíveis, Hitch tirou por cima.

Quando 1968 começou a declinar em 1969, e quando “anticlímax” começou a se tornar uma palavra real em meu léxico, outro termo começou a se impor. As pessoas começaram a entonar as palavras “O Pessoal é Político”. No momento em que ouvi pela primeira vez essa expressão mortal, eu soube, como sabemos após a afirmação de qualquer besteira, que aquilo era – talvez um clichê seja perdoável aqui – uma tremenda má notícia. De agora em diante, seria o bastante ser membro de um sexo ou gênero, ou subdivisão epidérmica, ou mesmo de “preferência” erótica, para se qualificar como um revolucionário. (…) Há várias maneiras de datar o momento em que a esquerda perdeu ou – prefiro dizer – descartou sua vantagem moral, mas essa foi a primeira vez que presenciei a venda ocorrer de forma tão barata.

Enquanto a Europa livre via a esquerda multi-culti começar a maltratar o universalismo, surpreendemos Hitch em Lisboa, 1974, presenciando a queda do fascismo português – que, junto com a queda do fascismo espanhol, representou o capítulo final da luta iniciada em 1939. Ter vivido esse evento, escreve Hitchens, “me permitiu continuar vendo a esquerda como uma força ainda em luta por primeiros princípios contra os inimigos tradicionais.”

Então temos aí Christopher Hitchens solidamente na esquerda. Temos Hitchens indo ao Chile em plena ditadura, na Argentina entrevistando o estuprador de presas políticas Videla, aproveitando a oportunidade para perguntá-lo pelo paradeiro de uma presa e o obrigando a dar uma resposta constrangedora sobre crimes ideológicos. Temos, mais avançado nos anos 80, Hitchens se juntando em definitivo ao staff do tradicional semanário esquerdista The Nation. Temos Hitchens pegando no calcanhar de Henry Kissinger e Bill Clinton durante toda a década de 90, pelo apoio logístico e moral que aquele senhor emprestou aos mais diversos tiranos e tiranetes em todos os continentes. E temos, em 11 de setembro de 2001, os ataques em Nova York e Washington. A primeira, a cidade mais querida de Hitchens, a segunda, seu lar.

No dia 10 de setembro de 2001, nosso autor está dando uma palestra no Whitman College, estado de Washington. A palestra, um ataque a Henry Kissinger, lembrava que no dia seguinte haveria um julgamento histórico: a família de um general chileno assassinado após o golpe de 1973 estaria tendo seu processo contra Kissinger (que deu suporte à derrubada do governo Allende) apreciado em uma corte federal de Washington, D.C. De modo que o palestrante se viu encerrando sua fala da seguinte forma: “Então, camaradas e amigos, irmãos e irmãs, seremos capazes de dizer que amanhã – 11 de setembro de 2001 – será por muito tempo lembrado como um dia chave na batalha pelos direitos humanos.” Na manhã seguinte, ainda no hotel, é acordado por um inoportuno telefonema da esposa, que lhe diz: “Se você ligar a TV, verá que o julgamento por crimes de guerra de Henry Kissinger foi brevemente adiado.” E então Hitchens liga a TV para ver que calamidade seria capaz de adiar o julgamento de Kissinger, sendo obrigado a assistir uma tomada ao vivo de Manhattan.

Para entender o espaço que Nova York ocupava no coração de Hitchens, basta ler, páginas antes, seu juízo de que, dormir em NY é puro desperdício de tempo, e de seus sonhos com o espaço e os arranha-céus de Manhattan, sonhos na Inglaterra ainda, quando os EUA eram apenas um local de passeio, não uma nova casa. De fato, há dois momentos em Hitch-22 em que o autor usa a mesma invocação que Orwell usou na Catalunha – local que, apesar dos pesares, sem dúvida apresentava um “state of affairs worth fighting for”. O primeiro momento é quando, ainda em seu verdes anos, passeia pela primeira vez pelo interior dos EUA, de ônibus, notando as liberdades e diversidades locais. O segundo momento é no início dos anos 90, quando visita a região curda no norte do Iraque, recém torturada por Saddam, mas ainda resistindo.

Alguns dizem que Hitchens virou para a direita em 2001. Outros colocam a data um pouco mais à frente, em 2002, quando passou a apoiar mais efusivamente a guerra contra Saddam. (Alguns ideologicamente pervertidos colocam a data atrás, nos anos 90, quando Hitchens apoiou a guerra contra Milošević.)

Mas o quanto é verdade que Christopher Hitchens passou para a direita em qualquer momento? Aqueles que fazem o julgamento, obviamente, acham muito natural que a posição de gente como Noam Chomsky em 2003, 2001 e nos anos 90 represente a verdadeira opinião esquerdista; se não a única, a mais respeitável. Os juízes de Hitchens não veem nada demais na reação que a facção do professor do MIT dedicou aos eventos de 2001. Culpar as vítimas pelos ataques de setembro virou quase pensamento único na esquerda, naqueles dias. Agora que os atos terroristas estão prestes a completarem 10 anos, aproveito para lembrar meu papel de mais modesto dos observadores das reações ao ocorrido. Em 2001 eu fazia o 2º ano do Ensino Médio. No dia 12 de setembro, o professor de história disse ter achado pouco apenas dois prédios terem vindo abaixo. Poucos dias depois, um professor substituto de história apareceu em sala de aula com umas edições antigas da Caros Amigos, dizendo aos alunos que “a revista parece que previa” os ataques. Previa como? Listando os crimes reais e imaginários dos EUA no mundo, claro. Com uma lista daquelas, não é racional e mesmo justificável que indivíduos tomem posse de aviões repletos de civis e os atirem contra mais civis? E olha que isso era apenas uma sala de aula em Teresina. Onde meus professore haviam feito suas cabeças?

Naqueles dias turvos podia-se desculpar o homem comum que não visse os terroristas pelo que realmente eram – fascistas islâmicos, isto é, sujeitos de mentalidade totalitária que tiraram sua inspiração do islã político, que também foi seu veículo para a glória, que no caso do fascista é a morte, sua e de outros. Também podia-se perdoar quem, no calor dos acontecimentos e dominando menos que o conhecimento rudimentar da história recente, não visse que a guerra dos fascistas não era contra o imperialismo capitalista, mas declaradamente contra um sistema de valores pervertidos e liberdades excessivas. Podia-se, por fim, perdoar quem não lembrasse que era logicamente impossível os terroristas serem uma tribuna dos orientais oprimidos, dado o fato de que desde sempre a primeira área de atuação do fascismo islâmico é o assassinato de árabes.

Mas pessoas adultas e estudadas não podiam ser perdoadas por expressarem qualquer das racionalizações acima. E não podiam ser poupadas de críticas se fossem da opinião de que aquele pensamento era o único legitimamente de esquerda. Hitchens não perdoou as racionalizações e não poupou críticas. Um dos primeiros artigos que publicou após os ataques, no dia 20 de setembro para a The Nation, é intitulado “Contra a racionalização” – “Alguém supõe que uma retirada israelense de Gaza teria prevenido a matança em Manhattan? É preciso ser um cretino moral para sugerir algo do tipo”. O artigo anterior a esse, de 13 de setembro para o Guardian, foi um avaliação fria intitulado “A manhã seguinte”, um relato o mais objetivo possível sobre o estado de espírito no país atacado; nele o autor tem algumas preocupações – “Meu amigo Hussein Ibish do Comitê Antidiscriminação Arábe-Americano me informa que já houveram casos de violência aleatória contra estabelecimentos de propriedade de árabes. Mas, no geral, tem sido impressionante ver como tais respostas cruas foram mantidas no nível mínimo. O prefeito Rudolph Giuliani (…) prometeu proteção policial extra para cidadãos árabes e muçulmanos, e desconsiderou qualquer ideia de vigilantismo.” E o artigo anterior a esse, de 12 de setembro para o Evening Standard, intitulado “Ainda estamos de pé”, observa com satisfação o fato dos terroristas não terem causado caos nas dimensões que certamente esperavam – “Deve haver alguns sorrisos no inferno”, conclui, “mas aqueles que desejaram este pesadelo e enviaram outros para perpetrá-lo devem estar irritadamente se perguntando por que os ataques não evocaram mais agonia e miséria. Tomara que eles continuem se perguntando.” Esses três textos e outros daqueles dias estão no volume Amor, pobreza e guerra, que saiu no Brasil em 2006 (e é uma ótima introdução para quem nunca leu um livro do autor). Lidos em sequência, contam muito de Hitchens e dos aspectos da sociedade civil estadunidense que mais lhe encantam, eles mesmos alvo do niilismo da Al-Qaeda.

 

-- O autor, em Oxford, sendo convidado a comparecer à delegacia mais próxima após irromper em protesto em uma partida de cricket na qual um dos times era uma equipe segregacionista sul-africana --

-- O autor, no Iraque pós-Saddam --

 

Grande parte da reação da esquerda “anti-imperialista” aos ataques de setembro teve, como lembra Hitchens, precedente nas manifestações ocorridas durante o “affair Rushdie” de uma década antes. Lá, pela primeira vez com mais força, o mundo presenciou a culpabilidade de uma vítima de uma teocracia islâmica. Quando não era diretamente culpado por procurar problema e merecer a fatwa, Rushdie via seu apuro ser tratado como uma situação sem agentes responsáveis, apenas como uma infeliz abstração. Hitch-22 cita o crítico marxista John Berger dizendo, “O affair Rushdie já custou várias vidas humanas e ameaça muitas, muitas mais.” Como observa Hitchens, todas as mortes após a publicação dos Versos Satânicos foram levadas a cabo por turbas paquistanesas ou grupos ligados à teocracia iraniana, e nenhuma morte foi causada por Rushdie e seus amigos ou editores, o que não impediu os relativistas de porem a culpa pela violência no construto “affair Rushdie”. E durante e após a revolução iraniana de 79 foi quando o mundo viu aparecendo pela primeira vez em estridência a relativização dos males do islã político.

Não é surpresa, portanto, que setores da esquerda – com tradição em culpar a vítima e em subestimar o potencial maléfico do islamismo – tivessem reagido como reagiram após os atentados de 2001. Hitchens – que, a propósito, co-editou com Edward Said um ótimo livro sobre os acadêmicos que tentam culpar os civis palestinos por sua miséria, chamado Blaming the victims) – viu diferente. Dias após receber o telefonema da esposa, andando pelas ruas de NY próximas ao vazio deixado pelas torres gêmeas, relembra que, ver “as notas informativas com fotografias dos ‘perdidos’ e ‘desaparecidos’ coladas em muros e janelas de lojas no centro da cidade, escritas em todas as línguas, do espanhol ao armênio”, o fez ouvir “o eco das vítimas de esquadrões da morte.”

Então temos Hitchens apoiando a guerra do Afeganistão, sempre colaborando com a The Nation. Em seguida temos Hitchens fazendo campanha pela guerra do Iraque. É quando enfim se desliga da The Nation, após 20 anos, por não se sentir à vontade com o tipo de pacifismo com que a revista tinha se alinhado.

Aí. Aí está o mais forte argumento daqueles que defendem que, se não mais cedo, com certeza mais tarde Hitchens passou para o campo da direita. Como pode alguém que se alinha com W. Bush para defender uma guerra baseada em argumentos mentirosos não ter definitivamente abandonado o campo progressista?

Mas pelo menos quatro fatos precisam entrar nessa equação. E os fatos acabam complicando o quadro fácil em que Hitchens aparece pintado à direita. Um: Hitchens apoiava a derrubada de Saddam desde o final da Guerra do Golfo, antes mesmo de Bill Clinton se eleger. Dois: O Comitê Pela Libertação do Iraque, que Hitchens estabeleceu, entre outros, com a ajuda do dissidente iraquiano Kanan Makiya, contou com o apoio de figuras respeitáveis em todo o espectro político, como Vaclav Havel e Lech Walesa; além disso, Hitchens labutou pela causa iraquiana, não junto a empresas petrolíferas ou fundamentalistas cristãos com os dois olhos na hegemonia de Israel no Oriente Médio, mas junto ao já citado Makyia (trotskista anglo-árabe), Peter Galbraith (filho do famoso economista de esquerda e ele mesmo ativista dos direitos humanos), Ann Clwyd (do movimento trabalhista galês), Rolf Ekeus (social-democrata sueco), Bahran Salih (socialista curdo), Kenneth Pollack (que serviu no governo Clinton) e Ahmad Chalaby (o banqueiro exilado; figura mais controversa desse pequeno exército).

Três: o funcionário do governo W. Bush com quem Hitchens mais se tornou íntimo foi Paul Wolfowitz, amigo de Makyia e defensor da derrubada de Saddam desde quando este era um cliente dos EUA – sendo portanto uma figura mais digna de respeito do que aqueles que faziam oposição a Saddam mas, a partir da Guerra do Golfo, passaram a fazer turismo em Bagdá, a mais nova Meca do antiamericanismo. Wolfowitz com certeza é um neoconservador, e o idealismo neocon em política externa realmente parece a pior coisa do mundo, até que você estuda um pouco sobre a escola “realista” de Kissinger, que nunca deixou o massacre de curdos por Saddam lhe tirar uma noite de sono. Hitchens escreve que se Wolfowitz, essa figura maldita do governo W. Bush, tivesse se mantido simpatizante do Partido Democrata e virado assessor de um eventual governo Al Gore, “muitos liberais e esquerdistas em Washington o teriam elogiado por atacar a suposição racista de que os árabes preferem, ou mesmo precisam, ser comandados por déspotas.”

E quatro: Hitchens não defendeu a guerra contra Saddam baseado nas supostas ligações do ditador com o 11 de Setembro ou nas alegadas armas de destruição em massa. Não é sequer verdade dizer que durante a campanha pela guerra ele desprezou aliados na esquerda tradicional. É que a esquerda que ocupava o centro de suas preocupações era a iraquiana, àquela altura executada, encarcerada ou exilada. Comunistas, socialistas, social-democratas, liberais, muitos deles amigos seus de décadas atrás. Perto da situação desesperadora dessa gente e da população iraquiana como um todo, os argumentos anti-imperialistas da esquerda ocidental lhe pareciam verdadeiros insultos.

Saddam podia ou não ter as armas escondidas. Se não as tivesse, esse era um fato que contava a favor da intervenção, dado o histórico baathista de desenvolvimento e uso de armas de destruição em massa. Saddam também passou os anos 90 dificultando as inspeções da ONU, para deixar a comunidade internacional na dúvida. Esse foi um blefe seu, provavelmente para dissuadir qualquer aventura imperialista, mas que acabou no final das contas saindo pela culatra.

Da mesma forma, Saddam não teve envolvimento com o 11 de Setembro. Apenas, foi o ditador árabe que mais comemorou o ocorrido e que mais deu abrigo a guerreiros santos corridos do Afeganistão. Também não é verdade, como virou moda dizer no pós-invasão, que o regime de Saddam era completamente secular e portanto logicamente incompatível com grupos terroristas islâmicos. Quando não por outra, havia o grupo Ansar al-Islam, de inspiração wahhabista e operando no norte do Iraque contra os inimigos da ditadura e que, após a invasão, passou a atacar as forças aliadas e qualquer grupo iraquiano que cometesse a ousadia de dar uma chance ao regime pós-Saddam. A campanha Al-Anfal, pela qual o ditador cometeu genocídio na região curda, tem seu nome retirado diretamente do Corão. E Hitchens tinha em mente o terrorismo que Saddam patrocinava na Palestina, pagando uma bolada a famílias de “mártires” que se explodissem na luta contra o inimigo judeu. A causa palestina desde sempre foi cara demais a Hitchens para que esse tipo de “ajuda externa” passasse despercebida. Saddam, o patrono de Abu Nidal, chefe terrorista que planejou e fez levar a cabo o assassinato de diversos líderes da Organização para a Libertação da Palestina que eram a favor de negociar com Israel uma solução de dois estados, inclusive Issam Sartawi, o delegado palestino na Internacional Socialista. Saddam, o assassino de árabes: ninguém na história moderna matou tantos árabes quanto ele.

Mas não deveriam os países que invadiram o Iraque em 2003 terem dado uma chance para a democracia florescer internamente no país árabe? As “eleições” iraquianas de 2002, com 100% de comparecimento e 100% dos votos para Saddam (números oficiais) dão um indício do nível de oposição permitido pelo partido único. Achar que a democracia pudesse florescer em breve no Iraque, com seus filhos sádicos já de olho no poder, é como ter achado no início deste ano que, após invadir e subjugar Benghazi, no leste da Líbia, o coronel Kadafi faria até dezembro um plebiscito nacional sobre sua permanência no poder. Mas, e daí se a ditadura iraquiana ainda demorasse mais cinco anos ou cinco décadas para cair? Tudo não teria sido melhor do que mais uma ação imperialista do Ocidente? Cada um responda como achar melhor, mas eu duvido que quem leu República do medo, o estudo de Kanan Makyia sobre a natureza do regime iraquiano, tenha sido capaz sequer de elaborar essas perguntas.

No que criticar a posição de Hitchens em relação ao Iraque? Em um aspecto em especial. Após a derrubada de Saddam e o começo do show de horrores de atentados terroristas espetaculares, Hitchens, pelo menos que eu saiba, nunca ocupou o espaço público para explicitar suas críticas em alto e bom som, contra a incompetência do governo W. Bush, incompetência administrativa e mesmo militar. Hitchens tinha vários sites, jornais, revistas e tevês à sua disposição e deveria ter deixado claro onde suas previsões estavam erradas. É claro que um país sem Saddam no comando é naturalmente melhor que um país com Saddam, mas exatamente pelo caráter deste ser tão pervertido, não é exatamente sinal de enorme progresso dizer, “Com Saddam era pior”. E não é desculpa apontar para o fato do número de atentados ter finalmente caído. Em Hitch-22 temos apenas duas páginas sobre a incompetência da equipe de Bush, em particular de Donald Rumsfeld. Mas duas páginas é quase nada. Makyia, anos atrás, deixou claro onde estava errado. Paul Berman fez o mesmo. E, na França, Bernard Kouchner, logo em 2004. Christopher Hitchens não fez nada do tipo.

Mas, voltando ao debate sobre que lugar Hitchens ocuparia no mapa político, vejam que interessante: como os outros o classificam não significa muito pra ele. O motivo por que acho que tanto essa observação quanto a discussão nos parágrafos precedentes têm relevância é que cheguei a uma conclusão tendo lido Hitch-22 coincidentemente pouco tempo depois de enfim ter lido uma parcela decente dos ensaios de Orwell. A conclusão é que Christopher Hitchens compartilha com George Orwell, um de seus herois intelectuais, duas características aparentemente paradoxais: nenhum dos dois jamais se conformou que fossem aqueles “progressistas” mais ortodoxos e intolerantes os que deveriam ditar o que é realmente ser ou não ser de esquerda, ao mesmo tempo que ambos tentaram encarar cada situação de crise internacional com base nos próprios conhecimentos e julgamentos, se lixando para a prática comum de encaixar uma opinião nos moldes do que é comumente tido como progressista. O que liga essas duas posições é, claro, a aversão à irracionalidade e aos argumentos de autoridade, à negação do direito dos sujeitos independentemente tecerem suas análises e chegarem às suas próprias conclusões. Orwell trabalhava ao lado de socialistas e escrevia para veículos socialistas e confessou que, em caso de guerra entre União Soviética e Estados Unidos, não titubearia em tomar o lado do segundo. Hitchens sempre teve e ainda tem um amplo espectro de amigos na esquerda, escreve para veículos que não são exatamente conservadores (Slate, Atlantic e Vanity Fair) e é um entusiasta das recentes guerras estadunidenses. Orwell era realmente um socialista e Hitchens, realmente um esquerdista? Pergunta das menos relevantes. Mas não deixemos os bacanas que prontamente respondem na negativa terem vida fácil.

Das coisas mais tolas que já deram o ar da graça no século 21 é a teoria dos “sinais trocados”, elaborada a toque de caixa pelos que se acham esquerdistas da gema (porque nunca traem a causa). De acordo com ela, “ex-esquerdistas” continuam vendo o mundo com a mesma obtusidade com que o viam em seus anos de esquerdismo ortodoxo, apenas, agora, “trocaram os sinais”. Claro. Porque se o sujeito defendeu nos anos 60 a invasão da Tchecoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, não é óbvio que hoje ele só pode defender os ataques da OTAN nos Bálcãs, no Afeganistão e na Líbia, e dos aliados no Iraque, em bases igualmente absurdas? Seu apoio às Brigadas Vermelhas italianas não é tão reprovável quanto sua condenação do Hamas e do Hezbollah? Não há uma sabedoria toda especial em nunca trocar os sinais, mantendo-se na defesa coerente da democracia popular cubana? A teoria aparece em artigos embrulhada na crítica debochada dos que agora defendem os “valores da democracia liberal” (as aspas são dos teóricos) com o mesmo vigor com que antes defendiam a ditadura do proletariado – duas visões de sociedade que perfeitamente se equivalem, a única diferença sendo uma questão de sinalização. Mas não tem jeito. Esses críticos fazem melhor em debater cada situação específica em que julgam a posição dos “ex-esquerdistas” equivocada, rebatendo argumentos com argumentos. Mero patrulhamento e jogos de linguagem não adiantam mais.

Li outro dia em livro de Paul Berman um perfil de André Glucksmann, outro da geração de 68. Nos anos 70, na descrição de Berman, “ele descobriu que, ao largar o vocabulário esquerdista, poderia se livrar de uma tradição política inibidora. Então se tornou um antitotalitário com um vocabulário que não era nem esquerdista nem direitista – seu próprio vocabulário, hiperemocional (essa era sua herança dos tempos de Nova Esquerda), barroco, florido, filosófico, mas não mais ideológico em qualquer das versões convencionais.” Troque alguns adjetivos no final dessa citação e ela pode se tornar uma descrição certeira da trajetória de Hitchens. E de Berman, a propósito. E Kouchner, Pascal Bruckner, Bernard-Henri Lévy, Daniel Cohn-Bendit e tantos outros.

Em março de 1975, assistindo em Lisboa a demonstrações populares pós-fascismo, Hitchens se viu em um comício socialista com cartazes do tipo, “Socialismo Sim! Ditadura Não!” e “Nem Kissinger, Nem Brezhnev”, com o que concordava integralmente. O comício era um recado da esquerda democrática à esquerda autoritária. Hitchens estava acompanhado de seu amigo ferrenhamente comunista Colin MacCabe, que primeiro ficou invocado com todo aquele espírito anti-Moscou, mas depois se pegou dizendo, “Às vezes as pessoas erradas podem tomar a direção correta”. Essa frase ficou registrada na cabeça de Hitchens, e relembrada mais de uma vez no pós-11 de Setembro, quando o acuaram de ser estar meramente defendendo a linha de W. Bush. Estando nos anos 90 na histórica cidade de Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina (país de maioria muçulmana que, a exemplo da Albânia, participou simbolicamente da guerra contra Saddam), para cobrir o ataque que aquela sociedade vinha sofrendo das forças armadas e milícias cristãs genocidas a mando de Slobodan Milošević, Hitchens relata a primeira vez que viu um morteiro explodir bem próximo: “(…) aconteceu em plena luz do dia, sem a possibilidade de um erro de alvo, fazendo um maldito chiado enquanto caía contra o muro da bela e inconfundível Biblioteca Nacional de Bósnia e Herzegovina.”

Na sequência, você pode detectar tanto a rendição de um progressista ao imperialismo capitalista quanto uma forma de expressão da velha solidariedade esquerdista: “Senti como resposta um grito no fundo do peito. Quando decodificado, esse urro interno tomou a forma bastante simples de um apelo para que a Força Aérea dos Estados Unidos aparece nos céus bósnios e enchesse de medo e tremor os rostos gordos, vermelhos e enervados dos soldados da artilharia sérvia que até então não haviam perdido uma única batalha contra civis.” E na página seguinte: “Ao final daquele conflito, eu estava sendo chamado de traidor e belicista por boa parte da esquerda, e fiquei tanto chocado quanto aliviado ao descobrir que, na verdade, eu não me importava mais.”

::: Hitch-22 ::: Christopher Hitchens ::: Nova Fronteira, 2011, 560 páginas :::
::: compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::

LEIA TAMBÉM
::: Amor, pobreza e guerra: Ensaios e viagens pela cultura e o mundo de hoje :::
::: Christopher Hitchens ::: Ediouro, 2006, 368 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

Avatar
Colabore com um Pix para:
editor.amalgama@gmail.com